O Grupo Refit, alvo de uma megaoperação contra um esquema de sonegação fiscal e lavagem de dinheiro no setor de combustĆveis, deve mais de R$ 26 bilhƵes em impostos, figurando como o maior devedor contumaz do Brasil, segundo a Receita Federal. A empresa tambĆ©m aparece como a maior devedora do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e ServiƧos (ICMS) em SĆ£o Paulo.
Segundo o MinistĆ©rio PĆŗblico de SĆ£o Paulo (MPSP), a dĆvida Ć© resultado de um āengenhosoā esquema de fraude fiscal estruturada que causou āenormes prejuĆzos ao erĆ”rio de Estados e da UniĆ£oā.
De acordo com as investigaƧƵes, hĆ” mais de 190 alvos, entre pessoas fĆsicas e jurĆdicas ligadas ao grupo comandado pelo empresĆ”rio Ricardo Magro, suspeitos de integrarem uma organização criminosa e de praticaram crimes contra a ordem econĆ“mica e tributĆ”ria, lavagem de dinheiro, entre outros crimes.
Esquema de fraude
As investigaƧƵes apontaram que o grupo movimentou mais de R$ 70 bilhƵes em apenas um ano, utilizando empresas próprias, fundos de investimentos e offshores ā incluindo uma exportadora fora do Brasil ā para ocultar e blindar lucros.
A Secretaria da Fazenda identificou diversas empresas ligadas ao grupo empresarial investigado que aparecem como laranjas, visando afastar a responsabilidade pelo recolhimento de ICMS devido. Só entre 2020 e 2025, foram importados mais de R$ 32 bilhƵes em combustĆveis por essas āpessoas interpostasā.
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Os crimes aconteciam na reincidĆŖncia do descumprimento fiscal, na utilização de empresas com vĆnculos societĆ”rios e operacionais e na simulação de operaƧƵes interestaduais com combustĆveis.
Segundo a promotoria, o Grupo Refit ignorava a imposição de diversos Regimes Especiais de OfĆcio feitos pela secretaria e criava novas estratĆ©gias e mecanismo para prosseguir com a fraude fiscal ācom o intuito de nĆ£o recolher tributos e ofender a livre concorrĆŖnciaā.
Como funcionava o esquema de fraudes

Segundo o MPSP, as investigaƧƵes demonstraram que os esquemas de ocultação e blindagem que protegem os reais beneficiĆ”rios do esquema, apontados como parte de um nĆŗcleo familiar, foram praticados por meio de uma rede de colaboradores. Estes, por meio de diversos expedientes fraudulentos, falsidades, camadas societĆ”rias e financeiras, garantiram a gestĆ£o e a expansĆ£o empresarial sobre setores da cadeia de produção e distribuição de combustĆvel.
De acordo com a Receita Federal, o esquema tinha uma empresa financeira āmĆ£eā controlando diversas āfilhasā e, assim como na operação Carbono Oculto, que descobriu um esquema bilionĆ”rio entre fintechs e o PCC em agosto deste ano, usou brechas regulatórias, como as ācontas-bolsĆ£oā, que impedem o rastreamento do fluxo dos recursos. A principal vertente financeira tinha 47 contas bancĆ”rias em seu nome, vinculadas contabilmente Ć s empresas do grupo.
Após a paralisação das distribuidoras ligadas à Carbono Oculto, o grupo alvo da Operação Poço de Lobato alterou totalmente sua estrutura financeira, substituindo o modelo usado desde 2018 por outro com novos operadores e empresas. Esses operadores, antes responsÔveis por movimentações de cerca de R$ 500 milhões, passaram a movimentar mais de R$ 72 bilhões após 2024.
A promotoria definiu a fraude financeira como um fluxo financeiro āextremamente estruturado e sofisticadoā, perpetuado atravĆ©s do mercado financeiro. Houve movimentação bilionĆ”ria circulando por dezenas de fundos de investimentos e instituiƧƵes financeiras, com apoio e participação direta de administradoras e gestoras desses fundos.
Megaoperação
- A megaoperação PoƧo de Lobato teve mais de 190 alvos, entre pessoas fĆsicas e jurĆdicas, todos ligados ao Grupo Refit.
- A ação foi realizada pelo Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos de São Paulo (Cira/SP), formado pelo MPSP, pela Secretaria da Fazenda e Planejamento do estado e Procuradoria-Geral de São Paulo; pela Receita Federal, Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, Secretaria Municipal da Fazenda de São Paulo e Policiais Civil e Militar. A megaoperação mobilizou um efetivo de mais de 621 agentes públicos.
- Mandados de busca e apreensĆ£o foram cumpridos em seis unidades da Federação ā SP, RJ, MG, DF, BA e MA. Os Grupos de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaecos) deram apoio Ć ação.
- O nome da operação remete ao primeiro poƧo de petróleo descoberto no Brasil, localizado no bairro de Lobato, em Salvador. Descoberto em 21 de janeiro de 1939, marcou o inĆcio da exploração de petróleo no paĆs, apesar de nĆ£o ter sido comercialmente viĆ”vel Ć Ć©poca.
PrejuĆzo bilionĆ”rio aos cofres pĆŗblicos
A JustiƧa autorizou o cumprimento de medidas cautelares em aƧƵes judiciais cĆveis que bloquearam mais de R$ 10,2 bilhƵes em bens dos envolvidos, incluindo imóveis e veĆculos, para a garantia do crĆ©dito tributĆ”rio.
As pessoas e empresas citadas na investigação são suspeitas de integrarem uma organização criminosa e de praticarem crimes contra a ordem econÓmica e tributÔria e lavagem de dinheiro.
O Metrópoles solicitou um posicionamento do Grupo Refit a respeito da operação da manhã desta quinta e não obteve retorno. O espaço segue aberto para atualizações.
