Entre 15 e 31 de dezembro, o Brasil vive aquele raro momento de unanimidade nacional: é todo mundo prometendo que o ano que vem será o melhor. O cidadão promete economizar, o político promete responsabilidade e o governo promete ajuste fiscal. À meia-noite, estouram os fogos, abraçam-se os parentes e, no dia 2 de janeiro, chega a fatura — sem música, sem contagem regressiva e com juros.
É o “Réveillon Fiscal”, tradição tão brasileira quanto rabanada: bonito na mesa, indigesto no depois.
O roteiro é nosso conhecido. Em dezembro, o discurso oficial fala em “novo ciclo”, “equilíbrio” e “crescimento sustentável”. As palavras sobem como fogos coloridos no céu. Mas o orçamento — aquele detalhe chato — fica no chão, varrido para depois da virada. A política fiscal vira promessa de Ano-Novo: empolga na festa do dia 31 e abandona no dia 2 de janeiro. E o silêncio passa a ser geral, ensaiado.
Para explicar isso sem dor de cabeça, pense numa família que decide fazer um festão, bem maior do que a geladeira comporta. O anfitrião garante: “A gente dá um jeito”. Dá mesmo — no cartão. O problema é que o cartão do Estado não vence para o Estado. Vence para nós, para mim e para quem ainda nem nasceu.
Eis o ponto central do Réveillon Fiscal: gastar agora e explicar depois. O governo entra no ano novo com despesas permanentes e receitas incertas, torcendo para que o crescimento resolva o que a disciplina não resolveu. É como começar uma dieta com sobremesa dupla “porque segunda-feira eu compenso”.
A didática é simples, serve tanto para o jovem quanto para o veterano: quando o governo gasta mais do que arrecada, surgem três caminhos. Primeiro, aumentar impostos. Segundo, emitir dívida. Terceiro, imprimir dinheiro — que é o mesmo que gritar, chamando pela inflação. Não existe quarto caminho. O discurso pode inventar na cantada, a matemática não.
O problema é que o Brasil repete esse ritual há décadas. Promete ajuste, mas evita cortar o que dá trabalho político. Prefere empurrar com a barriga, que já virou mala de viagem. A cada virada, mais compromissos assumidos; a cada janeiro, mais dificuldade para cumprir. Somos aprendizes esforçados dos antigos africanos, que já abandonaram essas práticas.
Enquanto isso, a conta cresce silenciosa. Juros altos não caem do céu: são o preço da desconfiança. Investimento tímido não é azar: é reflexo de incerteza. Crescimento baixo não é destino: é consequência. O Réveillon Fiscal deixa confetes e serpentinas no discurso e muitas cinzas na economia real.
Há também um aspecto político delicado — e fácil de entender. Gastar em dezembro rende aplauso imediato. Ajustar em janeiro rende protesto. Entre o curto prazo barulhento e o longo prazo silencioso, a política costuma escolher o barulho. Fogos dão voto; planilha não.
Mas o ano novo chega para todos, inclusive para a realidade. E ela é implacável. Não adianta trocar a cor da gravata, mudar o slogan ou prometer “nova fase”. Se o orçamento não fecha, o discurso não sustenta. País não vive de esperança; vive de produtividade, previsibilidade e responsabilidade.
Aqui entra a lição que atravessa gerações. Para os mais novos: dívida é pagar amanhã o que alguém gastou hoje. Para os mais velhos: é a velha história do caderno fiado — alguém sempre fica com a conta. A diferença é que, no caso do Estado, a conta é coletiva e inevitável.
O Brasil poderia usar a virada para algo mais útil do que promessas genéricas. Poderia discutir prioridades, rever gastos que não entregam resultado, simplificar regras que travam quem produz. Poderia tratar ajuste fiscal como base do crescimento, não como castigo. Mas isso exige menos fogos e mais trabalho. Menos palco e mais cozinha. O bom mesmo é se deliciar na eternidade da frase: Se Deus é brasileiro, quem será contra nós.
O Réveillon Fiscal não precisa acabar com a festa. Precisa acabar com a ilusão. Dá para brindar sem quebrar o cofre, celebrar sem parcelar o futuro, virar o ano sem deixar a conta para os netos.
Que em 2026 os fogos fiquem apenas no céu — e não no discurso.
Porque, na nossa bela e cheirosa economia, as promessas continuam se multiplicando e estourando com muita rápidez. Agora, elas contam com as torcidas organizadas do Paraguai, Uruguai e Argentina, que chupam as nossas empresas e exterminam os nossos empreguinhos.
A conta, não.
Roberto Caminha Filho, economista, quer entender as fugas das nossas grandes empresas, para os vizinhos, que só têm o trabalho de agasalhá-las, diminuindo seus impostos.
