A RĂşssia lançou um mĂssil balĂstico intercontinental em um ataque Ă cidade de Dnipro, no centro-leste da Ucrânia, na quinta-feira, pela primeira vez desde o inĂcio de sua invasĂŁo em 2022, acusou a Força AĂ©rea Ucraniana. Dias antes, Moscou havia anunciado que Kiev disparara pela primeira vez em mil dias de guerra mĂsseis de longo alcance, ATACMS, fornecidos pelos EUA contra o seu territĂłrio, apĂłs autorização do governo de Joe Biden.
“Um mĂssil balĂstico intercontinental foi lançado da regiĂŁo russa de Astrakhan”, disse a Força AĂ©rea de Kiev, em comunicado.

A Ucrânia acusa as forças russas de uso de substâncias quĂmicas proibidas para avançar/Foto: Reprodução
Esses tipos de mĂsseis sĂŁo projetados para transportar ogivas nucleares e atacar a milhares de quilĂ´metros de distância.
O disparo teria ocorrido contra uma instalação militar na regiĂŁo fronteiriça russa de Bryansk, segundo a imprensa estatal. Os fragmentos de um mĂssil danificado provocaram um incĂŞndio na instalação, que foi rapidamente extinto e nĂŁo causou danos ou vĂtimas. Um funcionário de alto escalĂŁo ucraniano confirmou Ă AFP o uso dos mĂsseis, mas o governo ainda nĂŁo fez uma declaração oficial. A RĂşssia disse que o ataque marca “uma nova fase” do conflito e prometeu uma resposta “adequada”.
Dos seis mĂsseis, cinco foram abatidos, afirmou o MinistĂ©rio da Defesa.
“Ă€s 3h25 (21h15 de BrasĂlia, segunda-feira), o inimigo atacou uma área na regiĂŁo de Bryansk com seis mĂsseis balĂsticos. Segundo dados confirmados, foram utilizados mĂsseis táticos ATACMS de fabricados americana”, informaram as agĂŞncias de notĂcias estatais, que citaram um comunicado militar, referindo-se aos Sistemas de MĂsseis Táticos do ExĂ©rcito (ATACMS, em inglĂŞs).
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, nĂŁo quis comentar o assunto durante uma entrevista coletiva em Kiev, mas a imprensa ucraniana, citando uma fonte militar, confirmou o uso dos mĂsseis fornecidos por Washington. O ataque teria causado 12 explosões secundárias.:
Na segunda-feira, o ministro das Relações Exteriores da RĂşssia, Serguei Lavrov, acusou a Ucrânia e o Ocidente de buscarem uma escalada e prometeu uma resposta “adequada” a futuros ataques. No Brasil para a cĂşpula de lĂderes do G20, o chanceler russo afirmou que o lançamento de mĂsseis americanos pelos ucranianos contra o territĂłrio russo marca “uma nova fase da guerra”.
“Reagiremos de acordo”, disse Lavrov, acusando antes Washington de ajudar Kiev a operar os mĂsseis. “Se há um lançamento de mĂsseis de longo alcance da Ucrânia atĂ© o territĂłrio russo, quer dizer quer eles sĂŁo operados por militares especialistas americanos”.
Doutrina revisada
Apesar de nĂŁo confirmar o uso de ATACMS, Zelensky acusou os lĂderes do G20 reunidos no Brasil de nĂŁo reagirem ao decreto assinado pelo presidente russo, Vladimir Putin, que amplia os motivos para recorrer ao uso de armas nucleares.
“Hoje, os paĂses do G20 estĂŁo reunidos no Brasil. Eles disseram alguma coisa? Nada.”, afirmou durante entrevista coletiva em Kiev, na qual tambĂ©m denunciou a ausĂŞncia de uma “estratĂ©gia forte” por parte dos paĂses reunidos no Rio.
A nova doutrina russa afirma que um ataque de um Estado nĂŁo nuclear, mas que seja apoiado por uma potĂŞncia nuclear, será tratado como um ataque conjunto. O Kremlin afirmou que a revisĂŁo era “necessária para adaptar os nossos fundamentos Ă situação atual”.
A demanda pelo uso dos ATACMS era um clamor antigo dos ucranianos. Mas Washington, um de seus principais aliados no conflito, vinha rejeitando as exigências, temeroso de que seu uso pudesse escalar ainda mais a guerra ou até significar uma diminuição no estoque de armamentos americano. Assim, quando os primeiros ATACMS foram enfim enviados à Ucrânia em 2023 com um alcance menor, de 160km, uma condição era que eles não fossem usados para ataque no território russo.
Nesta terça, o chefe da diplomacia da UE, Josep Borrell, pediu aos paĂses do bloco que tambĂ©m permitissem que a Ucrânia usasse armas de longo alcance fornecidas por eles para atacar alvos dentro da RĂşssia.
“Espero que todos os Estados-membros (da UE) sigam a decisĂŁo dos Estados Unidos”, disse Borrell ao chegar para uma reuniĂŁo de ministros da Defesa dos paĂses do bloco em Bruxelas, concluindo. “A guerra contra a Ucrânia afeta diretamente nossos valores e princĂpios. O destino dos ucranianos determinará o destino da UE”.
Borrell tambĂ©m condenou a ameaça russa, classificando-a como “irresponsável”. Argumentou que “a RĂşssia aderiu ao princĂpio de que uma guerra nuclear nĂŁo pode ser vencida e, portanto, nunca deve ser travada.”
Na mesma linha, o secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Mark Rutte, tambĂ©m presente na reuniĂŁo, afirmou que Ă© “crucial que Putin nĂŁo consiga o que quer”, uma vez que isso deixaria uma RĂşssia fortalecida nas fronteiras da Europa.
“Estamos prontos para fornecer o que for necessário Ă Ucrânia”, declarou Rutte, para quem a RĂşssia representa “uma ameaça direta para todos nĂłs no Ocidente”.
Mil dias de guerra
O uso dos ATACMS pela Ucrânia e a revisĂŁo da doutrina nuclear russa ocorrem no mesmo dia que a guerra completa mil dias. O dia começou com um ataque russo na regiĂŁo fronteiriça ucraniana de Sumy, que matou sete pessoas, incluindo uma criança. O presidente Zelensky publicou um vĂdeo que mostra as equipes de resgate retirando corpos dos escombros e apelou aos seus aliados para “forçarem” a RĂşssia Ă paz.
Em declaração, Kiev afirmou que “nunca se submeterá aos ocupantes” e que “os militares russos serĂŁo punidos por violarem o direito internacional”. “Alcançaremos a paz atravĂ©s da força e do apaziguamento”, afirmou o MinistĂ©rio das Relações Exteriores ucraniano em comunicado. A promessa faz referĂŞncia aos crescentes apelos para que a Ucrânia se junte Ă mesa de negociações com a RĂşssia para acabar com quase trĂŞs anos de guerra.
O Kremlin também prometeu derrotar a Ucrânia.
“A operação militar contra Kiev continua e será concluĂda”, afirmou o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, aos jornalistas.
A Ucrânia acusa as forças russas de uso de substâncias quĂmicas proibidas para avançar e instou seus aliados nesta terça a responderem a um relatĂłrio da Organização para a Proibição de Armas QuĂmicas (Opaq), que afirma ter encontrado um gás antidistĂşrbios proibido na linha de frente.
“O uso de produtos quĂmicos proibidos no campo de batalha pela RĂşssia demonstra mais uma vez o desrespeito crĂ´nico da RĂşssia pelo direito internacional”, disse o MinistĂ©rio das Relações Exteriores da Ucrânia.
