Deputados do Reino Unido aprovam projeto de lei sobre morte assistida, dando 1Âș passo para mudança histĂłrica na legislação

Medida prevĂȘ acesso a pacientes adultos e que tenham expectativa de vida de menos de seis meses

Por O Globo 30/11/2024

ApĂłs um debate que durou quase cinco horas, a CĂąmara dos Comuns do Reino Unido, o equivalente Ă  CĂąmara dos Deputados, votou nesta sexta-feira a favor de um projeto de lei que prevĂȘ a legalização da morte assistida para pacientes adultos com doenças terminais, dando o primeiro passo em um debate histĂłrico. Com o aval dos deputados, o texto agora seguirĂĄ sob um intenso escrutĂ­nio e anĂĄlise dos parlamentares ao longo dos prĂłximos meses antes de virar lei. A votação sobre o tema Ă© a primeira em quase uma dĂ©cada: em 2015, um projeto similar foi rejeitado.

Deputados do Reino Unido aprovam projeto de lei sobre morte assistida, dando 1Âș passo para mudança histĂłrica na legislação

Ativistas que apoiam o projeto de lei do suicídio assistido seguram cartazes em uma manifestação do lado de fora do Palácio de Westminster, no centro de Londres, em 29 de novembro de 2024 — Foto: BENJAMIN CREMEL/AFP

O Projeto de Lei para Adultos com Doenças Terminais (Fim da Vida) recebeu 330 votos favoråveis e 275 contrårios. A proposta permite o suicídio assistido na Inglaterra e no País de Gales para adultos com uma doença incuråvel, que tenham uma expectativa de vida de menos de seis meses e que sejam capazes de ingerir a substùncia designada para causar a morte. A escolha teria que ser consentida por um juiz e dois médicos.

O projeto segue agora para a fase de comitĂȘ, na qual os legisladores podem apresentar emendas, um processo que provavelmente serĂĄ complicado. Em seguida, a legislação deve passar por outras votaçÔes na CĂąmara dos Comuns e na CĂąmara dos Lordes (equivalente ao Senado). O processo provavelmente levarĂĄ meses — sĂł voltarĂĄ aos parlamentares em abril, informou o jornal britĂąnico The Guardian. Se for aprovado e se tornar lei, haverĂĄ um perĂ­odo de implementação de dois anos.

A autora do projeto, a parlamentar trabalhista Kim Leadbeater, descreveu a votação desta sexta-feira como “respeitosa e compassiva”, segundo a rede britĂąnica BBC. A parlamentar observou que todas as questĂ”es levantadas, como cuidados paliativos, os direitos das pessoas com deficiĂȘncia, e o Serviço Nacional de SaĂșde britĂąnico (NHS), devem ser protegidos. A parlamentar acrescenta que haverĂĄ um comitĂȘ robusto para examinar o projeto de lei e tornĂĄ-lo “o melhor possĂ­vel”.

Ativistas a favor do projeto de lei sobre suicídio assistido comemoram do lado de fora do Palácio de Westminster, no centro de Londres, após projeto de lei ser aprovado — Foto: BENJAMIN CREMEL/AFP
Ativistas a favor do projeto de lei sobre suicídio assistido comemoram do lado de fora do Palácio de Westminster, no centro de Londres, após projeto de lei ser aprovado — Foto: BENJAMIN CREMEL/AFP

A presidente do ComitĂȘ de SaĂșde, a liberal Layla Moran, descreveu esta sexta como um “dia de muito orgulho para o Parlamento”. A parlamentar disse Ă  BBC que ficou “satisfeita com a aprovação”, mas observou tambĂ©m o nĂșmero significativo de colegas que votaram contra.

— As preocupaçÔes que as pessoas levantaram merecem ser levadas extremamente a sĂ©rio, e agora Ă© o momento de nos engajarmos de boa-fĂ© e continuarmos a ter essas discussĂ”es muito respeitosas — afirmou.

Ao abrir o debate Ă s 9h30 (6h30 em BrasĂ­lia), Leadbeater afirmou que a mudança na lei daria Ă s pessoas com doenças terminais “escolha, autonomia e dignidade no fim de suas vidas”. Em entrevista ao jornal britĂąnico The Guardian, a parlamentar comparou a luta pelo tema ao movimento das mulheres por acesso ao aborto. Os dois ativismos, observou, falam sobre o direito Ă  escolha sobre o prĂłprio corpo.

Duas pesquisas de opinião divulgadas na semana passada indicaram que a maioria dos britùnicos apoia a mudança da lei, que faria com que o Reino Unido seguisse o rastro de vårios países europeus e de outros continente. O projeto britùnico é mais rígido do que as leis de morte assistida de outros países vizinhos, incluindo uma proposta que sob consideração na França. Apoiadores argumentam que permitir o suicídio assistido tornaria algumas mortes menos dolorosas.

‘Cuidar, nĂŁo matar’

Mas nem todos enxergam o tema da mesma forma. Opositores do projeto se reuniram do lado de fora do Parlamento para pedir aos deputados que votassem contra. Eles seguravam cartazes com os dizeres “Mate o projeto de lei, nĂŁo os doentes” e “cuidar, nĂŁo matar”. O grupo Care Not Killing, que reĂșne organizaçÔes e indivĂ­duos, lamentou a aprovação. Mas reconheceu tambĂ©m em nota que ficaram “muito encorajados”.

“Quanto mais os parlamentares ouvem sobre suicĂ­dio assistido e eutanĂĄsia, mais eles se voltam contra a mudança da lei e querem, com razĂŁo, que o governo se concentre em consertar o falido sistema de cuidados paliativos do Reino Unido”, argumentaram.

O tema encontra bastante resistĂȘncia principalmente entre os lĂ­deres religiosos. No Ășltimo fim de semana, quase 30 lideranças assinaram uma carta conjunta afirmando que estavam “profundamente preocupados” com a proposta. Os crĂ­ticos insistem que a legalização poderia conduzir algumas pessoas a se sentirem pressionadas a pĂŽr fim Ă  prĂłpria vida, enquanto outros argumentam que o sistema de saĂșde nĂŁo estĂĄ pronto para uma mudança tĂŁo marcante.

Manifestantes contrários ao projeto de lei do suicídio assistido se ajoelham em oração após a aprovação do projeto de lei para legalizar a eutanásia no Reino Unido — Foto: BENJAMIN CREMEL/AFP
Manifestantes contrários ao projeto de lei do suicídio assistido se ajoelham em oração após a aprovação do projeto de lei para legalizar a eutanásia no Reino Unido — Foto: BENJAMIN CREMEL/AFP

Os parlamentares tiveram liberdade de voto, o que significa que era praticamente impossĂ­vel prever o resultado. Trabalhistas, conservadores, liberais democratas e reformistas se dividiram internamente. Apenas os verdes votaram favoravelmente de maneira unĂąnime, observou a BBC.

‘Direito de escolha’

O texto de Leadbeater Ă© um projeto de lei dos membros privados, isto Ă©, quando os textos sĂŁo apresentados por parlamentares e lordes que nĂŁo sĂŁo integrantes do governo. Apesar disso, segue a promessa do primeiro-ministro Keir Starmer, antes de assumir o poder em julho, de permitir que o Parlamento revisitasse a questĂŁo. O premier britĂąnico votou a favor da permissĂŁo do suicĂ­dio assistido em 2015, mas com salvaguardas “robustas”. De acordo com o The Guardian, Starmer votou a favor do projeto de lei debatido nesta sexta.

Shabana Mahmood, a polĂ­tica muçulmana mais graduada do paĂ­s, argumentou em uma carta recente aos eleitores que “o Estado nunca deve oferecer a morte como um serviço”, ao mesmo tempo em que observou que baseava sua posição em sua fĂ©. A radialista Esther Rantzen, que tem uma doença terminal e liderou a campanha por uma mudança na lei, pediu na vĂ©spera que outros parlamentares fossem honestos quanto a sua fĂ© ser a base de qualquer oposição.

— Eles tĂȘm o direito de escolher, mas, por favor, sejam honestos quanto Ă  sua real motivação — disse Ă  rĂĄdio LBC.

Enquanto isso, o conservador e ex-premier Rishi Sunak votou favorĂĄvel ao projeto. Em artigo de opiniĂŁo, ele argumento que “o projeto de lei […] reduzirĂĄ o sofrimento”. O tambĂ©m ex-primeiro-ministro David Cameron, que se opĂŽs Ă  mudança da lei de 2015, revelou que havia mudado de ideia sobre o tema. “Como os ativistas argumentaram de forma convincente, essa proposta nĂŁo se trata de acabar com a vida. Trata-se de abreviar a morte”, escreveu no jornal The Times na quinta-feira.

No entanto, outros ex-premiers — incluindo Liz Truss, Boris Johnson, Theresa May e Gordon Brown — disseram ser contrários à proposta.

Atualmente, o suicĂ­dio assistido Ă© proibido na Inglaterra, no PaĂ­s de Gales e na Irlanda do Norte, e acarreta uma pena mĂĄxima de 14 anos de prisĂŁo. Na EscĂłcia, que tem um sistema jurĂ­dico separado e poderes delegados para definir sua prĂłpria polĂ­tica de saĂșde, nĂŁo se trata de um crime especĂ­fico. Mas pode deixar a pessoa exposta a outras acusaçÔes, inclusive homicĂ­dio.

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