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Vítimas de ex-padre contestam sentença: “Juiz admite o crime, mas absolve o agressor”

Por Geovany Calegário, ContilNet

A absolvição do ex-padre Fábio Amaro, investigado por estupro ocorrido entre 2008 e 2009 em paróquias de Rio Branco, reacendeu a dor e a revolta de duas vítimas que, após anos de silêncio, decidiram contar suas histórias e lutar por justiça.

Amparados pelo Ministério Público e por seus advogados, eles confirmam: o caso não terminou. A decisão já foi oficialmente recorrida e agora, esperam que a nova instância reconheça aquilo que afirmam ter carregado durante mais de uma década.

As vítimas, que não quiseram ter seus nomes revelados, são um homem e uma mulher que hoje vivem em estados diferentes do país, mas compartilham traumas semelhantes envolvendo o mesmo religioso.

Um deles era adolescente na época; a outra, uma jovem de 18 anos que se confessava com o padre. O caso dela prescreveu. O dele, não.

 

O jovem que viveu anos em silêncio: “O juiz reconheceu o crime, mas absolveu”

O primeiro depoente, que era menor de idade quando os abusos ocorreram, diz que a absolvição o atingiu profundamente. Ele relata que o próprio magistrado reconheceu, na sentença, elementos que configuravam crime contra a liberdade sexual — mas ainda assim o ex-padre foi inocentado por falta de provas complementares.

“O juiz diz claramente na sentença que reconhece que houve crime contra a liberdade sexual. Ele deixa isso muito claro. Mas afirma que as testemunhas não trouxeram elementos suficientes. Se a minha palavra foi suficiente para reconhecer o crime, por que não foi suficiente para condenar?”, questiona.

Ele conta que, ao longo da investigação, a delegacia insistia que o depoimento do bispo — que havia recebido a confissão do próprio padre — era decisivo para a continuidade do caso. “Ele era a peça-chave. Mas esse depoimento não foi levado em consideração.” afirmou.

O homem recorda que, após repercussão do caso, a Diocese criou um canal de denúncias através de um número de telefone, porém o contato divulgado simplesmente deixou de existir.

A Diocese, procurada pela reportagem, respondeu que o número realmente existiu, mas foi desativado, alegando baixa utilização. Afirmou ainda que está estruturando um novo sistema, com ampla divulgação quando finalizado.

“A igreja acolhe os abusadores, mas as vítimas elas são descartadas” declarou.

 

Como o abuso impactou a vida da vítima

Ele conta que os episódios começaram quando era menor e que as ameaças do padre o fizeram buscar refúgio dentro da própria Igreja. “Eu entrei no seminário por medo. Não para seguir a vocação. Achava que lá estaria protegido, mas também pensava que poderia encontrar pessoas iguais ou piores.”

A mudança para outro estado trouxe certo alívio. Porém, anos depois, ao voltar ao Acre, ele se viu frente a frente com o padre durante uma missa. Nesse momento, as lembranças retornaram de forma intensa.

Hoje, ele continua em terapia e tenta reconstruir sua vida longe do Acre. Ainda assim, a sentença recente mexeu profundamente com sua esperança: “Chegar a essa absolvição me desanimou. Mas sigo lutando. É por mim e por tantas outras vítimas que talvez nunca falem.”

 

A vítima que viu o abuso começar no confessionário

A outra vítima, uma mulher que tinha cerca de 15 anos na época, diz que tudo começou dentro do confessionário, quando o padre usou informações íntimas para se aproximar dela. “Eu falei que tinha interesse na vida religiosa. Ele disse que queria ser meu diretor espiritual.”

Com o tempo, ele passou a insistir em encontros fora da igreja, Em um desses momentos, segundo relata, ele começou a tocar suas pernas e a esfregar o rosto no pescoço dela, dizendo que era “carinhoso” e que ela não deveria estranhar.

Segundo ela, após insistir para encontrá-la novamente, o padre a levou para a casa paroquial. Ali, afirma que foi surpreendida: “Ele apareceu totalmente nu. Veio pra cima de mim dizendo que, se eu não fosse dele, não seria de ninguém. Tentou tirar minhas roupas. Eu dizia que era virgem, que não queria. Ele me chamou de fresca, vestiu a roupa com raiva e me levou pra casa.”

A jovem rompeu contato, removeu o chip do telefone e se isolou. Desesperada, foi para um convento, tentar seguir a vocação e se afastar daquele que transformou o ambiente religioso num lugar de terror. Foi onde as vítimas se conheceram.

Os caminhos dos dois se cruzaram quando a mulher, ao relatar ao amigo uma experiência que a marcou profundamente, descobriu que ele havia vivido o mesmo tipo de violência com o mesmo agressor. A identificação imediata dos relatos criou entre eles uma rede espontânea de acolhimento e força. Ele lembra que chegou a pensar em desistir da denúncia, mas ouviu dela uma frase que se tornou decisiva: “se você for, eu vou contigo”. E, a partir dali, seguiram juntos.

 

Decepção com a Igreja

Depois das ligações anônimas — que, segundo ela, partiam do próprio agressor — sua vida virou de ponta-cabeça. A pressão psicológica aumentou a ponto de ela ser expulsa do convento onde buscava abrigo. “Eu saí, assim, muito magoada, muito chateada, porque elas me pegaram dentro da casa da minha mãe e me deixaram no meio da rua com uma mala na mão”, relembra. A experiência, marcada por abandono e constrangimento, desfez completamente a confiança que ela ainda nutria pelas instituições religiosas.

Hoje, já adulta, afirma que carrega cicatrizes que continuam determinando sua rotina. Diz que não acredita mais em padre ou freira, evita qualquer aproximação com ambientes religiosos e não permite que seu filho se aproxime de figuras clericais. O trauma resultou também em um tratamento de longo prazo: ela toma remédios controlados para lidar com crises de ansiedade e episódios de medo intenso, reflexos diretos de tudo o que viveu.

 

Os próximos passos: a batalha agora é no Tribunal

Ambas as vítimas afirmam sentir uma profunda sensação de injustiça. Para elas, o sofrimento compartilhado e as narrativas semelhantes deveriam ter sido suficientes para uma condenação.

Ministério Público e a defesa confirmam que já recorreram da decisão, Agora, aguardam o julgamento em segunda instância: “A gente continua. Se existe recurso, vamos até onde for possível”, diz o primeiro depoente.

Eles afirmam ainda acreditar que há outras vítimas, já que o padre — segundo eles — era frequentemente transferido para diferentes paróquias, inclusive no interior.

Ele afirma: Apesar disso, diz que vai até o fim no processo: “não para reescrever o passado, mas para impedir que outras pessoas carreguem a mesma dor em silêncio”

 

 

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