ApĂłs um debate que durou quase cinco horas, a CĂąmara dos Comuns do Reino Unido, o equivalente Ă CĂąmara dos Deputados, votou nesta sexta-feira a favor de um projeto de lei que prevĂȘ a legalização da morte assistida para pacientes adultos com doenças terminais, dando o primeiro passo em um debate histĂłrico. Com o aval dos deputados, o texto agora seguirĂĄ sob um intenso escrutĂnio e anĂĄlise dos parlamentares ao longo dos prĂłximos meses antes de virar lei. A votação sobre o tema Ă© a primeira em quase uma dĂ©cada: em 2015, um projeto similar foi rejeitado.

Ativistas que apoiam o projeto de lei do suicĂdio assistido seguram cartazes em uma manifestação do lado de fora do PalĂĄcio de Westminster, no centro de Londres, em 29 de novembro de 2024 â Foto: BENJAMIN CREMEL/AFP
O Projeto de Lei para Adultos com Doenças Terminais (Fim da Vida) recebeu 330 votos favorĂĄveis e 275 contrĂĄrios. A proposta permite o suicĂdio assistido na Inglaterra e no PaĂs de Gales para adultos com uma doença incurĂĄvel, que tenham uma expectativa de vida de menos de seis meses e que sejam capazes de ingerir a substĂąncia designada para causar a morte. A escolha teria que ser consentida por um juiz e dois mĂ©dicos.
O projeto segue agora para a fase de comitĂȘ, na qual os legisladores podem apresentar emendas, um processo que provavelmente serĂĄ complicado. Em seguida, a legislação deve passar por outras votaçÔes na CĂąmara dos Comuns e na CĂąmara dos Lordes (equivalente ao Senado). O processo provavelmente levarĂĄ meses â sĂł voltarĂĄ aos parlamentares em abril, informou o jornal britĂąnico The Guardian. Se for aprovado e se tornar lei, haverĂĄ um perĂodo de implementação de dois anos.
A autora do projeto, a parlamentar trabalhista Kim Leadbeater, descreveu a votação desta sexta-feira como “respeitosa e compassiva”, segundo a rede britĂąnica BBC. A parlamentar observou que todas as questĂ”es levantadas, como cuidados paliativos, os direitos das pessoas com deficiĂȘncia, e o Serviço Nacional de SaĂșde britĂąnico (NHS), devem ser protegidos. A parlamentar acrescenta que haverĂĄ um comitĂȘ robusto para examinar o projeto de lei e tornĂĄ-lo “o melhor possĂvel”.
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A presidente do ComitĂȘ de SaĂșde, a liberal Layla Moran, descreveu esta sexta como um “dia de muito orgulho para o Parlamento”. A parlamentar disse Ă BBC que ficou “satisfeita com a aprovação”, mas observou tambĂ©m o nĂșmero significativo de colegas que votaram contra.
â As preocupaçÔes que as pessoas levantaram merecem ser levadas extremamente a sĂ©rio, e agora Ă© o momento de nos engajarmos de boa-fĂ© e continuarmos a ter essas discussĂ”es muito respeitosas â afirmou.
Ao abrir o debate Ă s 9h30 (6h30 em BrasĂlia), Leadbeater afirmou que a mudança na lei daria Ă s pessoas com doenças terminais “escolha, autonomia e dignidade no fim de suas vidas”. Em entrevista ao jornal britĂąnico The Guardian, a parlamentar comparou a luta pelo tema ao movimento das mulheres por acesso ao aborto. Os dois ativismos, observou, falam sobre o direito Ă escolha sobre o prĂłprio corpo.
Duas pesquisas de opiniĂŁo divulgadas na semana passada indicaram que a maioria dos britĂąnicos apoia a mudança da lei, que faria com que o Reino Unido seguisse o rastro de vĂĄrios paĂses europeus e de outros continente. O projeto britĂąnico Ă© mais rĂgido do que as leis de morte assistida de outros paĂses vizinhos, incluindo uma proposta que sob consideração na França. Apoiadores argumentam que permitir o suicĂdio assistido tornaria algumas mortes menos dolorosas.
‘Cuidar, nĂŁo matar’
Mas nem todos enxergam o tema da mesma forma. Opositores do projeto se reuniram do lado de fora do Parlamento para pedir aos deputados que votassem contra. Eles seguravam cartazes com os dizeres “Mate o projeto de lei, nĂŁo os doentes” e “cuidar, nĂŁo matar”. O grupo Care Not Killing, que reĂșne organizaçÔes e indivĂduos, lamentou a aprovação. Mas reconheceu tambĂ©m em nota que ficaram “muito encorajados”.
“Quanto mais os parlamentares ouvem sobre suicĂdio assistido e eutanĂĄsia, mais eles se voltam contra a mudança da lei e querem, com razĂŁo, que o governo se concentre em consertar o falido sistema de cuidados paliativos do Reino Unido”, argumentaram.
O tema encontra bastante resistĂȘncia principalmente entre os lĂderes religiosos. No Ășltimo fim de semana, quase 30 lideranças assinaram uma carta conjunta afirmando que estavam “profundamente preocupados” com a proposta. Os crĂticos insistem que a legalização poderia conduzir algumas pessoas a se sentirem pressionadas a pĂŽr fim Ă prĂłpria vida, enquanto outros argumentam que o sistema de saĂșde nĂŁo estĂĄ pronto para uma mudança tĂŁo marcante.
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Os parlamentares tiveram liberdade de voto, o que significa que era praticamente impossĂvel prever o resultado. Trabalhistas, conservadores, liberais democratas e reformistas se dividiram internamente. Apenas os verdes votaram favoravelmente de maneira unĂąnime, observou a BBC.
‘Direito de escolha’
O texto de Leadbeater Ă© um projeto de lei dos membros privados, isto Ă©, quando os textos sĂŁo apresentados por parlamentares e lordes que nĂŁo sĂŁo integrantes do governo. Apesar disso, segue a promessa do primeiro-ministro Keir Starmer, antes de assumir o poder em julho, de permitir que o Parlamento revisitasse a questĂŁo. O premier britĂąnico votou a favor da permissĂŁo do suicĂdio assistido em 2015, mas com salvaguardas “robustas”. De acordo com o The Guardian, Starmer votou a favor do projeto de lei debatido nesta sexta.
Shabana Mahmood, a polĂtica muçulmana mais graduada do paĂs, argumentou em uma carta recente aos eleitores que “o Estado nunca deve oferecer a morte como um serviço”, ao mesmo tempo em que observou que baseava sua posição em sua fĂ©. A radialista Esther Rantzen, que tem uma doença terminal e liderou a campanha por uma mudança na lei, pediu na vĂ©spera que outros parlamentares fossem honestos quanto a sua fĂ© ser a base de qualquer oposição.
â Eles tĂȘm o direito de escolher, mas, por favor, sejam honestos quanto Ă sua real motivação â disse Ă rĂĄdio LBC.
Enquanto isso, o conservador e ex-premier Rishi Sunak votou favorĂĄvel ao projeto. Em artigo de opiniĂŁo, ele argumento que “o projeto de lei […] reduzirĂĄ o sofrimento”. O tambĂ©m ex-primeiro-ministro David Cameron, que se opĂŽs Ă mudança da lei de 2015, revelou que havia mudado de ideia sobre o tema. “Como os ativistas argumentaram de forma convincente, essa proposta nĂŁo se trata de acabar com a vida. Trata-se de abreviar a morte”, escreveu no jornal The Times na quinta-feira.
No entanto, outros ex-premiers â incluindo Liz Truss, Boris Johnson, Theresa May e Gordon Brown â disseram ser contrĂĄrios Ă proposta.
Atualmente, o suicĂdio assistido Ă© proibido na Inglaterra, no PaĂs de Gales e na Irlanda do Norte, e acarreta uma pena mĂĄxima de 14 anos de prisĂŁo. Na EscĂłcia, que tem um sistema jurĂdico separado e poderes delegados para definir sua prĂłpria polĂtica de saĂșde, nĂŁo se trata de um crime especĂfico. Mas pode deixar a pessoa exposta a outras acusaçÔes, inclusive homicĂdio.

