Após 8 anos, França julga médico acusado de envenenar 30 pacientes

AçÔes ocorreram durante cirurgias e mataram 12 pessoas. VĂ­timas tĂȘm idades entre quatro e 89 anos. Veredito Ă© esperado para 19 de dezembro

Por MetrĂłpoles 26/09/2025 Ă s 12:34

Um mĂ©dico anestesista francĂȘs acusado de 30 envenenamentos de pacientes durante cirurgias, dos quais 12 foram fatais, começa a ser julgado nesta segunda-feira (8/9) na França.

Diante do tribunal de jĂșri de Besançon (leste), FrĂ©dĂ©ric PĂ©chier enfrenta mais de 150 processos – envolvendo vĂ­timas presumidas e suas famĂ­lias -, apresentados por cerca de cinquenta advogados. O veredito Ă© esperado para 19 de dezembro.
Após 8 anos, França julga médico acusado de envenenar 30 pacientes

França julga médico acusado de envenenar 30 pacientes. Foto: Reprodução

O médico de 53 anos é acusado de ter envenenado deliberadamente 30 pacientes, com idades entre quatro e 89 anos, dos quais 12 morreram, entre 2008 e 2017, em duas clínicas privadas de Besançon.

Após oito anos de investigaçÔes, o ex-anestesista compareceu na manhã de segunda-feira ao banco dos réus, de barba branca, vestindo calça jeans e camisa azul, antes de acompanhar a seleção dos jurados.

Visivelmente abalado e emocionado, foi recebido na chegada ao PalĂĄcio da Justiça por alguns familiares e amigos, entre eles uma pessoa que gritou: “Força, FrĂ©do!”

Considerado o “denominador comum” desses envenenamentos e incriminado por “um conjunto de elementos concordantes”, segundo a acusação, FrĂ©dĂ©ric PĂ©chier, que sempre se disse inocente, pode ser condenado Ă  prisĂŁo perpĂ©tua. No entanto, ele nunca chegou a ser encarcerado desde o inĂ­cio da investigação, pois os juĂ­zes decidiram mantĂȘ-lo em liberdade sob controle judicial.

A Justiça autorizou, em 2023, que ele exercesse sua profissão sob certas condiçÔes, desde que não tivesse contato com pacientes, mas ele não atua como médico desde 2017.

Investigação “tendenciosa”

“Estou apreensivo com esses trĂȘs meses e meio” de julgamento, mas “tenho argumentos fortes e nĂŁo estou indo com receio”, declarou FrĂ©dĂ©ric PĂ©chier Ă  rĂĄdio RTL nesta segunda-feira, antes da abertura dos debates. Questionado sobre o sofrimento das famĂ­lias, o mĂ©dico respondeu: “Compreendo perfeitamente, mas, por outro lado, nĂŁo sou responsĂĄvel pela dor delas.”

Para um de seus advogados, Randall Schwerdorffer, que junto com seu colega Lee Takhedmit pedirĂĄ a absolvição, esta Ă© a “primeira vez” que o acusado “poderĂĄ se explicar e que tudo serĂĄ debatido”, apĂłs oito anos de investigação “conduzida exclusivamente de forma acusatĂłria”, e enquanto “todos sempre partiram do princĂ­pio de que ele era culpado”.

O Dr. Péchier é suspeito de ter introduzido substùncias letais nas bolsas de infusão de pacientes atendidos por seus colegas, provocando paradas cardíacas, antes de muitas vezes ajudar na reanimação.

A partir de segunda-feira e por duas semanas, o tribunal analisarå os casos mais recentes, aqueles que despertaram suspeitas dos investigadores e levaram à acusação formal do médico em março de 2017.

Sandra Simard, com 36 anos em janeiro de 2017, sofreu uma parada cardíaca — à qual sobreviveu — durante uma cirurgia na clínica Saint-Vincent. Uma dose potencialmente letal de potássio foi encontrada em uma bolsa de solução usada em sua anestesia.

Jean-Claude Gandon, com 70 anos na Ă©poca, Ă© a Ășltima vĂ­tima conhecida da sĂ©rie de envenenamentos. Único entre os 30 pacientes a ter sido anestesiado diretamente por FrĂ©dĂ©ric PĂ©chier, ele tambĂ©m conseguiu ser reanimado.

Nas semanas seguintes, serão examinados um a um os casos de envenenamento atribuídos ao médico, começando pelos mais antigos.

FrĂ©dĂ©ric PĂ©chier, que sempre alegou inocĂȘncia, pode pegar prisĂŁo perpĂ©tua. No entanto, ele nunca foi preso desde o inĂ­cio da investigação, pois os juĂ­zes decidiram deixĂĄ-lo em liberdade, sob controle judicial.

Um acusado “habilidoso”

O anestesista Ă© suspeito de “ter envenenado pacientes saudĂĄveis para prejudicar colegas com quem estava em conflito” e, em seguida, demonstrar suas habilidades como reanimador, destacou anteriormente o entĂŁo procurador da RepĂșblica em Besançon, Etienne Manteaux.

Destacando a “onipresença (do Dr. PĂ©chier) na gestĂŁo das reanimaçÔes em casos de parada cardĂ­aca” e seus “diagnĂłsticos precoces”, ele descreveu “um profissional de saĂșde particularmente habilidoso que agia quando ninguĂ©m estava nas salas de anestesia e que soube variar ao longo do tempo a natureza dos venenos administrados para nĂŁo levantar suspeitas”.

“É um caso vertiginoso”, observa o advogado FrĂ©dĂ©ric Berna, que representa muitas das partes civis. “SĂŁo envenenamentos puramente gratuitos, de vĂ­timas que nĂŁo tinham nenhuma relação com ele, que nunca lhe fizeram nada”, afirma o advogado.

No livro “Le temps qu’il lui reste” (“O tempo que lhe resta”), publicado quatro dias antes da abertura do julgamento e baseado em entrevistas com o acusado, a jornalista Plana Radenovic explica a estratĂ©gia da defesa: demonstrar que nĂŁo hĂĄ provas concretas contra o anestesista e que nenhuma outra pista foi considerada.

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