‘NĂŁo conheço as mĂșsicas do rapaz, pra vocĂȘ ver que tenho um bom gosto’, diz Nunes sobre projeto de lei ‘anti-Oruam’

Projeto de lei de autoria da vereadora Amanda Vettorazzo, do UniĂŁo, quer proibir shows em eventos com apoio do poder pĂșblico de artistas que, segundo ela, fazem 'apologia ao crime organizado ou ao uso de drogas'

Por G1 11/02/2025

O rapper Oruam, que atualmente tem a mĂșsica mais ouvida do Brasil no Spotify, com “Oh Garota Eu Quero VocĂȘ SĂł Pra Mim”, virou alvo de um projeto de Lei na CĂąmara Municipal de SĂŁo Paulo, a chamada “Lei Anti-Oruam” – que pede a proibição na contratação de shows, artistas e eventos abertos ao pĂșblico infantojuvenil “que envolvam, no decorrer da apresentação, expressĂŁo de apologia ao crime organizado ou ao uso de drogas”.

O projeto é da vereadora do União, Amanda Vettorazzo. No texto, ela não cita o Oruam, no entanto, criou um site chamado leiantioruam e, em vídeos nas redes sociais, deixa claro que quer proibir o artista de se apresentar em São Paulo. (leia mais abaixo)

Ricardo Nunes (MDB) que participava de um evento para anunciar investimentos voltados para a Cultura nesta segunda-feira (10), foi questionado sobre o projeto da vereadora. Ele defendeu e disse que nĂŁo conhece Oruam.

“Pra vocĂȘ ver que eu tenho um bom gosto pra mĂșsica, nunca ouvi a mĂșsica desse cara [Oruam]. Pelo que vi, ela questionou sobre uma pessoa, nĂŁo sobre a questĂŁo cultural. Seria atĂ© injusto colocar pra vereadora como se ela estivesse fazendo qualquer tipo de ação contra o funk ou qualquer outro tipo de expressĂŁo cultural. Aquela pessoa especificamente que ela tem colocado – evidentemente – se essa pessoa faz qualquer tipo de apologia ao crime, aqui nos palcos de SĂŁo Paulo, com recurso pĂșblico, ela nĂŁo vai ter espaço”, afirmou.

A Prefeitura de São Paulo anunciou R$ 319 milhÔes de recursos voltado para a cultura na capital, valor que faz parte do pacote São Paulo + Cultura.

Quem Ă© Oruam?

Show de Orochi, Chefin e Oruam no Palco Sunset Rock in Rio 2024 — Foto: Miguel Folco/g1

Show de Orochi, Chefin e Oruam no Palco Sunset Rock in Rio 2024 — Foto: Miguel Folco/g1

Figura carimbada nos principais festivais do paĂ­s, Mauro Davi dos Santos, de 25 anos, tem mais de 13 milhĂ”es de ouvintes sĂł no Spotify. O cantor passeia pelo funk, R&B e rap. Suas mĂșsicas falam sobre ostentação, sexo e o fato de ele ser filho do traficante Marcinho VP.

Em 2024, se firmou de vez como um dos rappers mais promissores do trap. Mesmo ano em que subiu em um dos palcos do Lollapalooza e pediu liberdade pelo seu pai, preso por crimes como homicídio qualificado, formação de quadrilha e tråfico de drogas.

Oruam se apresenta no Palco Perry's By Johnnie Walker do Lollapalooza 2024 — Foto: Luiz Franco/g1

Oruam se apresenta no Palco Perry’s By Johnnie Walker do Lollapalooza 2024 — Foto: Luiz Franco/g1

Apontado como lĂ­der da facção criminosa Comando Vermelho, Marcinho VP Ă© tambĂ©m acusado pelo MinistĂ©rio PĂșblico pelos crimes de associação criminosa e lavagem de dinheiro.

Oruam tem uma tatuagem em homenagem ao pai e também ao traficante Elias Maluco, condenado pelo assassinato do jornalista Tim Lopes.

O projeto de lei da vereadora do UniĂŁo

Print do site criado pela vereadora. — Foto: Reprodução

Print do site criado pela vereadora. — Foto: Reprodução

Em um vĂ­deo publicado no Instagram Amanda Vettorazzo (UniĂŁo) diz que quer “proibir o Oruam de fazer show na cidade de SĂŁo Paulo”.

Ela alega que Oruam Ă© “um dos rappers mais famosos do paĂ­s que viralizou fazendo mĂșsicas e shows com apologia ao crime organizado, principalmente a facção comandada pelo seu pai Marcinho VP”.

Vettorazzo diz tambĂ©m que o jovem “abriu a porteira para que rappers e funkeiros começassem a produzir mĂșsicas” citando criminosos, lĂ­deres e facçÔes e “usando gĂ­rias e expressĂ”es para normalizar o mundo do crime”.

No vĂ­deo, Vettorazzo mostra um print da mĂșsica “MĂŁe de Traficante”, do Mc Daleste, que foi assassinado em 2013, que narra justamente a histĂłria de uma mĂŁe que perdeu o filho para o crime.

Print do vídeo da vereadora. — Foto: Reprodução/ Instagram

Print do vídeo da vereadora. — Foto: Reprodução/ Instagram

Ela tambĂ©m criou um site, leiantioruam.com, onde diz que o projeto visa proibir o financiamento pĂșblico de eventos que promovem apologia ao crime, ao funk criminoso e o uso de drogas.

No texto do projeto de lei Vettorazzo argumenta que a proposta surge como uma forma de garantir à proteção de crianças e adolescentes.

Perseguição ao funk

Apesar de a maioria das suas mĂșsicas seguirem o gĂȘnero trap, Oruam tambĂ©m canta funk. No Ășltimo ano, em 2024, a CĂąmara de SP recebeu trĂȘs projetos de lei – dois sob a autoria de Rubinho Nunes (UniĂŁo), mesmo partido de Vettorazzo – que visam proibir o funk de rua na capital.

  • Fev/2024 – projeto para criar uma frente parlamentar de combate aos pancadĂ”es e bailes funks na capital (arquivado em janeiro deste ano)
  • Maio/2024 – proĂ­be a utilização de vias pĂșblicas, praças, parques, jardins e demais logradouros pĂșblicos para a realização de pancadĂ”es, bailes funks e eventos sem autorização (tambĂ©m arquivado em janeiro deste ano)

Para Ediane Maria (PSOL), deputada estadual e coordenadora da Frente Parlamentar do Funk na Alesp, projetos como a chamada “Lei anti-Oruam” sĂŁo uma forma de criminalizar gĂȘneros musicais.

“Sempre que um movimento cultural de preto ganha destaque, a ala conservadora vem pra cima para criminalizar. Foi assim com o samba e o rap, com o funk nĂŁo seria diferente. A juventude estĂĄ na quebrada fazendo mĂșsica, mas tambĂ©m mobilizando a economia criativa. Querer associar esse movimento ao crime Ă© uma manobra racista da extrema direita”, afirma.

Em dezembro do ano passado, o g1 contou a história dos bailes que optaram por serem realizados em espaços fechados para fugir da repressão policial em São Paulo. Eventos que vencem um trauma deixado nos bailes de rua em 2019, quando a polícia matou nove jovens na dispersão de um baile em Paraisópolis.

Produtores e djs ouvidos pela reportagem, na Ă©poca, falaram sobre o funk jĂĄ ser tratado pelo poder pĂșblico como algo ilegal.

“NĂŁo temos espaço, parece que tudo o que fazemos Ă© ilegal. A Secretaria da Cultura, no momento que quer, bate no peito para dizer que o funk Ă© lindo, que a nossa cultura Ă© linda. Mas quando a gente estĂĄ lĂĄ, no nosso momento de lazer, a realidade Ă© diferente”, afirmou o dj Caio Prince.

Apesar da “lei anti-Oruam” nĂŁo citar o funk e o rap, para Ediane Ă© uma forma velada de criminalização.

“Eles nĂŁo sĂŁo bobos. Ao mesmo tempo em que criminalizam o funk, sabem o quanto o movimento, alĂ©m de causar identificação com os jovens, gera dinheiro na quebrada e influencia politicamente a quebrada”, afirma

O g1 procurou a autora do projeto de lei, Amanda Vettorazzo, mas até a publicação desta reportagem não teve retorno.

Bloqueador de anuncios detectado

Por favor, considere apoiar nosso trabalho desativando a extensĂŁo de AdBlock em seu navegador ao acessar nosso site. Isso nos ajuda a continuar oferecendo conteĂșdo de qualidade gratuitamente.