O pedido de extradição do espião russo Sergey Vladimirovich Cherkasov, preso em Brasília desde o fim de 2022, já foi encaminhada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Condenado por uso de documentos falsos e atualmente cumprindo pena em um presídio federal de segurança máxima até 2027, Cherkasov pode ser extraditado antes do prazo, caso haja aval jurídico e decisão política do Palácio do Planalto.
A possível extradição está sob análise do Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional (DRCI), ligado ao Ministério da Justiça. O órgão recebeu, no início deste mês, um documento do juiz Frederico Botelho de Barros Viana, da 15ª Vara Federal, informando que não há mais processos em andamento contra o russo no Distrito Federal — fator que anteriormente impedia o avanço do pedido feito pela Rússia.
Para embasar a decisão, o Ministério da Justiça solicitou atualizações à Polícia Federal, à Justiça Federal de São Paulo, à 4ª Vara Federal do Rio de Janeiro, ao Ministério Público do Rio (MPRJ) e ao Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF-3). A Polícia Federal respondeu em junho de 2025 que não há inquérito ativo específico contra Cherkasov, embora ele apareça vinculado a uma investigação mais ampla sobre uma rede de dez espiões russos que usaram o Brasil como base operacional.
Cherkasov foi preso em 2022 após se apresentar com identidade falsa de brasileiro, usando o nome Victor Muller. Ele vivia em São Paulo desde 2010 e foi detido após tentar desembarcar na Holanda para trabalhar no Tribunal Penal Internacional (TPI), em Haia, com um passaporte brasileiro falso. Devolvido ao Brasil pelo governo holandês, acabou preso e posteriormente transferido para a Penitenciária Federal em Brasília, onde divide espaço com criminosos de alta periculosidade, como o líder do PCC, Marcola.
Desde a prisão, dois países disputam sua extradição. A Rússia foi a primeira a formalizar o pedido, alegando que o espião é procurado por tráfico internacional. No entanto, documentos enviados por Moscou não tiveram a veracidade confirmada pela PF, que avaliou a possibilidade de a acusação ser apenas uma estratégia para repatriar o agente. Já os Estados Unidos também solicitaram a extradição, com base em informações da CIA de que Cherkasov teria usado identidade falsa para espionar o país durante uma passagem por uma universidade americana.
Delegados da Polícia Federal ouvidos sob reserva avaliam que a extradição é “inevitável, cedo ou tarde”, mas alertam que a saída do espião pode comprometer toda a investigação em curso sobre a atuação da inteligência russa no Brasil e na América Latina.
Fábrica de espiões
As investigações da PF revelaram a existência de uma sofisticada “fábrica de espiões russos” operando a partir do Brasil há pelo menos 12 anos. O país era usado como território neutro para criação de identidades falsas, construção de histórico social e posterior infiltração em outras nações. Entre os disfarces identificados, havia desde donos de joalherias em Brasília até estudantes universitários e modelos.
Dos dez espiões identificados em 2022, nove já deixaram o Brasil após serem descobertos. Cherkasov é o único que permanece preso. A investigação aponta que ele recebia recursos de funcionários do governo russo no Brasil — cerca de R$ 35 mil — para se manter enquanto se preparava para atuar no Tribunal Penal Internacional, com o objetivo de obter informações sensíveis sobre a Rússia, que não integra o órgão. O presidente Vladimir Putin, inclusive, tem um mandado de prisão em aberto no TPI por crimes de guerra.
As apurações continuam na sede da PF em Brasília e indicam que o esquema se estendia também a países como Argentina e Venezuela. Um casal russo com filhos argentinos, por exemplo, conseguiu se infiltrar na Eslovênia, país da União Europeia e membro da OTAN. Ao retornar à Rússia, foram recebidos com honras por Vladimir Putin no aeroporto.
Agora, com processos encerrados e análise técnica em curso, a decisão sobre a extradição de Sergey Cherkasov será política — e caberá ao presidente Lula dar a palavra final.
