Sites vazam dados de jovens que respondem por atos infracionais em SP

Por AgĂȘncia Brasil 12/12/2025 Ă s 19:02


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A Defensoria PĂșblica de SĂŁo Paulo detectou diversos processos nos sites Jusbrasil e Escavador em que a identidade de jovens acusados de cometer atos infracionais, apontada em processos da Justiça de SĂŁo Paulo, Ă© revelada. A exposição ilegal dos adolescentes foi confirmada pelo ĂłrgĂŁo apĂłs o recebimento de denĂșncias.  Sites vazam dados de jovens que respondem por atos infracionais em SPSites vazam dados de jovens que respondem por atos infracionais em SP

Mesmo com a derrubada de påginas na internet, os dados podem continuar expostos, jå que também constam de ediçÔes do Diårio da Justiça EletrÎnico, de acesso livre a qualquer pessoa. 

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De acordo com o NĂșcleo Especializado da InfĂąncia e Juventude (Neij), da Defensoria, as informaçÔes chegaram atravĂ©s de funcionĂĄrios do sistema de medidas socioeducativas e de familiares dos adolescentes envolvidos. A menção aos nomes dos jovens descumpre o artigo 247 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que proĂ­be a divulgação, sem consentimento, da exibição do nome, ato ou documento de procedimento policial, administrativo ou judicial de crianças ou adolescentes que respondem por atos infracionais. 

O trecho da lei ressalta que isso vale independentemente do meio de comunicação. A pena prevista Ă© de multa de 3 a 20 salĂĄrios de referĂȘncia, aplicando-se o dobro em caso de reincidĂȘncia.

Citando o artigo, a Defensoria PĂșblica informou, em nota encaminhada Ă  AgĂȘncia Brasil, que foram retiradas do ar vĂĄrias pĂĄginas da internet, a pedido do Neij, mas ponderou que nĂŁo Ă© possĂ­vel achar todos os processos que deveriam estar sob sigilo. 

O ĂłrgĂŁo ressaltou, ainda, que foi aberto um procedimento administrativo para que haja a devida responsabilização de quem violou a lei, na forma do ECA. Foram enviados ofĂ­cios ao Tribunal de Justiça do Estado de SĂŁo Paulo (TJSP), ao MinistĂ©rio PĂșblico e ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ). 

O TJSP declarou, também em nota, que não houve falhas em seu sistema e, portanto, não houve desproteção dos dados a partir dele. A origem do problema, acrescentou, é externa. Alguns processos similares foram encontrados no sistema pela reportagem.

No comunicado, o Tribunal de Justiça destaca que magistrados também detectaram as mesmas irregularidades em påginas da internet. Como as famílias que entraram em contato com o Neij, os juízes deram encaminhamento ao material. 

“Foram instaurados expedientes administrativos na PresidĂȘncia, com anĂĄlise conduzida pelo Setor de Tecnologia da Informação, diante da notĂ­cia de eventual exposição indevida de dados de adolescentes vinculados a processos da InfĂąncia e Juventude”, escreve o TJSP. 

“As conclusĂ”es obtidas atĂ© o momento foram encaminhadas ao CNJ e Ă  Defensoria PĂșblica, para as providĂȘncias que entenderem cabĂ­veis. O TJSP esclarece que nĂŁo pode agir de ofĂ­cio para determinar a retirada de conteĂșdos eventualmente publicados por terceiros, sendo necessĂĄria a provocação judicial por parte dos ĂłrgĂŁos ou interessados legitimados”, adiciona.

Dados replicados

O Jusbrasil reconheceu a gravidade das ocorrĂȘncias e o mau funcionamento de seus mecanismos de filtro e remoção de conteĂșdos reproduzidos. O site argumenta que o que foi replicado veio a partir das ediçÔes do DiĂĄrio da Justiça EletrĂŽnico e fala em responsabilidade compartilhada. 

Também afirma que revisou imediatamente os fluxos internos de prevenção e monitoramento proativo e realizou uma varredura para verificar se encontraria outros casos semelhantes. 

ApĂłs classificar os incidentes como “um tema relevante, que demanda ação coordenada e total transparĂȘncia”, o Jusbrasil pontuou a procura pela Associação Brasileira de Lawtechs e Legaltechs (AB2L), Ă  qual estĂĄ vinculado, para fomentar um debate sobre boas prĂĄticas e mecanismo de governança que assegurem a salvaguarda de dados sensĂ­veis.

“Seguimos com o monitoramento para garantir que novos casos sejam prontamente tratados. Temos um canal de atendimento que funciona 24h por dia para a solicitação de desidentificação de informaçÔes. Nos casos em que os conteĂșdos tĂȘm origem em diĂĄrios oficiais, o pedido de desidentificação Ă© tratado de forma imediata”, afirmou na mensagem remetida Ă  reportagem.

Procurado pela reportagem, o Escavador não se pronunciou sobre o caso até o fechamento desta matéria. 

InfraçÔes e direitos

O ECA define como ato infracional qualquer conduta descrita como crime ou contravenção penal. Por serem penalmente inimputĂĄveis, crianças e adolescentes podem ser penalizados somente com advertĂȘncia, prestação de serviços Ă  comunidade, liberdade assistida ou outras formas de reparação e responsabilização adequadas Ă  sua faixa etĂĄria, elencadas no ECA.

Uma das autoridades no campo de defesa de crianças e adolescentes, o advogado Ariel de Castro Alves Ă© favorĂĄvel ao acionamento da Corregedoria do Tribunal de Justiça e apuração da responsabilidade dos servidores pĂșblicos incumbidos de atualizar o DiĂĄrio da Justiça EletrĂŽnico, alĂ©m das figuras que chefiam os sites envolvidos. Segundo ele, os servidores podem ser alvo de processos que imputem improbidade administrativa. 

AlĂ©m disso, as famĂ­lias podem entrar na Justiça para pedir indenização por danos morais e tanto o MinistĂ©rio PĂșblico como a Defensoria podem mover açÔes civis pĂșblicas, que podem determinar a aplicação de multas e a suspensĂŁo das publicaçÔes. 

“Considero que Ă© um escĂąndalo, que viola os direitos Ă  dignidade, integridade, imagem e ao respeito, expondo adolescentes a exclusĂŁo, marginalização e estigmatização”, afirma Castro Alves, 

Ele Ă© ex-presidente do Conselho Nacional (Conanda), membro da ComissĂŁo Nacional da Criança dos Direitos da Criança e do Adolescente e do Adolescente do Conselho Federal da OAB. e jĂĄ atuou como ex-secretĂĄrio nacional na pasta de mesmo Ăąmbito. Para o advogado, Ă© essencial lembrar que sites como o Jusbrasil e o Escavador copiam conteĂșdo veiculado antes nos diĂĄrios oficiais.

” As consequĂȘncias [da exposição indevida] sĂŁo o aprofundamento da exclusĂŁo social, econĂŽmica e educacional, marginalização, dificuldade de inserção escolar e no trabalho, inclusive para aqueles jovens que tenham sido acusados e provaram suas inocĂȘncias”, explica.

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