O verdadeiro chefe é quem sofre; por ele existimos, afirma Débora Noal

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Em meio ao caos externo — como guerras, crises sociais e ambientais — ou interno — como conflitos emocionais —, o ser humano revela uma capacidade singular de existir. Essa resistência não apenas está relacionada ao extinto de sobrevivência, mas também é um fenômeno psicológico moldado por processos cognitivos e sociais.

Esse foi o tema do Educa Talks – Psicologia sem Fronteiras: diálogos com o lado B do humano do mundo, nesta quinta-feira (27/11), com a psicóloga Débora da Silva Noal, especialista de Referência para a Força Nacional do SUS, do Ministério da Saúde.

Segundo Débora, o lado B revela aquilo que normalmente não se consegue colocar em palavras. Ele expõe a dor, a miséria e as fissuras de um mundo que insistimos em acreditar ser globalizado, quando na verdade permanece profundamente desigual.

“Nesse lado menos iluminado, aparecem histórias silenciadas, vidas que não se encaixam nos discursos otimistas e realidades que desafiam a narrativa de progresso contínuo. O lado B é, portanto, um convite a enxergar o que preferimos ignorar — a parte do mundo que existe, resiste e fala, mesmo quando ninguém parece disposto a ouvir.”

Débora da Silva Noal, psicóloga

Ela também relembrou a trajetória durante o bate-papo: sempre foi muito curiosa e, quando entrou no curso de Psicologia, decidiu desde o primeiro semestre estagiar em todos os lugares que pudesse, pois sentia que, para se tornar psicóloga, precisaria ampliar o repertório de mundo.

Com a mochila nas costas, concluiu a residência no Nordeste do Brasil e, em seguida, começou a trabalhar com ajuda humanitária, cuidando de pessoas que viviam no limite das próprias existências. Depois da residência, ingressou de vez na vida humanitária — e permanece nela até hoje.

“Os lugares que visitei costumavam ter conflitos armados, violência social e diferentes formas de sofrimento. O que mais me toca é o desejo das pessoas de serem ajudadas”, rememorou.

Débora afirma que o lado B revela aquilo que normalmente não se consegue colocar em palavras

Ela contou que, durante a epidemia de ebola, um pai chegou carregando uma mulher muito debilitada e grávida. Aquela mãe havia acabado de perder a própria mãe. O que a marcou profundamente foi o olhar daquele homem: em um contexto onde a violência havia se tornado tão comum, raramente se via um olhar tão cuidadoso, afetivo e amoroso.

“Ele me pediu que eu a salvasse; um tipo de apelo e de sensibilidade que, naquele lugar, não era comum entre os homens”, ressaltou.

Débora afirma que, quando surgem projetos ou leis muito rígidas, que não dialogam com o propósito dela, percebe-se que é o momento de buscar outras vias. “No trabalho com a saúde pública, o verdadeiro ‘chefe’ é a pessoa cujo telhado desabou e que se encontra ali, submersa pela água e pela urgência da vida.”

Segundo ela, no Congo ou no Sudão, esse “chefe” é quem chega da guerra completamente destroçado. E há, nisso, uma lembrança poderosa: é para essas pessoas que as profissões existem — para servir a quem realmente precisa.

A profissional ainda abordou que muitos países falam línguas que ela não domina e que, mesmo assim, consegue cuidar das pessoas.

“Não existem palavras capazes de traduzir exatamente o que a pessoa está sentindo — a forma como respira, como reage, como se coloca no espaço quando está diante dela. É a partir dessa observação cuidadosa que vão surgindo as possibilidades de ajudá-la”, garantiu.

Ela relembrou que, em 2009, quando foi para o Congo, uma das regiões de maior violência na fronteira, passou dias e dias trabalhando manhã, tarde e noite. Era a única mulher branca atuando naquele lugar, e muitas mulheres faziam questão de serem atendidas por ela.

“Realizei diversas intervenções com mulheres que haviam sido violentadas por centenas de homens. Grande parte delas tinha perdido todas as suas redes socioafetivas”, afirmou.

Confira a entrevista completa:

Educa Talks

O Educa Talks nasceu do compromisso da Centro Universitário Euroamericano (Unieuro), em parceria com o Metrópoles com a disseminação de conhecimento que ultrapassa as salas de aula.

A cada episódio, o projeto convida vozes inspiradoras para discutir temas urgentes como ciência, saúde, tecnologia, meio ambiente e, agora, humanidade.

A iniciativa reforça o papel da instituição como um polo de pensamento crítico e inovação educacional no Brasil. E a cada episódio, convidados batem papos inspiradores e informativos, conectando especialistas e a sociedade a temas que impactam diretamente o nosso futuro coletivo.

Na sua primeira edição, em setembro, o Educa Talks trouxe o infectologista Dr. David Uip para discutir a resistência antimicrobiana e os desafios da saúde global, e após o sucesso veio a edição anterior, que recebeu o desembargador federal Roberto Carvalho Veloso para discutir justiça e cidadania climática em antecipação à COP30.