Quem tem medo do salĂĄrio mĂ­nimo? O projeto que protege lucros e nega dignidade ao trabalhador

Conservadores da economia atacam o reajuste real, mas defendem subsídios bilionårios às empresas, mantendo privilégios às custas da miséria de quem produz a riqueza do país

Por José Américo, ContilNet 26/12/2025

Sempre que se aproxima a data do anĂșncio do valor do salĂĄrio mĂ­nimo, ressurge tambĂ©m o velho coro dos setores conservadores da economia contra qualquer tentativa de valorização real dessa renda, como se garantir dignidade mĂ­nima ao trabalhador fosse um atentado ao Estado. O discurso Ă© sempre o mesmo: “o Brasil vai quebrar”, “nĂŁo hĂĄ como pagar”, “isso gera desemprego”. Narrativas repetidas nĂŁo para defender o paĂ­s, mas para proteger interesses prĂłprios.

qual valor do salario minimo

Narrativas repetidas não para defender o país, mas para proteger interesses próprios/Foto: Reprodução

O contraste Ă© cristalino. Os mesmos grupos que se insurgem contra reajustes reais sĂŁo os que, por dĂ©cadas, garantiram — e continuam garantindo — enormes subsĂ­dios fiscais, isençÔes e incentivos Ă s empresas, muitas delas centenĂĄrias, de origem familiar, com lucros bilionĂĄrios que investem fora do paĂ­s e pouco devolvem Ă  sociedade que as sustenta. Quando o debate chega perto da revisĂŁo desses benefĂ­cios, a reação vem em forma de chantagem polĂ­tica: ameaças de demissĂ”es, redução de investimentos e a ladainha de que “sem subsĂ­dio nĂŁo hĂĄ emprego”.

Não se trata de alinhamento automåtico à esquerda ou à direita, mas de assumir um posicionamento ético e civilizatório: ao lado de quem mais precisa. O trabalhador e a trabalhadora são os verdadeiros geradores de riqueza do Brasil. São eles que garantem, todos os dias, a produtividade do país, mesmo sobrevivendo com um salårio mínimo que, historicamente, não cobre sequer os custos båsicos definidos pela Constituição para uma vida digna.

Atacar o aumento do salårio mínimo enquanto se defende a perpetuação de incentivos às elites produtivas é expor um projeto econÎmico que externaliza custos sociais e concentra lucros. Um país onde milhÔes vivem de renda informal, de programas como o Bolsa Família, ou de um salårio mínimo insuficiente, não pode aceitar como natural que quem lucra mais se recuse a contribuir com a valorização da base que sustenta o consumo e movimenta o mercado interno.

Quem realmente acredita no desenvolvimento econĂŽmico deveria entender que um salĂĄrio mĂ­nimo valorizado Ă© motor de crescimento: amplia poder de compra, fortalece pequenos negĂłcios, reduz desigualdade e melhora indicadores sociais — saĂșde, educação, segurança e cidadania. Ao contrĂĄrio, manter o salĂĄrio achatado Ă© perpetuar um paĂ­s subdesenvolvido, intelectualmente fragilizado e socialmente adoecido.

A pergunta, portanto, nĂŁo Ă© se o aumento real do salĂĄrio mĂ­nimo “quebra o Estado”. A questĂŁo Ă©: atĂ© quando continuaremos aceitando um modelo que coloca o privilĂ©gio empresarial acima da dignidade humana? Um paĂ­s que teme pagar melhor a quem produz, mas nĂŁo hesita em financiar o topo da pirĂąmide, precisa rever com urgĂȘncia quem realmente estĂĄ gerando riqueza — e quem apenas extrai, sem devolver.

Um projeto de futuro exige coragem para escolher o lado certo. E o lado certo, no Brasil, tem nome: trabalhador e trabalhadora.

*Zé Américo Silva é jornalista e consultor de marketing político

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