Séries romùnticas LGBTQIA+ produzidas na Tailùndia causam furor na Ásia

Com tramas que mostram casais atraentes, em paisagens bucólicos e com uma mensagem sobre ser fiel a si mesmo, séries fazem sucesso particularmente entre mulheres heterossexuais

Por O Globo 11/06/2024

Huang Bingbing, uma mulher chinesa de 36 anos, assegura que no pior momento de sua vida, afundada na depressão, encontrou consolo assistindo a uma série tailandesa sobre a história de amor entre dois homens, um tipo de produção que causa furor na Ásia.

— Todos os amores sĂŁo vĂĄlidos, sem importar que sejam homens, mulheres ou pessoas de um terceiro gĂȘnero — afirma Huang, que deixou seu povoado na China para emigrar para a TailĂąndia, levada pelo amor Ă s sĂ©ries romĂąnticas de temĂĄtica LGBTQIA+ produzidas no paĂ­s.

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FĂŁs tailandesas seguram fotos de atores que fazem sĂ©ries do gĂȘnero ‘Boys Love’ — Foto: MANAN VATSYAYANA / AFP

Uma delas, intitulada “Amor por Acaso”, produzida em 2018, conta a histĂłria de um “amor imaturo” entre dois homens. Huang assegura que a sĂ©rie a salvou de uma dura depressĂŁo que a acometeu hĂĄ cinco anos.

O gĂȘnero “Boys’ Love” se popularizou no JapĂŁo nos anos 1960, representado em mangĂĄs chamados “yaoi”. Mas, juntamente com seu equivalente feminino, o “Girl’s Love, se tornou um fenĂŽmeno cultural internacional graças Ă s produçÔes tailandesas. Estas sĂ©ries com tramas que mostram casais atraentes, em paisagens bucĂłlicos e com uma mensagem sobre ser fiel a si mesmo, fazem sucesso particularmente entre mulheres heterossexuais.

InfluĂȘncia cultural

As sĂ©ries tailandesas se tornaram “muito populares” durante a pandemia de covid-19, diz Ă  AFP Kira Thu-Ha Trinh, seguidora do BL. “Pode parecer grosseiro, mas os tailandeses fazem melhor”.

Até mesmo a China foi conquistada por estes dramas, mas desde 2021, o governo comunista proibiu as empresas nacionais de produzir ou divulgar séries do tipo.

— Nós gostamos e vamos encontrar formas de continuar assistindo-as — assegura Huang Bingbing.

Para a TailĂąndia, o sucesso de suas sĂ©ries Ă© uma ferramenta para desenvolver sua influĂȘncia cultural no mundo, em plena campanha do governo para melhorar sua imagem internacional, com o objetivo de atrair turistas e incentivar as exportaçÔes, duas fontes de renda muito necessĂĄrias para o paĂ­s apĂłs o impacto da pandemia na economia.

O nĂșmero de BL produzidos na TailĂąndia passou de 19 entre 2014 e 2018 para 75 em 2022, afirma Poowin Bunyavejchewin, especialista em Sudeste AsiĂĄtico da Universidade de Thammasat, em Bangcoc. Segundo ele, estas sĂ©ries sĂŁo populares atĂ© mesmo em paĂ­ses mais conservadores, como Índia, IndonĂ©sia e MalĂĄsia, embora seus fĂŁs sejam discretos.

— HĂĄ comunidades de fĂŁs enormes (nestes paĂ­ses), mas nĂŁo podem dizĂȘ-lo publicamente, pois podem sofrer pressĂ”es socioculturais e religiosas — acrescenta.

Na Tailùndia, a comunidade LGBTQIA+ tem mais visibilidade e tolerùncia do que em qualquer outro país do continente e se espera que o governo legalize o casamento homoafetivo nas próximas semanas. Mas, apesar da popularidade, estas séries não refletem de forma realista a vida das pessoas desta comunidade na Tailùndia, onde os ativistas consideram que ainda hå trabalho a fazer para mudar a mentalidade.

— A vida dos homens homossexuais na TailĂąndia pode ser bastante trĂĄgica. TĂȘm problemas familiares. Mas ninguĂ©m quer falar sobre o assunto — explica Poowin.

O ator Suppapong Udomkaewkanjana, protagonista da sĂ©rie de sucesso “Amor por Acaso”, criou sua prĂłpria produtora audiovisual em 2020 para desenvolver histĂłrias que vĂŁo alĂ©m do romance. O tailandĂȘs de 26 anos se reuniu em um templo de Bangcoc com o elenco de sua Ășltima sĂ©rie, um GL, para rezar por seu sucesso.

— Com os BL, acho que hĂĄ oportunidades para defender a igualdade de gĂȘnero e o casamento igualitĂĄrio — afirmou.

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