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Por que criticam os Legendários? Talvez porque funciona

Por Roraima Rocha, ContilNet

Há no Brasil um fenômeno curioso e tragicômico, se quisermos adotar a ironia inevitável diante de certos espasmos sociais. Num país que tolera corrupção cotidiana, idolatra celebridades de ocasião e se emociona com discursos vazios embalados por marketing político, de repente descobre-se escandalizado com… um movimento religioso. Não uma milícia, não um esquema de jogo ilegal, não uma seita criminosa. Não. O alvoroço nacional gira em torno de jovens e adultos reunidos para cantar, orar, buscar direção de vida e reencontrar sentido. Eis o perigoso “crime” contemporâneo: buscar o que a modernidade não entrega.

O movimento Legendários desperta críticas principalmente daqueles que, ironicamente, se autoatribuem a condição de “independentes”. Independentes de quê, exatamente? Da lógica, certamente. Da Constituição, talvez. Da coerência, com absoluta certeza.

Do ponto de vista jurídico, e aqui permito-me o didatismo que raramente ofende, mas frequentemente incomoda os desinformados: não há um único elemento ilícito na organização, na logística ou na funcionalidade do projeto. A Constituição de 1988, essa mesma que muitos citam como talismã democrático mas raramente leem, garante: liberdade religiosa, liberdade de associação e autonomia existencial. Ou seja: é direito fundamental, e não concessão graciosa de comentarista de internet, que cada um invista o que tem e o que pode na fé que abraça.

Mas o Brasil tem uma vocação cinematográfica para a hipocrisia. É fascinante observar como o investimento com espiritualidade incomoda mais do que décadas de gastos com álcool, cigarro, drogas recreativas, noites intermináveis de autossabotagem, terapias mal resolvidas e ressacas existenciais. Aparentemente, num país que finge viver sob a égide da razão, só a irracionalidade é socialmente aceitável.

Confesso, e aqui falo como quem viveu o outro lado do espelho, que jamais participei do Legendários. Mas participei de algo bem mais danoso: gastei anos da vida investindo em farra, e o único retorno desse “projeto” foram brigas, acidentes de trânsito, términos impulsivos, conflitos familiares, ansiedade e depressão. Nenhum sentido. Nenhuma cura. Nenhuma transformação. Só ruínas cuidadosamente maquiadas de liberdade.

Reprodução

Hoje, ao ver jovens em diversos pontos do país buscando algo que transcenda o vazio, o que mais me espanta não é o fenômeno em si, é a reação dos que nunca aceitaram que alguém encontre na fé aquilo que eles não encontraram no bar.

E é aqui que surge o desconforto necessário: muitos críticos não têm um problema com o movimento, têm um problema com o próprio reflexo.

Sim, porque é fácil ridicularizar o que não se entende. Difícil é admitir que, no fundo, o incômodo nasce da constatação silenciosa de que existe uma geração tentando construir algo que dê sentido à própria vida. E nada ameaça mais o nihilista moderno do que ver alguém fugindo do abismo onde ele próprio se acomodou.

E aqui reside a parte que quase ninguém ousa mencionar, porque não gera manchete, não dá clique e não interessa ao jornalismo que prefere espetáculo ao compromisso social. A Comunidade Batista Vida (que organiza o Legendários no Acre), liderada pelo pastor Marquinhos Maciel, realiza há anos um trabalho sólido, contínuo e incansável em comunidades carentes: combate à fome, apoio a famílias atingidas por enchentes, enfrentamento de doenças decorrentes de mosquitos, acolhimento a dependentes químicos, suporte emocional e espiritual a jovens e famílias inteiras. E até o Projeto CBVida Ambiental, uma iniciativa de cidadania e sustentabilidade reconhecida nacionalmente, que abrange desde campanhas de plantio de árvores até reutilização de óleo de cozinha para sabão ecológico, passando por educação ambiental e descarte correto de resíduos. Não por acaso, a CBVida foi convidada para participar da COP30, e reconhecida como uma das poucas igrejas do país que não fala apenas de fé, mas vive a fé no território, no cuidado com a natureza e no serviço à sociedade. Mas é claro: isso não vira editorial inflamado; afinal, o bem praticado em silêncio não alimenta o algoritmo.

Do ponto de vista sociológico, a reação não surpreende. O Brasil tornou-se um grande laboratório de pânico moral seletivo: censura-se o que edifica, ignora-se o que destrói. É permitido perder-se, mas terminantemente proibido reencontrar-se. A busca por paz espiritual virou afronta ao establishment intelectual que, na ausência de Deus, elegeu a si mesmo como divindade.

E, sob a ótica da liberdade, não há debate possível. O dinheiro é do fiel, não dos críticos. A opção é do indivíduo, não de quem escreve editorial inflamado. E o sentido é de cada alma, não de quem vive de likes moralistas.

E o que muitos críticos ignoram, talvez porque desconhecem até o preço de uma água mineral na porta de casa, é que uma edição do Legendários não nasce de improviso nem de mágica: ela exige estrutura profissional, investimento alto e uma logística que beira a produção de um grande evento nacional. Em algumas cidades, a igreja precisa alugar espaços de grande porte ou até comprar o terreno do evento, montar palcos certificados, contratar empresas de sonorização e iluminação com responsabilidade técnica, garantir ambulâncias, médicos, enfermeiros, paramédicos, brigadistas, bombeiros civis, equipes de controle de acesso, segurança privada treinada, coordenação de voluntários, monitoramento por câmeras, geradores de energia, seguro para eventos e até profissionais especializados em plano de evacuação para situações de emergência. Tudo isso sem falar no transporte de equipamentos, hospedagem de equipe, alimentação de centenas de trabalhadores e nos protocolos rígidos para evitar tragédias. Protocolos que muitos eventos públicos, ironicamente, nem sonham em cumprir. Ou seja: enquanto alguns acham que estão criticando “um showzinho emocional”, na verdade estão atacando um dos eventos mais organizados, custosos e responsáveis do calendário cristão no país, sustentado pela própria comunidade, sem depender de um centavo de dinheiro público.

Portanto, aos evangélicos e aos simpatizantes, digo com franqueza: não se intimidem. Não abaixem a cabeça. Não aceitem que lhes digam onde investir seu tempo, seu dinheiro e sua fé.

Num país onde tantos gastam fortunas para se perder, vocês têm todo o direito de gastar para se reencontrar.

E aos críticos: não é o Legendários que lhes incomoda. Não é a estética. Não é o nome. Não é a música. Não é a multidão. É o que ele representa: gente encontrando sentido onde eles só encontraram vazio.

Roraima Rocha é Advogado; sócio fundador do escritório MGR – Maia, Gouveia & Rocha Advogados; Mestrando em Estudos Jurídicos com Ênfase em Direito Internacional; Especialista em Direito Penal e Processual Penal; Especialista em Advocacia Cível; Secretário-Geral Tribunal de Ética e Disciplina da OAB/AC; Membro da Comissão Nacional de Direitos Humanos da OAB. Membro da CBVida.

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