O Sindicato dos Policiais Penais do Acre (Sindpol/AC) fez uma grave denĂșncia ao ContilNet nesta quarta-feira (23). A categoria afirma que as duas Ășltimas fugas registradas no Complexo PenitenciĂĄrio de Rio Branco ocorreram devido Ă falta de efetivo dos agentes e, principalmente, ao fato de que as guaritas do local estĂŁo desativadas.

Complexo Penitenciårio de Rio Branco/Foto: Reprodução
A primeira fuga aconteceu no dia 19 de junho deste ano, com nove detentos foragidos, que ainda nĂŁo foram recapturados. Um mĂȘs depois, em 19 de julho, foi registrada uma segunda fuga, na qual seis detentos escaparam, mas apenas um foi localizado atĂ© agora.
Segundo o sindicato, os presos que escaparam nas duas ocasiĂ”es sĂŁo considerados de alta periculosidade, com boa parte acusada de homicĂdio.
“Tem a guarita, chamamos lĂĄ de ReFOC 2. Ela estĂĄ desativada e Ă© por onde os presos estĂŁo fugindo da unidade de regime provisĂłrio. A gestĂŁo tirou a escada dessa guarita para colocar em outra guarita, ao invĂ©s de reformar, nĂ©? E aĂ a informação, eu fui ver logo. Eu fui logo lĂĄ ver e, realmente, eles me informaram que tem relatĂłrios e relatĂłrios informando a direção e a gestĂŁo superior para arrumar essa guarita e colocar policiais lĂĄ”, disse o presidente do Sindpol/AC, Leandro Rocha, Ă nossa reportagem.
Rocha afirma que a guarita estĂĄ desativada hĂĄ bastante tempo.
“Por que as pessoas estĂŁo fugindo? Porque nĂŁo tem guarita. NĂŁo tem policial nas guaritas. Essa guarita fica no muro, na muralha. Eles saem da cela e vĂŁo em direção a essa guarita que nĂŁo tem policial. Ela estĂĄ desativada jĂĄ hĂĄ um bom tempo”, destacou.
De acordo com o presidente do sindicato, diversos relatĂłrios foram enviados Ă direção do Instituto de Administração PenitenciĂĄria do Acre (Iapen) alertando sobre a situação, mas nenhuma providĂȘncia foi tomada. Ele tambĂ©m detalhou como ocorreram as fugas.
“A gente enviou [relatĂłrios], inclusive eu fiz outro relatĂłrio situacional devido a essa Ășltima fuga, eu fui atĂ© a unidade. Os policiais me mostraram o percurso que os presos fizeram. Eles quebraram a estrutura da ventilação. Eles quebraram e saĂram. Eles aproveitaram o momento da fragilidade. NĂłs estamos com uma falta de efetivo tremenda, uma gritante falta de efetivo. EntĂŁo, eles aproveitam aquele momento entre 18, 19, 20 horas – que Ă© o horĂĄrio que os policiais vĂŁo tomar banho, jantar, fazer tudo e a troca dos horĂĄrios do banco de horas”, acrescentou.
Rocha afirma que o banco de horas tem ajudado a suprir a falta de efetivo, mas a estrutura precĂĄria do presĂdio contribui para as fugas.
“O que estĂĄ complementando o efetivo Ă© o banco de horas. EntĂŁo, o banco de horas, Ă s 17 horas eles saem e voltam Ă s 21, uma outra equipe. EntĂŁo, esse intervalo de 17 atĂ© Ă s 21 fica muito fragilizado. E aĂ Ă© aquele momento de tomar banho, de descanso, jantar. E aĂ eles aproveitam. A iluminação Ă© precĂĄria e nĂŁo tem policial na muralha, na guarita”, salientou.

“NĂłs estamos com uma falta de efetivo tremenda”, disse o presidente do Sindpol/AC ao ContilNet/Foto: Reprodução
Segundo ele, a falta de profissionais é o principal problema enfrentado no sistema penitenciårio do Acre, mas outros pontos também preocupam.
“NĂłs fizemos estudos. No mĂnimo, nĂłs temos que ter, pela quantidade de presos â que sĂŁo 5.300 â a gente deveria ter no mĂnimo 1.800 policiais penais no estado. Hoje, nĂłs temos 1.159. Mas tem outros problemas graves tambĂ©m, como falta de estrutura, falta de investimento em tecnologia, em cĂąmeras, automação das celas, muralha. Tem que construir a muralha.”
Ainda segundo o presidente do sindicato, o Complexo Penitenciårio Francisco de Oliveira Conde (FOC) foi adaptado a partir de uma colÎnia penal, o que agrava a situação.
“O FOC foi adaptado, ele era uma colĂŽnia penal. EntĂŁo, nĂŁo tem muralha. O muro Ă© baixo. E aĂ, somando tudo isso, vĂŁo acontecer essas fugas aĂ”, frisou.
Duas fugas foram registradas no perĂodo de um mĂȘs/Foto: Reprodução
Para Rocha, a baixa taxa de recaptura dos foragidos estĂĄ diretamente ligada Ă escassez de efetivo:
“Antes, a PolĂcia Penal tinha um agrupamento na divisĂŁo de recaptura, que fazia todo o trabalho de inteligĂȘncia e fazia essas recapturas desses foragidos. Mas hoje nĂŁo tem mais, nĂ©? A administração acabou com esse grupo e aĂ nĂŁo tem mais. AĂ fica a cargo da sociedade fazer a denĂșncia, nĂ©? Mas a sociedade tem medo de denunciar essas pessoas do crime, com toda razĂŁo”.
Resposta do Iapen
O ContilNet procurou o presidente do Iapen, delegado Marcos Frank, para comentar a denĂșncia. Ele confirmou que algumas guaritas estĂŁo desativadas, mas destacou que hĂĄ um concurso pĂșblico em andamento para reforçar o efetivo.

Marcos Frank, presidente do Iapen/Foto: Reprodução
“Temos algumas guaritas desativadas, mas temos um concurso de policiais penais em andamento, que pretendemos suprir essa necessidade efetiva. Mas nĂłs tambĂ©m realocamos alguns policiais para suprir essa deficiĂȘncia na unidade provisĂłria, onde aconteceu a fuga”, destacou.
Sobre a possibilidade das guaritas inoperantes terem facilitado as fugas, o presidente foi cauteloso:
“Da Ășltima, eu afirmo isso. Da penĂșltima, eu quero abrir um parĂȘntese. Essa fuga, ela aconteceu Ă s 6h42 da manhĂŁ. Os fatos foram encaminhados Ă corregedoria do Iapen, que vai verificar se houve uma falha no procedimento policial â ou por desĂdia deliberada ou negligĂȘncia de forma prĂ©-ordenada”, finalizou.



