Desde que o TikTok tornou-se uma ferramenta valiosa na indústria da música, muitos artistas buscam desenfreadamente por um viral para popularizar seus hits. Não existe uma fórmula certa até hoje, mas há casos que inspiram e que alavancam carreiras incipientes. É o que está acontecendo com o grupo Katy da Voz e as Abusadas, que presencia um auge, antes inimaginável, graças ao áudio “Gordinha, Mas Tá Bom”. Em entrevista ao portal LeoDias, Katy e Palladino Proibida abriram o coração sobre o sucesso instantâneo e a nova fase da carreira com o álbum “A Visita”.
Crianças, adultos, animais, rolês culinários… Vídeos ao som dos dizeres repetidos tomaram conta da web. Sendo apenas uma parte da música “Mini Set das Visitantes”, o viral já tem milhões de visualizações nas redes sociais, com mais de 23 mil postagens de diferentes situações. A canção, de cinco minutos, ganhou uma tração que não estava prevista.
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“Eu fiquei muito passada porque nunca imaginei que iríamos atingir um público mais novo, menor de idade. Fico muito feliz. Acho que agora estourou mesmo a bolha: saiu do nosso meio e alcançou todo mundo”, disse Katy. “O pessoal está fazendo com animais, com crianças… Tá sendo tudo. Hoje estava vendo e compartilhando vários vídeos de ‘Gordinha, Mas Tá Bom’”, complementou Palladino.
Vindas do Grajaú, na Zona Sul de São Paulo, a girlband reúne três artistas independentes que já causavam um certo barulho na bolha LGBTQIA+. Atração frequente na vida noturna paulistana, o trio possui algumas músicas célebres no repertório, com o mesmo toque de humor do “Gordinha, Mas Tá Bom”: “VTNC” (que significa um xingamento) e “R*la Grossa, Que Gostosa”.
O que parece escrachado, forçado ou proibidão para muita gente, é uma mensagem de liberdade. As artistas defendem a pegada engraçada, mas ainda com a mão na consciência.
“A música chega para cada pessoa de um jeito. Pode ser que para muitos seja um meme, uma coisa engraçada, mas para muita gente é outra coisa. Somos três travestis que cantam p*taria… Pode ser que algumas pessoas vejam como algo chocante e não levem a sério, mas também tem quem diga que está apaixonado pelas nossas músicas, que não vive mais sem elas, que salvou a vida delas.”, opinou Palladino.
“Já ouvi muita gente me dizer que ‘VTNC’ curou a depressão, que foi um grito de liberdade. Para outras pessoas é só uma música cômica, cheia de palavrão, aquela que colocam na família pra zoar. No começo, a gente quis ser cômica mesmo. Sempre frisei para as meninas: ‘Vamos cantar coisa engraçada, isso vai dar bom’. Mas com o tempo entendemos que tudo é muito sério. Fazer show é sério, fazer um CD é sério, fazer música é sério. Nada é tão cômico quanto parece”, afirmou Katy.
Além de gordinha, muito bom!
O áudio é curto, ocupa apenas poucos segundos da música de cinco minutos, que é um medley, uma grande mistura. Katy explicou que o áudio “Gordinha, Mas Tá Bom” já era uma piada interna dos fãs e alvo de muitos pedidos. Eis que a questão surgiu: como encaixar isso em uma canção?
Ninguém melhor que a líder da banda para responder. “Eu não queria fazer uma música só de ‘Gordinha, Mas Tá Bom‘ porque ia ficar datada e saturada. Ia ser uma coisa que a gente não conseguiria cantar hoje em dia. A gente já tinha a ideia de fazer o medley, o ‘Miniset das Visitantes’ no álbum. Essa ideia existia há muito tempo. Então pensamos: ‘Por que não encaixar?’”, disse Katy.
A colega de banda complementou: “Acho que ‘Gordinha, Mas Tá Bom‘ chegou no momento certo e chega de formas diferentes, como meme, como liberdade de expressão, como revolução. São várias possibilidades. Chegou o antagonista de outro áudio viral em 2025, o ‘Magras, Magras, Magras’. E acaba virando uma crítica social. Assim como viralizou o ‘Magras, Magras, Magras’, agora tem o ‘Gordinha, Mas Tá Bom‘ para as gordinhas se sentirem à vontade com a nossa música”.
Apesar de usada em muitos memes, a canção ainda possui uma mensagem poderosa, segundo as artistas. “Acho que no final acaba sendo uma crítica. A gente vive uma época em que as pessoas não estavam mais ligando para essas coisas, cometendo crimes graves de gordofobia e transfobia. Fico muito feliz quando vejo tanta gente se sentindo à vontade e feliz cantando essa música. O que começou como uma gracinha de um vídeo viral virou um ato de desconstrução”, opinou Katy.
Além da mensagem, o hit tem ajudado muito a deslanchar a carreira do trio. Após alguns anos batalhando por um lugar ao sol, a Katy da Voz e as Abusadas vivem apenas da música atualmente, e largaram o trabalho em regime CLT. O viral veio como uma motivação.
“A gente depende disso. Hoje só trabalhamos com música, as três. Cada viral bom — principalmente com música — é muito bem-vindo. Pode trazer mais shows, convites para eventos, visibilidade. Muitos artistas estão interagindo com o meme, e isso é muito legal porque faz com que conheçam a gente”, disse Katy.
Atração recente no Zig Festival, a banda prepara shows longos de uma hora com produção robusta. Para festivais, até bailarinos. O novo álbum, “A Visita”, tem alcançado números significativos nas plataformas, muito puxado pela canção na boca do povo. Além disso, o disco tem uma produção mais sofisticada, com uma mistura entre gêneros e elementos do house, funk, eletrônico e o fritação.
“Esse meme abriu uma porta para a Katy da Voz e as Abusadas. O álbum já está quase em um milhão em menos de um mês, e entendemos que uns 70% disso vieram por causa de ‘Gordinha, Mas Tá Bom‘. A gente fica muito agradecida. É bom ser retribuída com música, que é o nosso trabalho, algo sério e que envolve produtores e muita gente. Saber que todo mundo está feliz é muito bom. Não só abre portas pra gente, mas também pra quem produziu”, finalizou a líder do grupo.





