Universidade brasileira oferece tratamento gratuito para casos de amor e ciúmes patológicos

O programa recebe dois grupos por ano, com cerca de 12 participantes em cada turma

O amor e ciúme excessivo se tornaram objeto de estudo na USP/Foto: Reprodução

O Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP (Universidade de São Paulo) mantém, desde 2006, um programa voltado ao tratamento de pessoas que sofrem com amor e ciúmes patológicos, condições caracterizadas por dependência emocional, vigilância excessiva e sofrimento intenso nas relações amorosas. O atendimento é gratuito e aberto a homens e mulheres durante todo o ano.

O amor e ciúme excessivo se tornaram objeto de estudo na USP/Foto: Reprodução

Casos como o de Bentinho, personagem de Dom Casmurro (1899), de Machado de Assis, que alimenta suspeitas irracionais sobre a fidelidade de Capitu, são usados por especialistas como exemplo de como o amor e o ciúme podem se tornar obsessivos e prejudiciais. No Instituto de Psiquiatria, os pacientes são acompanhados por uma equipe multidisciplinar do Programa de Transtornos do Impulso.

De acordo com a psicóloga Andréa Lorena da Costa, coordenadora do grupo de amor e ciúme patológicos, os vínculos afetivos podem se tornar adoecidos quando há preocupação constante com o parceiro, dificuldade de conter comportamentos de vigilância e negligência com a própria vida. “O indivíduo percebe que ama demais e que isso está atrapalhando sua vida, mas repete os mesmos padrões”, explica.

O programa recebe dois grupos por ano, com cerca de 12 participantes em cada turma. A maioria dos pacientes é formada por mulheres, o que, segundo Costa, se deve ao fato de elas buscarem mais ajuda em saúde mental e saúde em geral. As inscrições podem ser feitas durante todo o ano pelo e-mail [email protected].

Pacientes que apresentam comportamento violento também são acolhidos. A psicóloga ressalta, contudo, que atos de agressão motivados por ciúme podem ser enquadrados na Lei Maria da Penha. Mulheres vítimas de violência ou ameaça podem solicitar medida protetiva e registrar denúncia por meio do telefone 180, da Central de Atendimento à Mulher.

O ciúme patológico é marcado por suspeitas infundadas de infidelidade, tentativas de controle do parceiro e crises de raiva, medo ou culpa, acompanhadas de sintomas físicos como taquicardia, sudorese e insônia. Já o amor patológico envolve dedicação excessiva ao parceiro, com prejuízos à vida pessoal, profissional e social.

Esses comportamentos são frequentemente retratados em obras de ficção. Na novela Em Família (2014), o personagem Laerte (Gabriel Braga Nunes) demonstra ciúme doentio ao tentar controlar a vida de Helena (Julia Lemmertz). No cinema, o caso mais conhecido é o de Alex Forrest (Glenn Close), em Atração Fatal (1987), que apresenta dependência emocional extrema e reações violentas após o fim de um relacionamento.

Segundo o psicólogo Rodrigo Acioli, conselheiro do Conselho Federal de Psicologia (CFP), muitas pessoas demoram a reconhecer o problema. “Às vezes o paciente está tão imerso naquele comportamento que não percebe o sofrimento que causa a si mesmo e aos outros. O olhar de familiares e amigos é fundamental”, afirma.

Acioli explica que não há uma única linha terapêutica indicada para o tratamento desses transtornos. Entre as abordagens eficazes estão a terapia cognitivo-comportamental, a psicanálise e a neuropsicoterapia. “Mais do que o método, é a qualidade da escuta e o vínculo com o profissional que fazem diferença”, diz.

O amor e o ciúme patológicos podem estar associados a outros transtornos, como ansiedade e depressão. Em casos mais graves, o tratamento pode incluir medicação. O atendimento também está disponível pelo Sistema Único de Saúde (SUS): o paciente pode procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS), de onde será encaminhado para um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) para avaliação especializada.

Segundo o Instituto de Psiquiatria da USP, avaliações realizadas com os pacientes mostram melhora significativa após o tratamento, incluindo maior controle emocional, redução do ciúme e fortalecimento da autoestima. “Não é frescura sofrer por amor. Reconhecer o problema e buscar ajuda faz toda a diferença”, afirma Andréa Costa.

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