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Por que recomendo Pluribus a você e seu terapeuta durante as férias

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Por que recomendo Pluribus a você e seu terapeuta durante as férias

A pessoa mais triste da Terra deve salvar o mundo dos perigos da felicidade.

É com essa frase que Pluribus se apresenta em sua sinopse na Apple TV. A série de ficção científica, que se tornou a mais vista da plataforma, chega ao seu último episódio nesta quarta-feira (24/12). O recesso dos psicólogos, para alguns, representa um perigo iminente – tema que acabou se transformando em meme recorrente na internet. E, se eu puder fazer uma sugestão de fim de ano, Pluribus parece-me uma ótima indicação para você e para o seu terapeuta durante esse período.

Na trama, a humanidade recebe um código que, após ser decifrado por um grupo de cientistas, revela-se como o código genético de um vírus. Não tarda para que ele seja reproduzido em laboratório e, ao sair de controle, espalhe-se rapidamente por todo o planeta, restando apenas cerca de uma dúzia de pessoas imunes à contaminação.

Esse “vírus” transforma radicalmente a subjetividade de seu hospedeiro: as pessoas passam a experimentar apenas afetos ligados à felicidade, à empatia e à bondade. Deixam de se perceber como indivíduos e passam a se entender como um grande “nós”. Trata-se de uma coletividade que, apesar de sua aparente pluralidade – pluribus, do latim plures, “muitos” –, não comporta diferença alguma. Todos são iguais, compartilham valores, crenças e modos de pensar, movendo-se de forma homogênea, como as operárias de uma colmeia.

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Nesse contexto, uma criança de sete anos, por exemplo, pode deter todo o conhecimento compartilhado pela humanidade: fala e compreende todas as línguas, pilota um avião ou realiza procedimentos cirúrgicos com precisão – tal como encontramos nas inteligências artificiais.

Essa nova forma de vida veiculada pelo vírus porta uma subjetividade que remete ao que Freud nomeou como psicologia das massas. A massa é capaz de anular as singularidades individuais e permitir que os sujeitos realizem atos que, isoladamente, não realizariam, seja para o bem ou para o mal. Um exemplo clássico é o das torcidas organizadas de futebol, capazes de veicular intensas paixões coletivas, mas também de produzir violências extremas.

Na primeira interação da protagonista, Carol – uma escritora imune à contaminação –, com esse coletivo, ela pergunta: “O que vocês querem?”. A resposta vem em uníssono, de forma inquietante: “Nós queremos ajudar”.

A princípio, o objetivo do grupo não parece ameaçador. Pelo contrário: trata-se de servir irrestritamente aos imunes, satisfazendo todos os seus desejos. Eles se comportam como uma inteligência artificial: atentos, cuidadosos, sempre disponíveis, reforçando as potencialidades do outro. Há ali uma clara tendência à servidão voluntária – estão prontos para servir e obedecer ao desejo do Outro.

Um café da manhã perfeito, uma viagem de primeira classe, sexo com qualquer pessoa ou até uma arma: tudo o que se pede é concedido. Pode parecer o melhor dos mundos – ter à disposição não apenas um gênio da lâmpada, mas toda a humanidade disposta a realizar seus desejos. No entanto, sabemos o quão corrosiva pode ser a dinâmica em que tudo o que pertence ao enigma do desejo é transformado em demanda a ser imediatamente satisfeita.

Pluribus, série sci-fi da Apple TV do mesmo criador de Breaking BadPluribus, série sci-fi da Apple TV do mesmo criador de Breaking Bad

Não tarda para que algo intrigante se revele. Quando Carol manifesta ódio, raiva ou luto diante de um membro do coletivo, esse afeto se propaga globalmente: sujeitos em todo o mundo entram em convulsão, e milhares morrem. O efeito é devastador. A protagonista passa a ser tomada por uma culpa insuportável, que a impede até mesmo de sustentar seu ódio diante daqueles que afirmam querer apenas ajudá-la.

Outra característica desse coletivo é a ausência de um líder visível. Trata-se de uma massa aparentemente horizontal, em que a autoridade se dissolve em decisões sempre justificadas em nome do bem comum. Não por acaso, essas decisões se apoiam em pautas urgentes de nosso tempo – controle ambiental, fome, igualdade, paz global. Mas sabemos que quanto mais invisível é a autoridade, mais cruel ela pode se tornar. Como na conhecida fórmula parental: “Você pode escolher não ir, meu filho, mas sua avó, coitada, ficará muito triste se você não for”.

Aqui, o ódio se dissolve em culpa, a autoridade não se apresenta como tal, e os atos são sempre justificados em nome do Bem. Não parece haver saída.

Ao se colocar contra esse movimento de massa e lutar para reaver àqueles seres sua dignidade, singularidade e direito à diferença, Carol acaba se tornando, paradoxalmente, a figura do inumano por excelência.

Agora, afinal, por que essa é uma boa recomendação de série para o meu terapeuta?

Quando buscamos terapia, muitas vezes acreditamos que o terapeuta será aquele que nos ajudará a realizar nossos desejos. Essa expectativa não é mais ficção científica: cada vez mais pessoas recorrem à inteligência artificial como suporte terapêutico, acreditando que ela lhes fornecerá o saber necessário para alcançar felicidade, qualidade de vida ou bem-estar.

Essa concepção não é exclusiva dos pacientes. Muitos terapeutas ainda operam a partir da ideia de que o objetivo do tratamento é eliminar sintomas e conduzir o sujeito em direção a um desejo claramente localizável. Freud, médico de formação, compartilhou inicialmente desse ideal terapêutico.

No início de sua prática, utilizou a sugestão hipnótica para fazer cessar sintomas histéricos, fobias e obsessões. No entanto, esse método produziu um efeito inesperado: quanto mais os sintomas eram suprimidos, mais novos sintomas surgiam, acompanhados de uma crescente dependência do paciente em relação ao médico.

É a partir do impasse dessa relação que Freud começa a se interrogar sobre a dependência, obediência e a tendência à servidão que atravessam os vínculos humanos. Ao abandonar a hipnose, ele reconhece que já estamos, de algum modo, hipnotizados – e é dessa constatação que nasce a psicanálise.

A psicanálise não se propõe apenas a aliviar sintomas, mas a tratar formas de vínculo adoecedoras. Trata-se de uma ética que visa desarticular o núcleo de servidão voluntária que habita todos nós, permitindo a queda das idealizações, a travessia da fantasia, a destituição do narcisismo e, por fim, da própria transferência.

Em outras palavras, uma análise busca uma posição subjetiva em que não sejamos inteiramente governados pelo desejo do Outro, pela lógica da massa ou pelo gozo de nossas compulsões.

Esse processo de desilusão pode, sim, atravessar momentos de depressão. Não é por acaso que encontramos essa forma de vida em Carol, uma escritora inventora de mundos. Lacan confiava nos sujeitos deprimidos – acreditava que, de algum modo, eles estavam mais próximos de uma verdade à qual a análise pode conduzir.

Pluribus, série sci-fi da Apple TV do mesmo criador de Breaking Bad

Na nosografia psiquiátrica contemporânea, a depressão aparece dissociada da antiga tradição que compreendia a melancolia como uma forma singular de existência, ligada à criação e à invenção. Ao ser reduzida a um transtorno do humor, descrito por critérios funcionais e deficitários, a depressão perde seu vínculo histórico com a experiência dos extremos e com a capacidade de tornar-se outro.

Diante disso, cabe perguntar: o objetivo de uma terapia é conduzir o sujeito da depressão à felicidade? Ou pode ela servir como um espaço em que essa tristeza, esse mal-humor e essa espirituosidade corrosiva, características de Carol, tornem o sujeito capaz de sustentar seu desejo, mesmo que isso implique riscos?

Isso não é um elogio a uma vivência cega do desejo. A série mostra personagens que, sob o manto da ajuda e da felicidade, autorizam-se a violências extremas, como o abuso sexual. Carol, ao se negar a esse tipo de satisfação, nesse contexto, torna-se uma figura de exceção. Tal como Antígona, vemos em outra cena a protagonista tentando enterrar uma pessoa amada. Diferentemente da heroína trágica, que recusa todo tipo de ajuda, porém, ela cede ao auxílio do coletivo – e o gesto fúnebre, embora “empaticamente” permitido, se mostra ainda mais tirânico, é esvaziado de sua dimensão simbólica, reduzido a um funcionalismo sem humanidade: a ajuda oferecida é a de um trator que abre uma vala.

Por isso, acredito que Pluribus seja uma boa indicação aos terapeutas. Que as férias sejam um tempo para interrogarmos o que oferecemos quando oferecemos ajuda: reforçamos a lógica da massa, dissolvendo diferenças e transformando o desejo em demanda? Ou sustentamos uma direção que confronte o desamparo humano, permitindo que o sujeito não espere mais por uma satisfação vinda do Outro, mas encontre um desejo capaz de reformular seus laços e sustentar aquilo que nele é incurável?

Talvez, em vez de nos curar para compartilhar da felicidade da massa, a infelicidade ordinária prometida por Freud ainda seja um bom caminho.

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