Solução para Favela do Moinho acirra disputa entre Lula e Tarcísio

Por MetrĂłpoles 16/08/2025 Ă s 15:27

TrĂȘs meses depois do anĂșncio de um acordo entre os governos Lula (PT) e TarcĂ­sio de Freitas (Republicanos) para oferecer imĂłveis gratuitamente Ă s famĂ­lias da Favela do Moinho, o processo envolvendo o fim de uma das Ășltimas comunidades do centro de SĂŁo Paulo ainda Ă© alvo de disputas polĂ­ticas entre as duas gestĂ”es.

De um lado, o presidente Luiz Inåcio Lula da Silva (PT) diz que o subsídio integral de moradias no valor de até R$ 250 mil só serå possível por causa da costura feita pelo governo federal. Lula chegou a vir pessoalmente à capital paulista para visitar a favela em junho e assinar a portaria para o programa habitacional.

Do outro, a gestão paulista vem criticando uma suposta demora e burocracia do governo federal em liberar a verba para o programa, e diz que tem dado continuidade à remoção das famílias do local sem ajuda externa.

A disputa polĂ­tica sobre quem deixarĂĄ sua marca como o responsĂĄvel por uma solução definitiva para a comunidade, instalada hĂĄ dĂ©cadas entre os trilhos de duas linhas de trem, ficou ainda mais visĂ­vel nos Ășltimos dois dias.

Solução para Favela do Moinho acirra disputa entre Lula e Tarcísio7 imagensFavela do Moinho teve saneamento båsico regularizado em 2022Entrada da Favela do Moinho, no centro da cidadeRuas de terra, barracos de madeira e fios emaranhados fazem parte do cenårio da Favela do MoinhoCDHU marca casas da Favela do MoinhoCDHU acompanha mudança na Favela do MoinhoFechar modal.Solução para Favela do Moinho acirra disputa entre Lula e TarcísioSolução para Favela do Moinho acirra disputa entre Lula e Tarcísio1 de 7

Protesto na entrada da Favela do Moinho

Jessica Bernardo / Metrópoles Solução para Favela do Moinho acirra disputa entre Lula e Tarcísio2 de 7

Favela do Moinho teve saneamento bĂĄsico regularizado em 2022

Jessica Bernardo/MetrópolesSolução para Favela do Moinho acirra disputa entre Lula e Tarcísio3 de 7

Entrada da Favela do Moinho, no centro da cidade

Jessica Bernardo / MetrópolesSolução para Favela do Moinho acirra disputa entre Lula e Tarcísio4 de 7

Ruas de terra, barracos de madeira e fios emaranhados fazem parte do cenĂĄrio da Favela do Moinho

Jessica Bernardo/MetrópolesSolução para Favela do Moinho acirra disputa entre Lula e Tarcísio5 de 7

CDHU marca casas da Favela do Moinho

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CDHU acompanha mudança na Favela do Moinho

Jessica Bernardo / MetrópolesSolução para Favela do Moinho acirra disputa entre Lula e Tarcísio7 de 7

Favela do Moinho estĂĄ entre duas linhas de trem da CPTM

Jessica Bernardo/MetrĂłpoles

No inĂ­cio dessa sexta-feira (15/8), Lula publicou um vĂ­deo nas redes sociais ao lado do ministro das Cidades, Jader Filho (MDB), anunciando que a Caixa EconĂŽmica Federal divulgaria a lista com as primeiras famĂ­lias da favela a serem contempladas pelo Minha Casa, Minha Vida.

“VocĂȘs estĂŁo lembrados que o governador queria dar sĂł R$ 800 para vocĂȘs saĂ­rem da Favela do Moinho? O governo federal foi lĂĄ, com nossa ministra Esther, nosso ministro Jader, e exigiu que o governo do estado melhorasse a proposta dele e que as pessoas sĂł iam sair quando tivessem condiçÔes de sair, procurar suas casas, alugar suas casas”, diz Lula no inĂ­cio do vĂ­deo.

Na sequĂȘncia, o ministro Jader Filho fala que a lista com as 453 primeiras famĂ­lias que iriam receber recursos do governo federal seria publicada naquele mesmo dia (veja lista aqui).

“Nós fizemos isso, presidente, em tempo recorde, nós estamos atendendo mais de 50% de todas as famílias da Favela do Moinho e daqui a pouquinho vamos chegar na totalidade”.

NĂŁo demorou para que viesse uma resposta do executivo estadual, que tem criticado o tempo levado pela gestĂŁo Lula para liberar a verba do programa.

Neste sĂĄbado (16/8), o governo TarcĂ­sio divulgou uma nota em que diz que jĂĄ retirou 479 famĂ­lias do Moinho neste ano utilizando recursos prĂłprios. “Todos os custos atĂ© o momento sĂŁo arcados pelo Estado, que mantĂ©m o compromisso assumido, em maio, de garantir atendimento gratuito Ă s famĂ­lias do Moinho”, diz o texto.

“A Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação aguarda a entrada da Caixa EconĂŽmica Federal na operação. AtĂ© lĂĄ, continuarĂĄ arcando com todos os custos necessĂĄrios para honrar o compromisso com as famĂ­lias. O acerto de contas deverĂĄ ser feito tĂŁo logo o governo federal consiga vencer seus trĂąmites burocrĂĄticos, sem que sejam lesadas as famĂ­lias que precisam de apoio do Poder PĂșblico”, afirma ainda a nota.

Ao MetrĂłpoles, o MinistĂ©rio das Cidades disse que jĂĄ estava pactuado entre o governo federal e o do estado que o ressarcimento federal no caso da escolha de imĂłveis da CDHU seria realizado ao final da obra. “O que falta Ă© apenas a formalização de aditivo contratual entre CDHU e Caixa, sem prejuĂ­zo ao acordo nem ao atendimento das famĂ­lias”, diz a nota.

Disputa de terreno

O futuro da Favela do Moinho vem movimentando os dois governos desde o início do ano. Alegando querer construir um parque e uma estação no terreno, que pertence ao governo federal, a gestão Tarcísio solicitou a cessão do local para o estado, e passou a cadastrar os moradores na Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU).

Como era a proposta de Tarcísio no começo

  • À princĂ­pio, a proposta de TarcĂ­sio falava em um “reassentamento voluntĂĄrio” dos moradores.
  • As famĂ­lias poderiam optar pela Carta de CrĂ©dito Associativa (CCA), em que estĂŁo disponĂ­veis imĂłveis construĂ­dos, em construção, ou que jĂĄ tenham ao menos as licenças emitidas, com tudo pronto para iniciar as obras.
  • Outra opção seria a Carta de CrĂ©dito Individual, na qual os cidadĂŁos podem buscar unidades e apresentar para a CDHU, que faria uma avaliação de valor de mercado para seguir com a contratação.
  • Nas duas modalidades, o valor limite Ă© de R$ 250 mil para unidades na regiĂŁo central e R$ 200 mil para outros bairros ou municĂ­pios de SP.
  • O acordo incluĂ­a um auxĂ­lio de R$ 2.400 para a mudança da favela e um auxĂ­lio moradia mensal de R$ 800. Os apartamentos oferecidos, no entanto, deveriam ser pagos pelos moradores, por meio de um financiamento equivalente a 20% da renda mensal.
  • Como mostrou o MetrĂłpoles, no entanto, parte dos moradores afirmava nĂŁo ter condiçÔes de pagar pelo financiamento, mesmo com o subsĂ­dio de parte do valor pelo governo estadual.

Em abril, o governo estadual começou a retirar as primeiras famílias da favela e moradores contrårios às propostas fizeram protestos que chegaram a interromper a circulação dos trens na região.

Relatos de intimidação policial começaram a surgir e parte da comunidade passou a pressionar o governo federal a se posicionar sobre o tema. Até que, em maio, o governo anunciou uma parceria com a gestão Tarcísio para ofertar imóveis gratuitamente aos moradores com renda.

Solução para Favela do Moinho acirra disputa entre Lula e Tarcísio8 imagensPMs usaram escudo para avançar contra protesto na linha 8-DiamantePoliciais na Favela do MoinhoFogo é ateado na região da linha 8-DiamanteCrianças na Favela do MoinhoFavela do Moinho Fechar modal.Solução para Favela do Moinho acirra disputa entre Lula e TarcísioSolução para Favela do Moinho acirra disputa entre Lula e Tarcísio1 de 8

Fumaça invadiu centro de São Paulo durante protesto contra demolição de casas na Favela do Moinho

Valentina Moreira/Metrópoles Solução para Favela do Moinho acirra disputa entre Lula e Tarcísio2 de 8

PMs usaram escudo para avançar contra protesto na linha 8-Diamante

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Policiais na Favela do Moinho

Valentina Moreira/Metrópoles Solução para Favela do Moinho acirra disputa entre Lula e Tarcísio4 de 8

Fogo Ă© ateado na regiĂŁo da linha 8-Diamante

Valentina Moreira / MetrópolesSolução para Favela do Moinho acirra disputa entre Lula e Tarcísio5 de 8

Crianças na Favela do Moinho

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Favela do Moinho

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Policiais avançam contra protesto na Favela do Moinho

Valentina Moreira / Metrópoles Solução para Favela do Moinho acirra disputa entre Lula e Tarcísio8 de 8

PMs na Favela do Moinho

Valentina Moreira/MetrĂłpoles

Como Ă© o projeto acordado pelo governo federal

  • Cada famĂ­lia poderĂĄ adquirir um imĂłvel de atĂ© R$ 250 mil. Parte deste valor, atĂ© R$ 180,5 mil, serĂĄ subsidiada pelo governo federal e R$ 70 mil pelo governo estadual.
  • Os moradores podem optar por imĂłveis novos ou usados, em qualquer cidade do estado de SĂŁo Paulo. O pagamento Ă© feito diretamente ao vendedor do imĂłvel.
  • FamĂ­lias que optarem por imĂłveis em construção terĂŁo direito a auxĂ­lio-moradia de atĂ© R$ 1.200 por mĂȘs durante o perĂ­odo de transição, custeados pelo Casa Paulista, do governo TarcĂ­sio.
  • TĂȘm direito ao programa, moradores residentes na Favela do Moinho atĂ© 2 de novembro de 2024 e com renda bruta familiar mensal de atĂ© R$ 4.700.
  • NĂŁo podem participar pessoas que jĂĄ tĂȘm outro imĂłvel, que jĂĄ receberam benefĂ­cios similares nos Ășltimos 10 anos, e que tĂȘm restrição no Cadin – o cadastro de pessoas em dĂ©bito com ĂłrgĂŁos e entidades federais.
  • Segundo a UniĂŁo, famĂ­lias com pendĂȘncias tĂȘm 60 dias para regularização. As jĂĄ elegĂ­veis dispĂ”em de 12 meses para indicar o imĂłvel que desejam.

O acordo tambĂ©m prevĂȘ que as pessoas que se encaixam nas regras e jĂĄ tenham feito adesĂŁo Ă  proposta anterior da CDHU e, portanto, jĂĄ tenham pago parte do financiamento, sejam restituĂ­das dos valores pagos pelo governo estadual.

Depois das tratativas entre as duas gestĂ”es hĂĄ trĂȘs meses, a gestĂŁo TarcĂ­sio continuou com as remoçÔes, que jĂĄ teriam alcançado metade da favela, segundo o governo paulista. Dentro da gestĂŁo estadual, a percepção Ă© de que tanto a Caixa quanto o governo federal demoraram em liberar a verba, gerando um clima de insegurança em quem continua favela.

Agora, com a divulgação pela Caixa das primeiras famílias adeptas a participar do programa, a expectativa é que o processo de desocupação da favela avance mais.

A troca de faĂ­scas nos anĂșncios dos dois governos sobre a Favela do Moinho acontece em meio Ă  intensificação das conversas sobre eleiçÔes no mundo polĂ­tico. Enquanto Lula deve disputar a reeleição pela esquerda, TarcĂ­sio – ainda que publicamente diga que quer tentar a reeleição por SĂŁo Paulo – Ă© o nome mais cotado para substituir Jair Bolsonaro (PL) no outro lado do espectro polĂ­tico.

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