Ela foi vĂ­tima de violĂȘncia e traduz o ‘juridiquĂȘs’ para defender as mulheres

Com uma linguagem simples e descontraída, a advogada criminalista Fayda Belo atrai quase 2 milhÔes de seguidores nas redes sociais defendendo os direitos femininos

Por EstadĂŁo 08/03/2025

“Carnaval nĂŁo Ă© alvarĂĄ para meter a mĂŁo no corpo da mulher sem consentimento.” É assim que a advogada Fayda Belo começa um dos seus vĂ­deos. A criminalista defende o direito das mulheres e diz o que pode e o que “pode nĂŁo”, no bordĂŁo que criou nas redes. De um jeito descontraĂ­do e didĂĄtico, a especialista traduz o ‘juridiquĂȘs’ como se fosse uma amiga que procura abrir os olhos das mulheres.

A capixaba de 43 anos achou um caminho para se conectar com as pessoas. Quando contei em casa que ia entrevistĂĄ-la, minha mulher arregalou os olhos. “Manda um abraço e fala que ela me representa muito”, pediu. Depois da conversa, ela cobrou. “VocĂȘ falou que sou fĂŁ dela?”.

A advogada Fayda Belo soma mais de 2 milhÔes de seguidores defendendo os direitos das mulheres
A advogada Fayda Belo soma mais de 2 milhÔes de seguidores defendendo os direitos das mulheres Foto: Arthur Ferreira

Esse deve ser o mesmo sentimento de 2,2 milhĂ”es de seguidores da especialista em crimes de gĂȘnero, Direito AntidiscriminatĂłrio e FeminicĂ­dio. Desse total, 1,8 milhĂŁo estĂŁo no Tik Tok, rede com pĂșblico majoritariamente jovem. Embora distante dos influenciadores mais populares, o nĂșmero Ă© expressivo considerando que ela fala de conceitos jurĂ­dicos e ĂĄridos, como leis e crimes.

  • “A população tem o anseio de ouvir sobre o seu direito, mas nĂŁo compreende o que nĂłs, juristas, falamos. Posso usar meu conhecimento tĂ©cnico, com uma linguagem simples, como eu falo com minhas amigas, com uma pitadinha de deboche”, diz a autora do livro Justiça para todas: o que toda mulher deve saber para garantir seus direitos.
  • “Imagine vocĂȘ ser violentada sexualmente e ainda ter de ouvir que a culpa Ă© sua. TĂĄ passada? Isso acontecia muito. Mas agora isso acabou. O STF declarou que Ă© inconstitucional, ou seja, nĂŁo pode mais usar o comportamento ou vida pessoal da vĂ­tima para tentar justificar um crime sexual”, diz a advogada em um vĂ­deo que recebeu quase mil comentĂĄrios.

Fayda Ă© divertida e espontĂąnea, o que tambĂ©m ajuda a explicar a empatia que desperta. Depois de uma resposta mais longa, ela pergunta. “Nossa, eu falo demais, nĂ©?”. E solta uma risada abençoada, daquelas que te levam junto. Isso aconteceu na conversa online de 45 minutos na Ășltima quinta-feira. Foi uma espĂ©cie de ‘encaixe’, daqueles que a gente implora no consultĂłrio mĂ©dico, na agenda da palestrante e consultora de gĂȘnero para empresas pĂșblicas e privadas.

Fayda sĂł esconde o sorriso quando o EstadĂŁo pergunta se ela prĂłpria jĂĄ havia sido vĂ­tima de violĂȘncia. “Vou resumir porque nĂŁo gosto muito de relatar minha histĂłria. É bem triste. Cresci em um bairro pobre (em Cachoeiro de Itapemirim, EspĂ­rito Santo), vendo todo tipo de violĂȘncia contra a mulher, inclusive jĂĄ fui vĂ­tima de algumas coisas.”

Diante da insistĂȘncia na pergunta, ela se ajeita na cadeira e olha para o alto. “JĂĄ fui vĂ­tima de violĂȘncia quando criança, jovem e mulher. Mas eu nunca abri isso para o grande pĂșblico”, desconversa.

Esse sofrimento foi o empurrĂŁo para buscar justiça. Depois de ter sido empregada domĂ©stica, babĂĄ, lavadeira, vendedora de planos funerĂĄrios e tambĂ©m de automĂłveis, ela conseguiu uma bolsa do Prouni para o curso de Direito com que sonhava desde os 8 anos. Chegou a ganhar R$ 300 por mĂȘs como estagiĂĄria na Defensoria PĂșblica.

  • “O que eu faço Ă© para que nĂŁo aconteçam com outras mulheres o que houve com minha mĂŁe e comigo. Para que a gente tenha um PaĂ­s que escute as mulheres e proteja as meninas de abusadores, agressores e homicidas”.

Advogada conta que recebe mais de 100 pedidos diĂĄrios de ajuda jurĂ­dica

A atuação vai alĂ©m dos vĂ­deos de letramento jurĂ­dico. Ela conta que recebe diariamente cerca de cem pedidos de ajuda; uma parte dos atendimentos Ă© gratuita, para pessoas de baixa renda. A taxa de feminicĂ­dios no Brasil Ă© a quinta maior do mundo, com 4,8 assassinatos para cada 100 mil mulheres, de acordo com a Organização Mundial da SaĂșde (OMS).

  • “O dia 8 de março nĂŁo Ă© uma data apenas para se lembrar da mulher como um corpo que sofre, mas para refletir porque o debate ainda paira sobre a violĂȘncia e como avançar”.

Atualmente, Fayda Belo participa de mesas relevantes, como o comitĂȘ permanente do FĂłrum Nacional de Enfrentamento a ViolĂȘncia Contra a Mulher (Fonavim) do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e a diretoria nacional da Associação Brasileira das Mulheres de Carreira JurĂ­dica. Ela tambĂ©m Ă© idealizadora do Justiça Para Todas Summit, primeiro evento a debater o combate Ă  violĂȘncia contra a mulher no mercado de trabalho.

Os trofĂ©us começam a brigar por espaço na estante. Entre outras distinçÔes, Fayda conquistou o “Best Sister In Law 2023″ como melhor advogada do Brasil em Direito AntidiscriminatĂłrio.

A luta antirracista Ă© um recorte importante em sua cruzada. De acordo com o IBGE, as mulheres negras sĂŁo mais afetadas pela desigualdade social no Brasil. No recorte de renda, elas estĂŁo mais empregadas em funçÔes com remuneração mais baixa e associadas Ă  informalidade; na ĂĄrea social, sĂŁo suscetĂ­veis Ă  violĂȘncia fĂ­sica, sexual e psicolĂłgica.

  • “NĂŁo existe recorte racial na mesa que pauta o direito das mulheres. Como toda mulher, ela sofre a opressĂŁo relativa ao gĂȘnero, mas ela sofre o racismo. Ela Ă© duplamente vulnerĂĄvel”, diz a vencedora do prĂȘmio “Sim À Igualdade Racial 2024″, na categoria InfluĂȘncia e Representatividade Digital.

Fayda Ă© hiperativa – segundo suas prĂłprias palavras – e capricorniana, o que explica um pouco da energia nas telas. Mas seus vĂ­deos nĂŁo tĂȘm dancinhas. “Eu sento na minha mesa e falo sobre Direito. É como se estivesse falando com uma amiga.”

Ah, e sobre o pedido da minha mulher, Fayda respondeu que esse tipo de carinho deixa o “coração quentinho”. “É o motor para eu continuar, nĂŁo recuar. Eu me se sinto abrindo portas.” Mas, a fama ainda Ă© algo que ela acha estranho. “Fico sem jeito quando a aeromoça comemora que estou no voo…”

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