Aos 8 anos de idade, Luiza Erundina foi acomodada no lombo de um jegue para fugir da seca em UiraĂșna, no interior da ParaĂba. A menina teve vontade de chorar, mas segurou as lĂĄgrimas para nĂŁo agravar o sofrimento dos pais. âMinha famĂlia era pobre e numerosa. Quando nĂŁo vinha chuva, tinha que arribar para escapar da fomeâ, lembra.

Luiza Erundina em carreata em HeliĂłpolis, na campanha de Guilherme Boulos em 2024 â Foto: Leandro Paiva/Divulgação
A pequena retirante aprendeu cedo a se indignar com as injustiças. Batalhou para estudar, chegou Ă universidade, virou assistente social. Entrou para a juventude catĂłlica e se envolveu na luta pela reforma agrĂĄria. âGostaria de ter feito polĂtica na minha terra, mas fui perseguida pela ditadura â, conta. Tachada de subversiva, ela teve que mudar de ares. Por vias tortas, a repressĂŁo dava um impulso Ă sua trajetĂłria.
Erundina migrou para SĂŁo Paulo, onde passou a militar em movimentos por moradia. Com a redemocratização, ajudou a fundar o PT e se elegeu vereadora e deputada estadual. Em 1988, tornou-se a primeira mulher a conquistar a prefeitura da maior cidade do paĂs.
âMinha vitĂłria foi absolutamente inesperada. Nem meu partido acreditavaâ, recorda. âEnfrentei preconceito por ser mulher, por ser nordestina, por ser solteira. E por ousar disputar o poder com a burguesia paulistana. Mas nunca me intimideiâ, orgulha-se.
Neste sĂĄbado, Erundina completa 90 anos. Ă a mais idosa entre os 593 parlamentares em BrasĂlia. Em junho, ela passou mal ao ser provocada por bolsonaristas que se opunham a um projeto para identificar locais da repressĂŁo. Chegou a ser internada na UTI, mas logo voltou Ă ativa com o mesmo espĂrito combativo.
âAs coisas estĂŁo difĂceis. Este Ă© o pior Congresso que jĂĄ pegueiâ, critica a deputada, que exerce o sĂ©timo mandato. âNĂŁo hĂĄ mais civilidade nas relaçÔes. Vivemos um clima de confronto permanente. HĂĄ uma tropa que intimida, ameaça, pĂ”e o celular na nossa cara. EstĂĄ insuportĂĄvelâ, desabafa.
Erundina se diz preocupada com as revelaçÔes sobre a tentativa de golpe. âĂ um momento muito delicado, de risco de retrocessoâ, avalia. Ela considera que a ameaça autoritĂĄria nĂŁo foi debelada. âVejo o prenĂșncio de situaçÔes imprevisĂveis daqui para a frenteâ, alerta.
A veterana nĂŁo economiza crĂticas a seu campo polĂtico. Diz que os partidos de esquerda se institucionalizaram e perderam conexĂŁo com o povo. âMuitas lideranças foram para os gabinetes e se distanciaram da realidade dos trabalhadores na periferiaâ, afirma.
Para ela, Ă© preciso voltar Ă s bases e recuperar a utopia de transformação da sociedade. âLuta polĂtica nĂŁo Ă© sĂł correr atrĂĄs de voto. Ă ajudar a população a se organizar e buscar seus direitos.â
Na quarta-feira, Erundina discursou por quase meia hora no Conselho de Ătica. Ao rebater acusaçÔes contra o deputado Glauber Braga, colega de PSOL que teria idade para ser seu neto, disse que os deputados nĂŁo sĂŁo donos do poder. âNĂłs sĂł exercemos o mandato. O soberano Ă© o povo, que lamentavelmente nĂŁo sabe dissoâ, afirmou. Foi aplaudida de pĂ©, numa cena rara de se ver no CĂąmara.
No dia seguinte, perguntei como ela mantĂ©m o Ăąnimo para enfrentar a rotina pesada de voos, reuniĂ”es e debates interminĂĄveis. âOs sonhos nĂŁo envelhecemâ, brincou Erundina, que continua no mesmo apartamento modesto onde morava quando era prefeita. âA idade nĂŁo tem peso nenhum para mim. NĂŁo me acomodo. Vivi e ainda vivo pelo compromisso com mudança. A esperança Ă© revolucionĂĄriaâ, afirmou.
Ela diz que nĂŁo disputarĂĄ mais eleiçÔes, mas promete lutar âatĂ© o Ășltimo diaâ. âO sonho nĂŁo cabe numa vida. VocĂȘ parte e ele continua com as novas geraçÔes.â

