Festas juninas: celebração da família ou do diabo? ContilNet te explica melhor a polêmica

ContilNet procurou entender melhor porque há tanta desaprovação de pessoas para a festa mais tradicional no país, nos meses de junho e julho

Nos dias de hoje, na era da instantaneidade, quando pode-se opinar sobre tudo sem (quase nenhuma) ressalvas, não era de se admirar que a polêmica em torno das festas juninas, entre junho e julho, pudesse gerar debates acalorados sobre o que pode e o que não pode, se a família deve ou não ir a uma festa de arraial ou se está errado fazer na escola, tendo como único parâmetro a fé das pessoas.

Na condição de anonimato, uma diretora de escola particular de Rio Branco aceitou falar sobre o tema ao ContilNet. Ela conta como nesta época do ano, a sua instituição vive o dilema de agradar as crianças e seus pais, driblando o ponto nevrálgico da crença religiosa que divide opiniões, promove críticas e, muitas vezes, é mal compreendida, sobretudo pela ala dos evangélicos mais tradicionais.

Em síntese, o motivo é bem simples. Muitos protestantes veem nas celebrações juninas a adoração a santos da crença católica, algo que entendem como não permitido por conta de uma passagem na Bíblia que proibiria essa prática.

Vista áerea do Arraial Cultural, promovido todos os anos, pelo governo do estado, onde as quadrilhas juninas se apresentam, no Calçadão da Gameleira/Foto: Marcos Vicentti/Secom

Ana, nome fictício, que administra uma escola privada em Rio Branco com mais de mil estudantes, relata um aumento no número de alunos, cujas famílias hoje foram convertidas às religiões neopentecostais. “Elas são aquelas, cuja ideia de uma festa junina está relacionada unicamente à Igreja Católica e a seus santos, o que respeitamos, lógico”, diz a diretora.

Ela explica que a situação fez com que os pais proibissem seus filhos, em anos anteriores, de participar dos festejos culturais nesta época do ano. “Então, mudamos o nome dos festejos para incluir nas atividades parte dos estudantes cujas famílias são mais críticas à data. A solução foi optarmos por eventos mais plurais, voltados para temas sentados no rural, na agricultura e nunca no religioso”, pontua a educadora.

Com slogans do tipo ‘Venha para a festa caipira da escola’, a coisa melhorou, mas não resolveu.

“Algumas famílias entenderam que, realmente, não havia nenhum culto aos santos católicos, que eles não são mencionados em nenhum momento dos festejos, mas houve quem fosse mais além, cogitando que as comidas típicas são consagradas a São João, Santo Antônio e São Pedro”, assevera a gestora.

Essa condição causa, até hoje, um desconforto entre pais evangélicos, que movidos pelo velho ditado de que “na dúvida não prossiga”, continuam proibindo seus meninos e meninas de participarem.

Integrantes da quadrilha Sassaricano na Roça em apresentação/Foto: Marcos Vicentti/Secom

Para acrescentar lenha à fogueira, nas redes sociais não faltam influenciadores abordando o tema. Alguns de forma mais jocosa, outros levando a sério e até entrevistando pessoas do meio evangélico para reforçar a tese de que “está tudo errado” em festa de arraial.

Nem católicos, nem protestantes, as festas eram para a natureza

Os ciclos da natureza, com o encerramento de uma estação e o começo de outra, é o que ditavam as festas na Europa medieval, que originaram os arraiais no Brasil. Pelo menos, esse é o consenso de todo historiador e estudioso do comportamento humano sobre o tema.

“Essas pessoas celebravam a agricultura, principalmente, a colheita farta de grãos em determinados períodos do ano. O objetivo é que esses rituais de compartilhar e estabelecer alianças entre as famílias, pudessem abençoar o próximo período agrícola”, explica a psicóloga acreana Fernanda Saab, que estuda sobre o tema e as relações comportamentais entre as pessoas com objetivos diversos.

Portanto, fartura e abundância eram os temas centrais dos arraiais mais primitivos, incluindo momentos de batismo, de matrimônio e de compadrio, que foram reinventados pela Igreja Católica, talvez, como uma forma de ‘apagar vestígios considerados pagãos’ pelos bispos católicos da época.

Psicóloga Fernanda Saab: “celebrações, do ponto de vista da origem, são meramente culturais”/Foto: Álbum pessoal

Desse modo, a leitura que se faz destas festas é a de que elas remetem a uma origem puramente cultural e não religiosa – não podendo, portanto, no seu embrião ser reivindicada por católicos ou outras crenças. Neste sentido, a festa junina é produto do povo e seus costumes, nunca uma propriedade religiosa.

No Instagram, discursos com viés religiosos causam polêmicas

Dezenas de páginas dedicadas à comunidade evangélica abordam o assunto exaustivamente, todos os dias, sobretudo, nesta época do ano. Uma delas é do influenciador evangélico Ita Yamamoto, que leva pessoas – protestantes mais conservadores e outros nem tanto –, a se pronunciarem sobre o tema.

Em um reel, ele brinca, até de uma forma ingênua, com os vários tipos evangélicos, perguntando o seguinte para cada um: “Arraial Gospel é pecado?’

Arraial Cultural, em Rio Branco, é um dos mais tradicionais do estado, no centro da capital/Foto: Marcos Vicentti/Secom

“Não. Porque é o seguinte: o negócio é fazer de louco para ganhar um louco. Desde que o mundo não entre para dentro da igreja ou da festa cristã, normal. Quem acha isso errado vai ler a Bíblia, porque quem lá, quem julga é só fariseu”, diz o primeiro.

“Cara, se é pecado, eu não sei não. Mas eu vou lá pra comer, né, véi !? É um espetinho. Se é pecado, mano, não sei. Gosto mais da comida. Nossa Senhora”, afirma o seguinte.

“Eu acho que depende da motivação. Se a motivação é imitar o mundo e fazer a festa junina, que é a festa dedicada a São João, acho que é pecado, porque não é uma crença nossa. Mas a gente tem que respeitar isso. Caso seja algo caipira, não vejo problema porque não é do diabo. Não existe nada do diabo. O diabo não foi quem criou arraial”, opina o último personagem.

E você, qual é a sua opinião? Deixa a sua lá nos comentários do Instagram de ContilNet.

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