Um mĂ©dico anestesista francĂȘs acusado de 30 envenenamentos de pacientes durante cirurgias, dos quais 12 foram fatais, começa a ser julgado nesta segunda-feira (8/9) na França.

França julga médico acusado de envenenar 30 pacientes. Foto: Reprodução
O mĂ©dico de 53 anos Ă© acusado de ter envenenado deliberadamente 30 pacientes, com idades entre quatro e 89 anos, dos quais 12 morreram, entre 2008 e 2017, em duas clĂnicas privadas de Besançon.
Após oito anos de investigaçÔes, o ex-anestesista compareceu na manhã de segunda-feira ao banco dos réus, de barba branca, vestindo calça jeans e camisa azul, antes de acompanhar a seleção dos jurados.
Visivelmente abalado e emocionado, foi recebido na chegada ao PalĂĄcio da Justiça por alguns familiares e amigos, entre eles uma pessoa que gritou: âForça, FrĂ©do!â
Considerado o âdenominador comumâ desses envenenamentos e incriminado por âum conjunto de elementos concordantesâ, segundo a acusação, FrĂ©dĂ©ric PĂ©chier, que sempre se disse inocente, pode ser condenado Ă prisĂŁo perpĂ©tua. No entanto, ele nunca chegou a ser encarcerado desde o inĂcio da investigação, pois os juĂzes decidiram mantĂȘ-lo em liberdade sob controle judicial.
A Justiça autorizou, em 2023, que ele exercesse sua profissão sob certas condiçÔes, desde que não tivesse contato com pacientes, mas ele não atua como médico desde 2017.
Investigação âtendenciosaâ
âEstou apreensivo com esses trĂȘs meses e meioâ de julgamento, mas âtenho argumentos fortes e nĂŁo estou indo com receioâ, declarou FrĂ©dĂ©ric PĂ©chier Ă rĂĄdio RTL nesta segunda-feira, antes da abertura dos debates. Questionado sobre o sofrimento das famĂlias, o mĂ©dico respondeu: âCompreendo perfeitamente, mas, por outro lado, nĂŁo sou responsĂĄvel pela dor delas.â
Para um de seus advogados, Randall Schwerdorffer, que junto com seu colega Lee Takhedmit pedirĂĄ a absolvição, esta Ă© a âprimeira vezâ que o acusado âpoderĂĄ se explicar e que tudo serĂĄ debatidoâ, apĂłs oito anos de investigação âconduzida exclusivamente de forma acusatĂłriaâ, e enquanto âtodos sempre partiram do princĂpio de que ele era culpadoâ.
O Dr. PĂ©chier Ă© suspeito de ter introduzido substĂąncias letais nas bolsas de infusĂŁo de pacientes atendidos por seus colegas, provocando paradas cardĂacas, antes de muitas vezes ajudar na reanimação.
A partir de segunda-feira e por duas semanas, o tribunal analisarå os casos mais recentes, aqueles que despertaram suspeitas dos investigadores e levaram à acusação formal do médico em março de 2017.
Sandra Simard, com 36 anos em janeiro de 2017, sofreu uma parada cardĂaca â Ă qual sobreviveu â durante uma cirurgia na clĂnica Saint-Vincent. Uma dose potencialmente letal de potĂĄssio foi encontrada em uma bolsa de solução usada em sua anestesia.
Jean-Claude Gandon, com 70 anos na Ă©poca, Ă© a Ășltima vĂtima conhecida da sĂ©rie de envenenamentos. Ănico entre os 30 pacientes a ter sido anestesiado diretamente por FrĂ©dĂ©ric PĂ©chier, ele tambĂ©m conseguiu ser reanimado.
Nas semanas seguintes, serĂŁo examinados um a um os casos de envenenamento atribuĂdos ao mĂ©dico, começando pelos mais antigos.
FrĂ©dĂ©ric PĂ©chier, que sempre alegou inocĂȘncia, pode pegar prisĂŁo perpĂ©tua. No entanto, ele nunca foi preso desde o inĂcio da investigação, pois os juĂzes decidiram deixĂĄ-lo em liberdade, sob controle judicial.
Um acusado âhabilidosoâ
O anestesista Ă© suspeito de âter envenenado pacientes saudĂĄveis para prejudicar colegas com quem estava em conflitoâ e, em seguida, demonstrar suas habilidades como reanimador, destacou anteriormente o entĂŁo procurador da RepĂșblica em Besançon, Etienne Manteaux.
Destacando a âonipresença (do Dr. PĂ©chier) na gestĂŁo das reanimaçÔes em casos de parada cardĂacaâ e seus âdiagnĂłsticos precocesâ, ele descreveu âum profissional de saĂșde particularmente habilidoso que agia quando ninguĂ©m estava nas salas de anestesia e que soube variar ao longo do tempo a natureza dos venenos administrados para nĂŁo levantar suspeitasâ.
âĂ um caso vertiginosoâ, observa o advogado FrĂ©dĂ©ric Berna, que representa muitas das partes civis. âSĂŁo envenenamentos puramente gratuitos, de vĂtimas que nĂŁo tinham nenhuma relação com ele, que nunca lhe fizeram nadaâ, afirma o advogado.
No livro âLe temps quâil lui resteâ (âO tempo que lhe restaâ), publicado quatro dias antes da abertura do julgamento e baseado em entrevistas com o acusado, a jornalista Plana Radenovic explica a estratĂ©gia da defesa: demonstrar que nĂŁo hĂĄ provas concretas contra o anestesista e que nenhuma outra pista foi considerada.

