A partir de terça-feira (13/5), os aposentados e pensionistas do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) que podem ter sido prejudicados pelos descontos associativos indevidos, serão informados sobre os descontos (valores e entidades) e deverão indicar se foram ou não autorizados.
A informação serå ser prestada pelo aplicativo Meu INSS, que enviarå uma notificação. O órgão do governo ressalta para o risco de golpe: nenhum contato serå feito via telefone ou mensagem.

Governo deve começar nesta terça a informar quem pode ter sido prejudicado com as fraudes/Foto: JoĂ©dson Alves/AgĂȘncia Brasil
A partir das respostas, o INSS tentarĂĄ reaver, junto Ă s entidades, valores descontados indevidamente, inclusive judicialmente. Quem constatar descontos indevidos poderĂĄ solicitar o ressarcimento a partir de quarta-feira (14/5) pelo prĂłprio aplicativo.
Na semana passada, os beneficiĂĄrios que nunca tiveram desconto associativo em seu histĂłrico previdenciĂĄrio receberam uma mensagem pelo aplicativo informando que nada foi debitado indevidamente.
A medida vem na esteira de uma investigação conduzida pela PolĂcia Federal (PF) que apontou descontos fraudulentos na aposentadoria e pensĂ”es do INSS.
Os recursos seriam destinados a associaçÔes que, segundo as investigaçÔes, teriam fraudado assinaturas de aposentados e pensionistas para realizar descontos nos vencimentos dos beneficiårios.
As suspeitas levaram Ă Â queda do ministro da PrevidĂȘncia Social, Carlos Lupi (PDT), no Ășltimo dia 2, e do presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, que pediu demissĂŁo no fim de abril apĂłs ser alvo de uma operação da PF e da Controladoria-Geral da UniĂŁo (CGU).
Stefanutto, que tambĂ©m Ă© filiado ao PDT, foi indicado para o cargo em julho de 2023 pelo agora ex-ministro Carlos Lupi. Antes disso, atuava como diretor de Orçamento, Finanças e LogĂstica da autarquia.
O ex-deputado Wonley Queiroz (PDT), atĂ© entĂŁo secretĂĄrio-executivo do MinistĂ©rio da PrevidĂȘncia, foi nomeado no lugar de Lupi.
JĂĄ o presidente Luiz InĂĄcio Lula da Silva (PT) tem se debruçado sobre o discurso de que os desvios começaram ainda na gestĂŁo de Jair Bolsonaro (PL), uma resposta Ă oposição que tenta colar na imagem do governo o grande “escĂąndalo de corrupção”.
Quando o dinheiro serĂĄ devolvido?
O governo ainda nĂŁo detalhou quando o ressarcimento serĂĄ feito aos prejudicados.
O INSS afirma que, depois que o beneficiårio prejudicado fizer a solicitação de ressarcimento, a informação serå encaminhada à entidade responsåvel pelo desconto.
A partir de entĂŁo, a entidade terĂĄ 15 dias Ășteis para apresentar a documentação que comprove a autorização do beneficiĂĄrio. Caso nĂŁo sejam apresentados os documentos, a prĂłpria entidade deverĂĄ realizar o ressarcimento ao INSS.
Somente apĂłs o recebimento dos valores devidos, o INSS depositarĂĄ o dinheiro diretamente na conta bancĂĄria vinculada ao benefĂcio.
Se a associação comprovar a autorização, o beneficiårio serå informado e poderå, se desejar, apresentar contestação.
Caso a entidade não faça o ressarcimento, nem comprove a regularidade dos descontos, o caso serå encaminhado à Advocacia Geral da União (AGU) para as medidas legais de cobrança e ressarcimento.
Os prazos para esses trĂąmites nĂŁo foram apresentados pelo INSS.
Quanto foi desviado?
Na semana passada, a Advocacia-Geral da União (AGU) apresentou um pedido de bloqueio de R$ 2,56 bilhÔes em bens de doze entidades associativas investigadas, com objetivo de garantir recursos para o ressarcimento.
Segundo o INSS, o valor representa o prejuĂzo mĂnimo estimado atĂ© o momento causado por essas associaçÔes. O governo nĂŁo sabe ainda qual foi o valor total desviado, mas as investigaçÔes apontam descontos indevidos, entre os anos de 2019 e 2024, que podem chegar Ă ordem de R$ 6,3 bilhĂ”es.
A expectativa Ă© que, apĂłs esse processo de notificação dos possĂveis prejudicados, o valor total desviado poderĂĄ ser calculado.
Quando os desvios começaram?
Apesar de a CGU ter destacado o valor descontado entre 2019 e 2024, ainda não estå claro quando os desvios começaram.
InvestigaçÔes passadas do MinistĂ©rio PĂșblico jĂĄ apuraram descontos indevidos ocorridos em 2018 e 2019, ainda nos governos de Michel Temer (MDB) e de Jair Bolsonaro (PL), mas em escala menor do que a observada na fraude revelada agora.
Tanto o valor total desviado, quanto o perĂodo em que os desvios ocorreram, viraram alvo de uma disputa de narrativa entre o governo e oposição. O acaso tem sido usado pela bancada bolsonarista para acusar Lula e seu governo de corrupção.
O que diz a oposição sobre o assunto?
Na semana passada, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) publicou em suas redes sociais um vĂdeo em que ele fala no “maior escĂąndalo de corrupção da histĂłria do Brasil”, e em “desvios bilionĂĄrios”.
“E, Ă© claro, vĂŁo espalhar a narrativa de que tudo começou no governo anterior. E jĂĄ percebeu que, no governo passado, tudo era culpa sĂł do presidente, e, neste governo, nada Ă© culpa do presidente?”, disse o deputado.
AtĂ© esta segunda, somente no Instagram, 5,3 milhĂ”es de pessoas jĂĄ tinham assistido ao vĂdeo, que repete a estĂ©tica de uma outra publicação do deputado, de janeiro deste ano. Naquele momento, Nikolas Ferreira publicou um vĂdeo levantando a possibilidade de que o PIX poderia vir a ser taxado pelo governo.
O vĂdeo do deputado bolsonarista foi um dos propulsores de uma crise no governo Lula, que acabou forçando o governo a revogar uma portaria que ampliava o escopo da fiscalização da Receita Federal sobre transaçÔes financeiras, duas semanas depois que ela entrou em vigor.

O que o governo diz?
O presidente Lula demorou uma semana para se manifestar sobre o assunto.
A Operação Sem Desconto, que apura corrupção ativa e passiva, organização criminosa, falsificação de documentos, violação de sigilo funcional e lavagem de dinheiro, foi deflagrada no dia 23 de abril.
Lula sĂł falou sobre o assunto em um pronunciamento em rede nacional devido ao Dia do Trabalho, em 1Âș de maio.
Ele aproveitou a oportunidade para dizer que seu governo, por meio da Controladoria-Geral da UniĂŁo e da PF, “desmontou um esquema criminoso de cobrança indevida contra aposentados e pensionistas, que vinha operando desde 2019”.
Desde entĂŁo, a postura do governo tem sido a de dizer que os desvios sĂŁo anteriores ao mandato de Lula.
“NĂłs resolvemos desmontar uma quadrilha que foi criada em 2019. Ă importante saber que uma quadrilha que foi criada em 2019. E vocĂȘs sabem quem governava o Brasil em 2019”, disse Lula, no sĂĄbado (10/5), ao ser perguntado por jornalistas, durante sua viagem Ă RĂșssia, sobre a demora no processo de ressarcimento dos prejudicados.
“O crime foi um assalto a aposentados e pensionistas nesse PaĂs. O que eu acho mais grave: eles nĂŁo foram no cofre do INSS, eles foram no bolso do povo. Isso nos deixa mais revoltados e por isso vamos a fundo para saber quem Ă© quem nesse jogo e se tinha alguĂ©m do governo passado envolvido nisso. NĂŁo tenho pressa”, afirmou o presidente.
Gleisi Hoffmann, ministra-chefe da Secretaria das RelaçÔes Institucionais, tem discursado na mesma linha.
“Foi no governo Bolsonaro que quadrilhas criaram entidades fantasmas para roubar os aposentados, sem que nada fosse feito para investigĂĄ-las ou coibir sua ação no INSS. A maior parte das associaçÔes investigadas passou a atuar no governo Bolsonaro”, escreveu ela, na semana passada, em sua conta no X.
De fato, os indĂcios de fraude foram identificados pela CGU devido ao forte aumento de cobranças e reclamaçÔes, que começaram a subir em 2022. No entanto, saltaram fortemente a partir de 2023, no primeiro ano do governo Lula.
Segundo um relatĂłrio da controladoria produzido em setembro de 2024, mas divulgado somente agora, o valor anual mĂ©dio descontado pelas associaçÔes entre 2016 e 2021 ficou em R$ 523,8 milhĂ”es, sendo o maior valor desse perĂodo registrado em 2018 (R$ 617 milhĂ”es).
Em 2022, Ășltimo ano do governo Bolsonaro, houve uma primeira alta mais expressiva, quando os descontos somaram R$ 706,2 milhĂ”es, aumento de 32% ante 2021 (R$ 536,3 milhĂ”es).
Depois disso, o crescimento se acelerou no governo Lula, atingindo R$ 1,3 bilhĂŁo em 2023, aumento de 84%.
O relatório projetava que em 2024 os descontos chegariam a R$ 2,6 bilhÔes, dobrando em um ano.
O relatĂłrio da CGU acusa o INSS de nĂŁo tomar medidas eficazes para interromper os descontos ilegais.
Foi aberta uma CPI para investigar as fraudes?
Uma semana após deflagrada a operação Sem Desconto, deputados da oposição protocolaram na Cùmara pedido de abertura de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar o esquema.
Embora dos deputados tenham conseguido reunir o nĂșmero necessĂĄrio de assinaturas para a abertura da CPI, a sua instalação depende do presidente da Casa, o deputado Hugo Motta (Republicanos-PB).
Motta, no entanto, não se comprometeu com isso, alegando que jå havia uma fila de pedidos para instalaçÔes de CPIs.
A oposição entĂŁo se articulou para pedir a criação de uma ComissĂŁo Parlamentar Mista de InquĂ©rito (CPMI), algo que requer a assinatura de ao menos 1/3 dos membros de cada Casa – CĂąmara e Senado. A expectativa era de protocolar o pedido ainda nesta segunda-feira (12/5).
No entanto, a abertura de uma CPMI depende do presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). Até o fechamento desta reportagem, a comissão não havia sido instalada.

