Erundina faz 90, diz que Congresso nunca foi tĂŁo ruim e prega utopia na polĂ­tica: “O sonho nĂŁo cabe numa vida”

Deputada afirma que esquerda precisa voltar Ă s bases: "Luta polĂ­tica nĂŁo Ă© sĂł correr atrĂĄs de voto"

Por O Globo 30/11/2024

Aos 8 anos de idade, Luiza Erundina foi acomodada no lombo de um jegue para fugir da seca em UiraĂșna, no interior da ParaĂ­ba. A menina teve vontade de chorar, mas segurou as lĂĄgrimas para nĂŁo agravar o sofrimento dos pais. “Minha famĂ­lia era pobre e numerosa. Quando nĂŁo vinha chuva, tinha que arribar para escapar da fome”, lembra.

Erundina faz 90, diz que Congresso nunca foi tĂŁo ruim e prega utopia na polĂ­tica: "O sonho nĂŁo cabe numa vida"

Luiza Erundina em carreata em Heliópolis, na campanha de Guilherme Boulos em 2024 — Foto: Leandro Paiva/Divulgação

A pequena retirante aprendeu cedo a se indignar com as injustiças. Batalhou para estudar, chegou à universidade, virou assistente social. Entrou para a juventude católica e se envolveu na luta pela reforma agrária. “Gostaria de ter feito política na minha terra, mas fui perseguida pela ditadura ”, conta. Tachada de subversiva, ela teve que mudar de ares. Por vias tortas, a repressão dava um impulso à sua trajetória.

Erundina migrou para São Paulo, onde passou a militar em movimentos por moradia. Com a redemocratização, ajudou a fundar o PT e se elegeu vereadora e deputada estadual. Em 1988, tornou-se a primeira mulher a conquistar a prefeitura da maior cidade do país.

“Minha vitória foi absolutamente inesperada. Nem meu partido acreditava”, recorda. “Enfrentei preconceito por ser mulher, por ser nordestina, por ser solteira. E por ousar disputar o poder com a burguesia paulistana. Mas nunca me intimidei”, orgulha-se.

Neste sábado, Erundina completa 90 anos. É a mais idosa entre os 593 parlamentares em Brasília. Em junho, ela passou mal ao ser provocada por bolsonaristas que se opunham a um projeto para identificar locais da repressão. Chegou a ser internada na UTI, mas logo voltou à ativa com o mesmo espírito combativo.

“As coisas estĂŁo difĂ­ceis. Este Ă© o pior Congresso que jĂĄ peguei”, critica a deputada, que exerce o sĂ©timo mandato. “NĂŁo hĂĄ mais civilidade nas relaçÔes. Vivemos um clima de confronto permanente. HĂĄ uma tropa que intimida, ameaça, pĂ”e o celular na nossa cara. EstĂĄ insuportĂĄvel”, desabafa.

Erundina se diz preocupada com as revelaçÔes sobre a tentativa de golpe. “É um momento muito delicado, de risco de retrocesso”, avalia. Ela considera que a ameaça autoritĂĄria nĂŁo foi debelada. “Vejo o prenĂșncio de situaçÔes imprevisĂ­veis daqui para a frente”, alerta.

A veterana não economiza críticas a seu campo político. Diz que os partidos de esquerda se institucionalizaram e perderam conexão com o povo. “Muitas lideranças foram para os gabinetes e se distanciaram da realidade dos trabalhadores na periferia”, afirma.

Para ela, Ă© preciso voltar Ă s bases e recuperar a utopia de transformação da sociedade. “Luta polĂ­tica nĂŁo Ă© sĂł correr atrĂĄs de voto. É ajudar a população a se organizar e buscar seus direitos.”

Na quarta-feira, Erundina discursou por quase meia hora no Conselho de Ética. Ao rebater acusaçÔes contra o deputado Glauber Braga, colega de PSOL que teria idade para ser seu neto, disse que os deputados nĂŁo sĂŁo donos do poder. “NĂłs sĂł exercemos o mandato. O soberano Ă© o povo, que lamentavelmente nĂŁo sabe disso”, afirmou. Foi aplaudida de pĂ©, numa cena rara de se ver no CĂąmara.

No dia seguinte, perguntei como ela mantĂ©m o Ăąnimo para enfrentar a rotina pesada de voos, reuniĂ”es e debates interminĂĄveis. “Os sonhos nĂŁo envelhecem”, brincou Erundina, que continua no mesmo apartamento modesto onde morava quando era prefeita. “A idade nĂŁo tem peso nenhum para mim. NĂŁo me acomodo. Vivi e ainda vivo pelo compromisso com mudança. A esperança Ă© revolucionĂĄria”, afirmou.

Ela diz que nĂŁo disputarĂĄ mais eleiçÔes, mas promete lutar “atĂ© o Ășltimo dia”. “O sonho nĂŁo cabe numa vida. VocĂȘ parte e ele continua com as novas geraçÔes.”

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