‘Cunhadas do Acre’: mulheres de presos fazem grupo de apoio e viram influenciadoras na internet

“Uma apoia a outra. O sistema Ă© muito complicado. As pessoas de fora nĂŁo enxergam", diz uma das cunhadas entrevistadas pelo ContilNet

Por Matheus Mello, ContilNet 21/07/2024 Atualizado: hĂĄ 2 anos

Nos Ășltimos meses, o TikTok presenciou o surgimento de uma nova febre: as cunhadas, termo criado para se referir a mulheres conhecidas por ter algum tipo de relacionamento com detentos.

O termo cunhadas surgiu dentro das celas em razĂŁo dos homens presos, que muitas vezes enxergam os seus companheiros como irmĂŁos, ou seja, suas esposas se tornam cunhadas uns dos outros.

'Cunhadas do Acre': mulheres de presos fazem grupo de apoio e viram influenciadoras na internet

Termo ‘cunhadas’ ganhou repercussĂŁo nos Ășltimos anos/Foto: ANDRESSA ANHOLETE/Ilustrativa

No Acre, o ContilNet teve acesso a grupos de WhatsApp com mais de 500 mulheres de detentos, espalhadas em diferentes municípios do estado. Uma delas é Thatianne Costa, que explicou que intenção dos grupos é criar uma rede de apoio para as cunhadas, que quase sempre são estigmatizadas pela sociedade.

“Uma apoia a outra. O sistema Ă© muito complicado. As pessoas de fora nĂŁo enxergam. Mas dentro a gente sabe o sofrimento, as humilhaçÔes que passamos. E aĂ­ Ă© uma dando suporte para outra. Quem estĂĄ aqui fora nĂŁo sabe o que acontece lĂĄ dentro”, disse.

Ainda na entrevista, ela conta as principais dificuldades encontradas por ela e por mulheres, que muitas vezes são forçadas a equilibrar suas próprias vidas com as demandas emocionais e pråticas da vida de um detento.

'Cunhadas do Acre': mulheres de presos fazem grupo de apoio e viram influenciadoras na internet

Grupos somam mais de 500 mulheres e serve como rede de apoio para as ‘cunhadas’/Foto: Reprodução

A principal queixa entre as cunhadas é justamente os mecanismos impostos pela administração penitenciåria, que dificultam o acesso delas às visitas dos maridos. Uma delas, é a retenção da carteirinha de visita sem justificativa, necessåria para a entrada delas durante as visitas. Ela cita ainda um caso recente que aconteceu na Penitenciåria de Tarauacå, em que quase 20 mulheres ficaram quase 4 horas esperando o início da visita após um atraso da administração do presídio.

“Eles nĂŁo estavam nem aĂ­. Faziam de tudo para demorar. Nessa Ășltima vez aconteceu de uma mĂŁe ser agredida na frente por uma agente penitenciĂĄria”.

Thatianne lembra que as cunhadas desempenham um papel crucial na vida dos detentos e na dinĂąmica familiar. Vem delas o suporte emocional, logĂ­stico e financeiro enquanto eles cumprem suas penas.

“Eles jĂĄ estĂŁo lĂĄ pagando pelo o que eles fizeram. A gente nĂŁo tem culpa. A gente sĂł estĂĄ lĂĄ porque a gente visita o marido. Uma mĂŁe visita um filho, uma mulher visita o esposo. EntĂŁo gente, estĂĄ lĂĄ para ajudar eles, nĂŁo pra atrapalhar. O preso quando ele tem uma visita Ă© gratificante, ele tem uma chance de se socializar aqui fora. Ele sabe que vai esperar a visita, a visita vai conversar com ele, vai apoiar, vai dizer que estĂĄ esperando ele lĂĄ fora, que vai dar certo.  Tudo isso Ă© importante para ele. O preso sem uma visita, Ă© um preso sem coração”.

Além do grupo de apoio, algumas cunhadas também decidiram começar a contar um pouco da rotina nas redes sociais. Foi aí que muitas delas começaram a virar influenciadoras com milhares de seguidores no TikTok.

É o caso da acreana Kalinne Silva, com quase 20 mil seguidores na plataforma. Com os vídeos sobre a rotina de mulher de preso, ela atingiu mais de 100 mil curtidas no seu perfil.

@kalinne.silvaa

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