“NĂŁo foi a 1ÂȘ vez”, diz jovem apĂłs ser estuprada e ter Ăștero perfurado em aborto legal

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“NĂŁo foi a 1ÂȘ vez”, diz jovem apĂłs ser estuprada e ter Ăștero perfurado em aborto legal

ApĂłs sofrer violĂȘncia sexual e ter o intestino e o Ăștero perfurados durante o procedimento de aborto legal no Hospital Materno Infantil de BrasĂ­lia (Hmib) em abril deste ano, Larissa Santos* recebeu o MetrĂłpoles em casa e detalhou o crime e o erro mĂ©dico dos quais foi vĂ­tima.

“NĂŁo foi a primeira vez que eu passei por isso. Quando vocĂȘ vive na rua, sei que parece um pouco absurdo, mas termina que essas coisas sĂŁo normalizadas”, comentou a mulher ao se referir ao estupro, ocorrido em fevereiro Ășltimo.

Larissa* foi atraída por um amigo da família que encontrou na Rodoviåria do Plano Piloto para um prédio abandonado na årea central de Brasília, sob a justificativa de encontrar uma antiga amiga. Era uma emboscada.

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Larissa, que conhecia o homem da época em que esteve em situação de rua, foi estuprada, agredida e ameaçada pelo então colega. Ele continua vivendo em prédios abandonados da cidade. Casada, a mulher voltou para casa e não contou para o marido o que havia lhe acontecido, por medo da reação do companheiro, que jå tinha histórico agressivo.

Porém, em abril, ela descobriu que estava gråvida do estuprador e decidiu confidenciar o drama pessoal à pastora da igreja que frequentava. Segundo a vítima, após essa conversa, estava em casa aguardando o companheiro terminar o jantar. Sentou-se para ler a Bíblia, começou a chorar e adormeceu sobre o livro. O homem se aproveitou do sono de Larissa* e leu mensagens trocadas entre a jovem e a religiosa, descobrindo assim a gravidez.

“Acordei com ele me batendo. O vidro do celular quebrou e voou no meu olho”, relembra.

Ela saiu de casa, registrou boletim de ocorrĂȘncia na PolĂ­cia Civil do DF (PCDF) e foi acolhida junto da filha de 2 anos em um abrigo. No local, atenderam Larissa e a orientaram a buscar ajuda mĂ©dica, para interromper a gravidez legalmente. No Brasil, vĂ­timas de estupro que porventura fiquem grĂĄvidas tĂȘm direito de abortar em uma unidade de saĂșde, com todo o suporte especializado necessĂĄrio para um procedimento seguro e eficaz.

Após obter parecer favoråvel da Justiça, a jovem foi levada ao Hmib em 23 de abril, onde fez o aborto. Após acordar do procedimento, Larissa* relembra que sentia muitas dores e sangramento, mas foi comunicada pela médica responsåvel que cólicas fortes eram comuns. Para as dores, foi receitado apenas Butilbrometo de Escopolamina e Dipirona, medicamento conhecido como Buscopan.

Com a alta mĂ©dica, ela retornou ao abrigo. “Sentia uma dor que beirava o insuportĂĄvel. NĂŁo chamei ninguĂ©m Ă  noite porque, alĂ©m da minha filha estar deitada no meu ombro, eu nĂŁo tinha forças para gritar”, relata. A mulher estava com quase 40°C de febre, palidez, falta de apetite e estava com a mesma fralda, que usava para conter o sangramento, desde o dia anterior.

Apreensivas com o quadro de saĂșde, as cuidadoras do abrigo retornaram com a paciente ao Hmib, onde ela foi submetida a exames de urina – que nĂŁo apontaram alteraçÔes – e sangue – que apresentaram resultados fora da normalidade. A vĂ­tima relata que as mĂ©dicas demonstraram preocupação e decidiriam realizar exames de imagem. ApĂłs esses exames, recebeu um analgĂ©sico mais forte, que aliviou a dor por cerca de 30 a 40 minutos.

Órgãos perfurados

Ainda no Hmib, informaram à Larissa que seria necessårio transferi-la para o Hospital Regional da Asa Norte (Hran). Durante o trajeto, ao conversar com a médica que a acompanhava, descobriu que estava sendo encaminhada por conta de uma perfuração nos órgãos.

Larissa estava preocupada com a filha, que ainda estava no abrigo. Então, pediu o celular emprestado de um paciente para solicitar à irmã que buscasse a criança. “Eu disse: ‘Ora por mim, eu não posso morrer, preciso cuidar da minha filha’”, relembrou Larissa.

AtĂ© entĂŁo, ninguĂ©m havia detalhado o quadro de saĂșde da paciente. Foi apenas no dia seguinte, quando acordou da cirurgia, que *Larissa viu o que havia acontecido. “NinguĂ©m tinha me contado sobre a marca e a bolsa”. Ouviu assustada as explicaçÔes de uma enfermeira, que a orientou sobre a limpeza da cicatriz e do equipamento.

A alta hospitalar veio cinco dias após a cirurgia. Até hoje, Larissa vive com a bolsa de colostomia enquanto espera pela cirurgia de reversão. Porém, não hå data marcada para o procedimento, o que deixa Larissa em uma situação extremamente delicada. Antes de todos os acontecimentos, a jovem era chef de cozinha, mas desde então não pode mais trabalhar no ramo alimentício, o que a deixou sem renda. Atualmente, conta apenas com um auxílio aluguel no valor de R$ 600.

Além do desconforto físico e da limitação na carreira, a bolsa de colostomia causa diversas situaçÔes de constrangimento à Larissa. Sem previsão de retirada, hoje convive com a insegurança que tem sobre o que lhe aguarda no futuro.

* Nome fictĂ­cio para resguardar a identidade da vĂ­tima.

 

 

 

 

 

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