‘A culpa nunca Ă© da vĂ­tima’: psicĂłloga alerta para sinais de abuso sexual em crianças e jovens

Samara Pinheiro alertou sobre diversos aspectos dos cuidados envolvendo as vĂ­timas

Por Vitor Paiva, ContilNet 18/05/2025

A campanha Maio Laranja, que tem como principal objetivo combater o abuso e a exploração sexual de crianças e adolescentes, foi criada em 2020, em parceria do MinistĂ©rio da Mulher, da FamĂ­lia e dos Direitos Humanos (MMFDH) com o MinistĂ©rio da Justiça e Segurança PĂșblica (MJSP).

'A culpa nunca Ă© da vĂ­tima’: psicĂłloga alerta para sinais de abuso sexual em crianças e jovens

O mĂȘs de maio Ă© marcado pela campanha de combate contra violĂȘncia sexual/Foto: Reprodução

O dia 18 de maio Ă© marcado como o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Ă  Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, em alusĂŁo ao caso de Araceli Cabrera Crespo, que foi vĂ­tima de um crime desse gĂȘnero em 1973, sendo este o motivo pelo qual o mĂȘs de maio foi escolhido para a campanha.

No ano de 2024, considerando apenas os casos de estupro, foram registrados no Acre 678 ocorrĂȘncias, o que representa um crescimento de 0,15% em relação ao ano anterior. Nacionalmente, foram anotados 78.395 casos. É importante destacar que as violĂȘncias sexuais vĂŁo alĂ©m do estupro propriamente dito.

Para conscientizar, alertar e ensinar sobre sinais preocupantes, além de orientar sobre açÔes que podem ser tomadas, o ContilNet conversou com a psicóloga Samara Pinheiro para maiores esclarecimentos.

A psicĂłloga alertou para os principais sinais que podem indicar que uma pessoa esteja sofrendo ou que jĂĄ tenha sofrido episĂłdios de violĂȘncia sexual.

“Comportamentos sexuais inadequados para a idade; conhecimento sexual avançado; masturbação compulsiva em qualquer ambiente; insistĂȘncia em brincadeiras com conotação sexual; alteraçÔes comportamentais, como queda no desempenho escolar; infecçÔes urinĂĄrias recorrentes; desconfiança excessiva em relação a adultos; fugas de casa ou de instituiçÔes; vergonha extrema acompanhada de relatos de abuso; ideação suicida, tentativas de suicĂ­dio e comportamentos autolesivos. É importante lembrar que cada criança ou adolescente reage de forma Ășnica”, explicou ela, sobre sinais de alerta para casos de abuso.

'A culpa nunca Ă© da vĂ­tima’: psicĂłloga alerta para sinais de abuso sexual em crianças e jovens

Samara Pinheiro falou sobre os cuidados necessĂĄrios com as vĂ­timas/Foto: Cedida

Sobre formas de combater esses casos, a psicóloga enfatiza que o diålogo e a educação sexual nas escolas deveriam ser as principais estratégias adotadas.

“Ainda vejo que uma das formas mais eficazes de combate Ă© o diĂĄlogo, a conversa. Falar com a criança, de forma clara e respeitosa, sobre o corpo, explicando que existem partes Ă­ntimas que sĂŁo privadas, Ă© fundamental. E Ă© justamente aĂ­ que a escola pode entrar como uma importante aliada nesse processo, promovendo açÔes de conscientização, orientaçÔes e, quando necessĂĄrio, sendo tambĂ©m um espaço de escuta e encaminhamento para a denĂșncia”, reforça.

Outro ponto de atenção levantado por Samara Pinheiro diz respeito Ă s pessoas que tĂȘm acesso Ă s crianças e adolescentes e Ă s suas rotinas, jĂĄ que muitas das situaçÔes de abusos e violĂȘncias sĂŁo praticadas por pessoas prĂłximas.

“É fundamental que os responsĂĄveis estejam atentos a quem tem acesso Ă  rotina da criança, sejam familiares, vizinhos, amigos ou cuidadores. Muitas situaçÔes de abuso acontecem justamente em contextos prĂłximos e com pessoas conhecidas, o que exige ainda mais vigilĂąncia e orientação”, explica.

A psicĂłloga reforça ainda que o acolhimento Ă© necessĂĄrio para as crianças, lembrando que as vĂ­timas nĂŁo tĂȘm culpa pelo que sofreram.

“A primeira atitude Ă© denunciar, dar suporte Ă  criança e, principalmente, reforçar que ela nĂŁo Ă© culpada por esse ato. O papel da famĂ­lia e da escola Ă© fundamental tanto na prevenção quanto no acolhimento das vĂ­timas de violĂȘncia sexual. A famĂ­lia precisa estar presente, criar vĂ­nculos de confiança e conversar abertamente com a criança sobre o corpo, os limites e o que Ă© ou nĂŁo permitido. JĂĄ a escola tem um papel educativo e de proteção: pode promover açÔes de conscientização, identificar sinais de abuso e acolher a escuta da criança com responsabilidade. E Ă© essencial reforçar: a culpa nunca Ă© da vĂ­tima”, reforça.

'A culpa nunca Ă© da vĂ­tima’: psicĂłloga alerta para sinais de abuso sexual em crianças e jovens

Os abusos podem criar sequelas que afetam a vĂ­tima na vida adulta/Foto: Ilustrativa

Ela pontua ainda que Ă© preciso estar atento para nĂŁo fazer com que a vĂ­tima reviva os momentos do abuso durante o processo de acolhimento, pois isso pode agravar os traumas.

“O que muitas pessoas nĂŁo sabem Ă© que, mesmo quando a vĂ­tima Ă© ouvida, se isso nĂŁo for feito de forma empĂĄtica e respeitosa, ela pode sentir que o trauma se intensifica. Para evitar a revitimização, Ă© fundamental criar um ambiente seguro e acolhedor, onde a vĂ­tima possa falar no seu tempo, sem pressa, e com o apoio de profissionais treinados. AlĂ©m disso, garantir que o relato nĂŁo seja repetido de forma desnecessĂĄria em diferentes espaços ou para diferentes pessoas tambĂ©m Ă© crucial”, explicou.

Marcas para a vida toda

Samara Pinheiro pontua ainda que os impactos psicolĂłgicos em pessoas que passam por momentos de violĂȘncia sexual podem perdurar por toda a vida.

“Os impactos psicolĂłgicos da violĂȘncia sexual variam muito, mas alguns sĂŁo bastante recorrentes: ansiedade, depressĂŁo, culpa, vergonha, dificuldades escolares, uso de substĂąncias psicoativas, isolamento social e comportamentos autolesivos”, disse.

AlĂ©m disso, sintomas fĂ­sicos tambĂ©m podem aparecer, como dores de cabeça, enjoos ou crises de asma, que nĂŁo tĂȘm causa mĂ©dica aparente, sendo manifestaçÔes psicossomĂĄticas.

Por fim, Pinheiro reforça que as sequelas na vida adulta podem surgir em diversos formatos, mas que os mais comuns sĂŁo: dificuldades em estabelecer vĂ­nculos afetivos, baixa autoestima, distĂșrbios sexuais e atĂ© transtornos como depressĂŁo, ansiedade, transtorno de estresse pĂłs-traumĂĄtico e transtornos de personalidade, como o borderline.

Além disso, esses impactos podem emergir em momentos específicos da vida, como durante o casamento, maternidade ou na construção de relaçÔes de confiança.

“O corpo guarda memĂłrias do trauma, mesmo quando a mente tenta esquecer. Por isso, o acompanhamento psicolĂłgico Ă© tĂŁo importante, mesmo que a violĂȘncia tenha ocorrido hĂĄ muito tempo”, finalizou.

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