Suposto doador de CT do Deic Ă© investigado por usar teia de “laranjas”

Por MetrĂłpoles 30/09/2025

Apontada oficialmente como a doadora do centro de treinamento (CT) de artes marciais do Departamento Estadual de InvestigaçÔes Criminais (Deic), da PolĂ­cia Civil paulista, a empresa C2 GestĂŁo de PatrimĂŽnio tem como representante um homem supostamente ligado a inĂșmeras empresas de fachada e que teria recebido “dezenas de milhĂ”es” de uma fintech investigada por lavar dinheiro para do Primeiro Comando da Capital (PCC), a Yespay.

Conforme revelado pelo MetrĂłpoles, a C2 tem patrimĂŽnio de mais de R$ 1,6 milhĂŁo, que inclui carros de luxo e um jet ski. Apesar disso, estĂĄ registrada no nome de Felipe Francelino da Silva Alves, um pintor de 34 anos que vive em uma casa de 19 mÂČ, em uma ocupação irregular na periferia de Ubatuba, litoral norte do estado. O suposto empresĂĄrio Ă© alvo de uma ordem de despejo e declarou no processo que nĂŁo tinha condiçÔes de arcar com os custos judiciais.

A reportagem não conseguiu contato com Felipe Francelino, mas a esposa dele, Bruna Aquino, disse por telefone que quem falaria em nome da empresa é o contador Fernando Macedo Frota Rondino (foto em destaque), investigado por lavagem de dinheiro, ocultação de bens e falsidade ideológica, por suposto envolvimento em um esquema de criação de empresas em nome de terceiros sem autorização.

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Fernando Rondino

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A informação de que a C2 GestĂŁo de PatrimĂŽnio teria feito a doação para a construção do CT do Deic foi publicada no DiĂĄrio Oficial na Ășltima sexta-feira (26/9), dias apĂłs o MetrĂłpoles revelar que o empresĂĄrio Gabriel Cepeda, supostamente ligado ao PCC, havia sido apontado como doador oculto da academia de artes marciais.

De acordo com a publicação, o total de recursos doados foi R$ 36,7 mil, sendo R$ 22,2 mil em equipamentos e R$ 14,5 mil para a adequação do espaço fĂ­sico. A data de celebração informada no termo de doação foi 25 de setembro, trĂȘs dias apĂłs a primeira reportagem do MetrĂłpoles sobre o caso.

Tratativas

Na semana passada, o diretor do Deic, Ronaldo Sayeg, disse ao Metrópoles que o contato com a C2 Gestão de PatrimÎnio foi intermediado por um amigo e que, durante as conversas sobre a doação, manteve contato com Felipe Francelino e com um homem cujo primeiro nome seria Fernando.

“Isso Ă© coisa pessoal. Eu nĂŁo vou falar como eu mantive contato com a empresa. Eu nĂŁo queria nem expor a empresa. Mas como tem uma parte pĂșblica nisso, nĂłs revelamos o CNPJ”, disse Sayeg. “Eu nĂŁo fui atrĂĄs da empresa. Eles se dispuseram, fizeram toda a documentação”.

“Existe uma pessoa que representa a empresa, nĂŁo sei se Ă© esse sobrenome. O nome Ă© [Fernando]. Felipe seria o proprietĂĄrio da empresa”, acrescentou o delegado.

CASA FELIPE FRANCELINO 4 13 imagensCasa de Felipe Francelino, sĂłcio da C2 GestĂŁo de PatrimĂŽnioCasa de Felipe Francelino, sĂłcio da C2 GestĂŁo de PatrimĂŽnioFechar modal.logo metropoles brancaCASA FELIPE FRANCELINO 4 11 de 3

Casa de Felipe Francelino, sĂłcio da C2 GestĂŁo de PatrimĂŽnio

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Casa de Felipe Francelino, sĂłcio da C2 GestĂŁo de PatrimĂŽnio

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Casa de Felipe Francelino, sĂłcio da C2 GestĂŁo de PatrimĂŽnio

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“Alaranjamento”

Em inquĂ©rito conduzido pela 1ÂȘ Delegacia Seccional da Capital, a PolĂ­cia Civil apontou a existĂȘncia de pelo menos 12 empresas “com sinais de alaranjamento” ligadas a Fernando Rondino. Uma delas, a lanchonete Roma Lagrotti, apontada como inexistente, teria recebido “algumas dezenas de milhĂ”es” da fintech Yespay, entre 2019 e 2021. O valor nĂŁo Ă© especificado no documento.

Essa empresa, que oferece serviços de pagamento, como maquininhas de cartão, e integração de sistema financeiro, foi alvo da Operação Dalila, da Polícia Civil de São Paulo, em junho de 2022.

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Segundo a investigação, a Yespay seria usada pelo líder do PCC João Aparecido Ferraz Netto, o “Cabeludo”, para lavar dinheiro. Na Operação Concierge, deflagrada pela Polícia Federal (PF) dois anos depois, em agosto do ano passado, a fintech voltou a ser alvo.

Além das movimentaçÔes milionårias envolvendo a Yespay, as empresas ligadas a Fernando Rondino fizeram outras transaçÔes suspeitas em curtos intervalos de tempo. A Roma Lagrotti, por exemplo, movimentou R$ 19,9 milhÔes em quatro meses, entre julho e novembro de 2019. A Xtreme66 fez transaçÔes quem somam R$ 7,3 milhÔes entre janeiro e agosto de 2020.

Suspeita de trĂĄfico

Uma das empresas que teriam sido criadas por Rondino, a VBS Comercial foi investigada por tråfico de drogas. Em 2020, o endereço da suposta sede foi alvo de um mandado de busca e apreensão, que encontrou substùncias utilizadas para produzir cocaína e uma fåbrica de falsificação de anabolizantes.

ANABOLIZANTES 1 14 imagensEquipamento usado na produção de anabolizantesEquipamento usado na produção de anabolizantesComprimidos produzidos no localFechar modal.logo metropoles brancaANABOLIZANTES 1 11 de 4

Objetos encontrados na sede de empresa criada por Fernando Rondino

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Equipamento usado na produção de anabolizantes

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Equipamento usado na produção de anabolizantes

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Comprimidos produzidos no local

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Durante as investigaçÔes, foi apontado que a fĂĄbrica pertence a Nathanael Wagner Ribeiro Rodrigues, conhecido como “Nas” e supostamente ligado ao PCC. De acordo o relatĂłrio do inquĂ©rito policial, Fernando Rondino teria “fornecido os meios estruturais e fraudulentos necessĂĄrios para que a quadrilha de Nathanael operasse e lavasse o dinheiro obtido com a venda ilegal de anabolizantes”.

Em depoimento, Fernando Rondino admitiu ter usado documentos falsos para a criação da empresa e de contas bancårias para receber transaçÔes pela venda de anabolizantes falsificados. Ele também admitiu ter feito, a pedido de Nathanael, uma procuração falsa em nome de um laranja, com o objetivo de realizar saques bancårios.

O contador disse, ainda, estar arrependido por ter ajudado a organização criminosa e que havia decidido colaborar com as investigaçÔes.

“Amigo Cepeda”

A suposta participação de Gabriel Cepeda na construção do centro de treinamento do Deic foi anunciada nas redes sociais por um amigo dele: o influenciador e ex-lutador de MMA Matheus Serafim. Em agosto, dias antes da Operação Carbono Oculto, da qual Cepeda foi alvo, a dupla se reuniu com o diretor do Deic, Ronaldo Sayeg, na sede do departamento.

Na ocasião, Serafim publicou uma foto em seu Instagram dizendo que o empresário “não mediu esforço” para construir a academia.

“Agradecer meu grande amigo Gabriel Cepeda que ao meu pedido não mediu esforço para construir um dos maiores e mais bem equipados centro (sic) de treinamento da Polícia Civil – Deic. Obrigado irmão pela parceria de sempre, logo logo inauguração”, disse o ex-lutador.

Após a operação, a publicação foi apagada, mas seu link continua visível no Google, o que permitiu ao Metrópoles acessar o texto original por meio do código fonte da pågina.

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Matheus Serafim anuncia que CT do Deic estĂĄ pronto

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Questionado pela reportagem, Matheus Serafim negou que Cepeda tenha feito a doação para o CT do Deic. Ele disse que mentiu na postagem, com o objetivo de “dar uma moral” ao amigo, a quem pretendia agradar.

“Eu quis agradar ele. Essa Ă© a verdade. Ele seria um grande parceiro meu, mesmo em relação Ă s minhas pretensĂ”es polĂ­ticas, nos projetos sociais que eu tenho. As coisas dependem muito de empresĂĄrio”, afirmou o ex-lutador por telefone.

“Isso nĂŁo quer dizer que ele tinha algum envolvimento com a academia. Eu atĂ© tinha pretensĂ”es de querer que ele ajudasse, mas nĂŁo aconteceu”, completou.

A família Cepeda, dona da rede Boxter de postos de combustíveis é investigada desde 2020 por suspeita de lavagem de dinheiro para o PCC. Natalício e Renan Cepeda, respectivamente pai e irmão de Gabriel Cepeda, foram presos naquele ano, na operação Rei do Crime, deflagrada pela Polícia Federal.

O que diz a SSP

Questionada especificamente sobre Fernando Rondino, a Secretaria da Segurança PĂșblica (SSP) limitou-se a dizer que a empresa em questĂŁo, C2 GestĂŁo Patrimonial, procurou o Deic em março deste ano para realizar a doação do centro de treinamentos de artes marciais.

“Na ocasiĂŁo, toda a documentação foi analisada e nĂŁo foram encontradas irregularidades. O processo administrativo foi concluĂ­do em 25 de setembro e sua homologação publicada no DiĂĄrio Oficial do dia seguinte. A Corregedoria da PolĂ­cia Civil apura as denĂșncias citadas pela reportagem e, caso identifique qualquer irregularidade, adotarĂĄ as medidas legais cabĂ­veis”, disse a pasta.

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