O incĂȘndio que resultou na morte de cinco internos no Instituto TerapĂȘutico Liberte-se, no Ășltimo domingo (31/8), traz Ă tona a existĂȘncia de uma âindĂșstria da loucuraâ, segundo avaliação do professor do Instituto de Psicologia da Universidade de BrasĂlia (UnB) Pedro Costa.
Para o especialista, o problema estĂĄ no financiamento por parte do Poder PĂșblico a comunidades terapĂȘuticas (CTs) onde o tratamento de manicĂŽmio e asilo ainda Ă© usado para a recuperação dos internos. No Distrito Federal, de acordo com Costa, o Conselho de PolĂtica Sobre Drogas (Conen) destina recursos do Fundo Antidrogas (Funpad) para as comunidades.
âCada vez mais as CTs sĂŁo normalizadas, aceitas, naturalizadas e se expandem, se generalizam. EntĂŁo, essa tragĂ©dia que a gente vivenciou nĂŁo se trata de uma tragĂ©dia. Porque Ă© algo anunciado e denunciado. Ă catastrĂłfico. Ă um horror. Ă barbĂĄrie. Mas a gente tem visto que nĂŁo se trata de um caso isolado. Ă um projetoâ, afirmou.
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Segundo o professor, âo problema do manicĂŽmio nĂŁo Ă© ser legal ou ilegal. Ă ele existir. No campo da SaĂșde Mental, hĂĄ pelo menos sete, oito dĂ©cadas, se aponta que as instituiçÔes manicomiais sĂŁo instituiçÔes de violĂȘnciaâ, alertou. No caso do Instituto Liberte-se, por exemplo, os internos dormiam trancados. AlĂ©m disso, denunciaram maus-tratos e trabalhos forçados.
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O Instituto TerapĂȘutico Liberte-se, casa de reabilitação de dependentes quĂmicos no ParanoĂĄ (DF), pegou fogo na madrugada deste domingo (31/8), por volta das 3h.
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IncĂȘndio provocou uma tragĂ©dia
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Darley Fernandes de Carvalho, José Augusto, Lindemberg Nunes Pinho, Daniel Antunes e João Pedro Santos morreram no local.
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Atualmente, a clĂnica contava com mais de 20 internos
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As causas do inĂcio do fogo sĂŁo desconhecidas. A 6ÂȘ Delegacia de PolĂcia (ParanoĂĄ) investiga o caso
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O Corpo de Bombeiros conteve as chamas e levou as vĂtimas aos hospitais regionais de Sobradinho (HRS) e da RegiĂŁo Leste, no ParanoĂĄ (HRL)
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Delegado nĂŁo descarta crime de cĂĄrcere privado
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Lugar funcionava clandestinamente
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O manicĂŽmio persiste
Costa ressaltou que as prĂĄticas denunciadas na Liberte-se sĂŁo constatadas nas CTs como um todo, a exemplo dos trabalhos forçados. âO manicĂŽmio ainda persiste. E sua principal forma, seu carro-chefe e manutenção e reprodução se chama comunidade terapĂȘutica. SĂŁo o carro-chefe da contrarreforma psiquiĂĄtricaâ, criticou.
Pelo diagnĂłstico do especialista, o Estado precisa evitar a expansĂŁo das CTs, fiscalizar as unidades existentes e extinguir o modelo, seguindo a Legislação Brasileira. Costa ressaltou que a medida em que o Poder PĂșblico repassa recursos para as comunidades fica sem dinheiro para fortalecer os equipamentos pĂșblicos de tratamento.
âAs comunidades fornecem violĂȘncia. Por mais que uma pessoa pare de usar drogas, isso se dĂĄ em marco de violĂȘncia. Ă a lĂłgica muito perigosa dos fins justificarem os meiosâ, disse.
Fiscalização capenga
A tragĂ©dia tambĂ©m jogou a luz na deficiĂȘncia na fiscalização de alvarĂĄs, nĂŁo apenas de clĂnicas, mas de qualquer estabelecimento. Um local nĂŁo tem um, mas diversos alvarĂĄs conforme a especificidade de cada serviço prestado, alĂ©m das condiçÔes de segurança.
Diversos órgãos de controle são responsåveis pela fiscalização. Mas o monitoramento não é padronizado e nem mesmo supervisionado.
Para a professora de SaĂșde Coletiva da Universidade de BrasĂlia (UnB) Carla Pintas, o Poder PĂșblico deveria padronizar o modelo de fiscalização, garantindo constĂąncia e agilidade na fiscalização dos alvarĂĄs, seja por meio de decreto do Executivo, seja pela atualização das leis no Legislativo.
No caso as clĂnicas, apĂłs a tragĂ©dia, a CĂąmara Legislativa do Distrito Federal (CLDF) recebeu um projeto de lei que cria normas de prevenção a incĂȘndio, prevĂȘ fiscalização periĂłdica e aplicação de multa de atĂ© R$ 200 mil em caso de irregularidade.
As vĂtimas do incĂȘndio sĂŁo:
Daniel Antunes Miranda, 28 anos;
Darley Fernandes de Carvalho, 26 anos;
JoĂŁo Pedro Costa dos Santos Morais, 26 anos;
José Augusto Rosa Neres, 39 anos; e
Lindemberg Nunes Pinho, 44.
Outro lado
O MetrĂłpoles tentou em contato com o Governo do Distrito Federal (GDF) sobre a questĂŁo. O espaço segue aberto. JĂĄ o Conen se manifestou por meio de um anota. Leia abaixo, na Ăntegra:
â1 â O CONEN instaurou Grupo de Trabalho especĂfico atravĂ©s da OS NÂș 22 de 01/09/2025 para realizar inspeção no local e apurar as condiçÔes exatas da instituição no que tange ao manejo de pessoas afetadas pela dependĂȘncia quĂmica. E as diligĂȘncias ordinĂĄrias continuaram a serem feitas mediante solicitaçÔes de registro e denĂșncias.
2 â Atualmente 14 Comunidades TerapĂȘuticas estĂŁo registradas no Cadastro de Entes e Agentes Antidrogas do DF.
3 â Quanto Ă s fiscalizaçÔes realizadas: em 2025 foram 13 atĂ© o momento, 2024 foram 11, 2023 foram 11 e 2022 foram 6.Â
A capacidade fiscalizatĂłria no CONEN Ă© restrita ao que concerne ao tratamento, recuperação de dependentes quĂmicos ou prevenção ao uso de drogas.Â
Nesse compasso o Conselho controla a emissĂŁo do Cadastro de Entes e Agentes Antidrogas do Distrito Federal â CEAAD-DF, instrumento definido pelo DECRETO NÂș 39.456, DE 14 DE NOVEMBRO DE 2018 obrigatĂłrio para clĂnicas especializadas e entidades nĂŁo-governamentais classificadas como Comunidades TerapĂȘuticas, que prestam serviços de acolhimento a dependentes quĂmicos em regime de residĂȘncia no Ăąmbito do Distrito Federal, como condição para o seu efetivo funcionamento.Â
Assim o CONEN tem poder direto apenas para instruir procedimentos com vistas a cassação ou emissĂŁo deste Certificado, e desta forma autuou sempre que se verificou a necessidade. Ao longo destes anos decorrente de diligĂȘncias foram cancelados ou nĂŁo se deferiram 9 pedidos de registro do CEAAD.
Todavia, sempre que observados em nossas diligĂȘncias casos de flagrante irregularidade referente a questĂ”es de outras ordens o Conselho de pronto oficia dos ĂłrgĂŁos competentes para que tomem providĂȘncias.
Â
4 â Como jĂĄ respondido o CONEN jĂĄ instaurou Grupo de Trabalho especĂfico para o caso, e as diligĂȘncias ordinĂĄrias continuaram a serem feitas mediante solicitaçÔes de registro e denĂșncias.â

