Ao menos 40 pessoas morreram e 115 ficaram feridas apĂłs um incĂȘndio na estação de esqui de Crans-Montana, na SuĂça, nesta quinta-feira (1Âș/1), de acordo com a polĂcia.
O incidente ocorreu Ă 1h30 do horĂĄrio local (21h30 do horĂĄrio de BrasĂlia) no Bar Le Constellation, onde ocorria uma comemoração de Ano Novo.
Autoridades dizem não saber quantas pessoas estavam no bar no momento da tragédia, mas isso serå apurado nas investigaçÔes.
Mathias Reynard, chefe do governo regional do cantĂŁo de Valais, onde ocorreu a tragĂ©dia, afirmou que hĂĄ “um nĂșmero significativo” de feridos em estado crĂtico.
Ele afirmou que a identificação dos feridos e das vĂtimas fatais vai “levar tempo”, reconhecendo no entanto que esta espera Ă© “insuportĂĄvel”.
O time francĂȘs FC Metz confirmou que um de seus jogadores, da categoria juvenil, estĂĄ entre os feridos e foi transferido um hospital na Alemanha. Tahirys dos Santos, de 19 anos, foi “queimado de forma grave”, disse o clube.
O presidente suĂço, Guy Parmelin, classificou o incĂȘndio como “uma das piores tragĂ©dias que o paĂs jĂĄ viveu”.
Parmelin disse que o episĂłdio foi um “drama de escala desconhecida” e que alguns dos feridos sofreram fortes queimaduras.
Falando Ă BBC Radio 4, Robert Larribau, chefe do Centro de Comunicação MĂ©dica de EmergĂȘncia dos Hospitais UniversitĂĄrios de Genebra, disse que algumas das vĂtimas sĂŁo muito jovens, com idades entre 15 e 25 anos.
Algumas sofreram queimaduras internas no corpo, após inalarem fumaça.

Entre os mortos e feridos, acredita-se que hĂĄ pessoas de vĂĄrias nacionalidades, que estavam passando o fim de ano nos Alpes suĂços.
O MinistĂ©rio das RelaçÔes Exteriores da ItĂĄlia informou que 16 cidadĂŁos italianos estĂŁo desaparecidos. O paĂs Ă© vizinho da SuĂça.
TrĂȘs cidadĂŁos italianos foram transferidos para um hospital em seu paĂs, na cidade de MilĂŁo.
O MinistĂ©rio das RelaçÔes Exteriores da França afirmou que oito cidadĂŁos do paĂs sĂŁo considerados desaparecidos apĂłs a ocorrĂȘncia na SuĂça e podem estar entre os mortos.
Beatrice Pilloud, procuradora-geral do cantĂŁo de Valais, afirmou que uma investigação foi aberta “para identificar as circunstĂąncias que levaram a essa situação dramĂĄtica”.
Segundo ela, a possibilidade de um ataque foi descartada e trabalha-se com a hipĂłtese de um incĂȘndio.
Mas Pilloud alertou: “O trabalho vai levar tempo”.
O jornal suĂço Blick chegou a apontar que o incĂȘndio poderia ter sido ocasionado por fogos de artifĂcio, mas as autoridades ressaltaram que sua origem ainda Ă© desconhecida e que Ă© necessĂĄrio aguardar as investigaçÔes.
Testemunhas relatam uso de velas
Crédito,Reuters
Duas pessoas de nacionalidade francesa, Emma e Albane, relataram ao canal francĂȘs BFMTV que o incĂȘndio teria começado porque uma vela foi colocada muito prĂłxima ao teto, que teria entĂŁo pegado fogo.
Ambas estavam no bar Le Constellation comemorando o Ano Novo.
Elas disseram que uma das garçonetes colocou velas de aniversårio em cima de algumas garrafas de champanhe e que uma delas foi erguida.
“Em questĂŁo de segundos, todo o teto estava em chamas. Tudo era de madeira”, acrescentaram, emendando que as chamas “começaram a subir muito rĂĄpido” e que “todo o teto estava pegando fogo, atĂ© o primeiro andar”.
A BBC encontrou um aparente vĂdeo promocional do bar Le Constellation no YouTube, publicado em maio de 2024. As imagens mostram mulheres usando capacetes de motociclista caminhando pelo bar enquanto carregam sinalizadores em garrafas de bebidas alcoĂłlicas acima da cabeça.
A evacuação foi “muito difĂcil”, afirmaram as turistas francesas, porque a rota de fuga do local era “estreita” e a escada que levava para a rua era “ainda mais estreita”.
Havia “cerca de 200 pessoas tentando sair em 30 segundos por uma escadaria muito estreita”, relataram.
“Tivemos muita sorte”, concluĂram as sobreviventes.
Um homem contou Ă agĂȘncia de notĂcias AFP que ficou preso dentro do local em chamas e precisou quebrar uma janela para conseguir escapar.
“Ficamos presos, muita gente ficou presa. NĂŁo conseguĂamos enxergar devido Ă fumaça”, disse. “NĂŁo sabĂamos como irĂamos sair.”
“Eu estava no subsolo. Eu e meus amigos estĂĄvamos nos divertindo; infelizmente, alguns dos nossos amigos nĂŁo estĂŁo mais conosco por causa do incĂȘndio.”
Sobre os momentos antes do inĂcio do incĂȘndio, ele afirmou que havia garçonetes no bar “com garrafas de champanhe com sinalizadores muito prĂłximos do teto”, e que o “fogo se espalhou de repente”.
Outra testemunha, Alex, de 21 anos, contou Ă emissora suĂça RTS que tinha acabado de chegar do lado de fora do bar quando as primeiras vĂtimas do incĂȘndio começaram a sair correndo.
“Vi alguĂ©m sĂł de roupa Ăntima, queimado”, disse Alex. “Foi aĂ que percebi que definitivamente havia algo muito errado.”
Ele recorda um “cheiro de gĂĄs, de plĂĄstico derretido, uma mistura muito desagradĂĄvel. E entĂŁo meia dĂșzia de pessoas queimadas saĂram”.
Alex afirma que “deu um arrepio na espinha pensar que possivelmente ainda havia cerca de cinquenta pessoas presas lĂĄ dentro”.
Crédito,Reuters
A testemunha Dominic Dubois disse Ă agĂȘncia de notĂcias Reuters que um bar prĂłximo ofereceu abrigo e usou cortinas para ajudar a manter as pessoas aquecidas.
“Eles fizeram um trabalho incrĂvel ao permanecer abertos. Estava quente lĂĄ dentro, e isso era o necessĂĄrio”, afirmou.
Uma agĂȘncia local do banco UBS tambĂ©m foi aberta, acrescenta ele: “Empurramos todas as mesas para o lado, todas as mesas foram afastadas, e as pessoas entraram. Estava quente lĂĄ dentro e havia mais luz tambĂ©m”.
Dubois disse ter visto “muitas cenas chocantes”, acrescentando: “Havia muitas pessoas muito fortes, que se mantiveram firmes e entenderam que suas vidas estavam em perigo, mas decidiram que, mentalmente, era mais importante manter a calma”.
A repĂłrter da BBC News Silvia Costeloe, que estĂĄ no local, ouviu uma pessoa que teria entrado no bar em chamas para tentar salvar quem estava lĂĄ dentro.
“Ouvimos uma grande explosĂŁo e, depois, vimos muita fumaça”, disse o entrevistado.
“Pensei que meu irmĂŁo mais novo estivesse lĂĄ dentro, entĂŁo entrei e tentei quebrar a janela para ajudar as pessoas a saĂrem.”
O homem disse que, ao entrar, viu pessoas “queimando da cabeça aos pĂ©s, sem roupa nenhuma”, acrescentando: “Foi muito chocante”
Crédito,Police Cantonale Valaisanne
Ele tentou ajudar no que podia, oferecendo ĂĄgua e roupas aos feridos â inclusive dando sua jaqueta a um homem com queimaduras.
Quando os bombeiros e médicos chegaram, assumiram o controle da situação, relatou.
“Ă muito perturbador, porque eu fui a esse bar todos os dias da semana… Justo no dia em que eu nĂŁo fui, ele pegou fogo.”
A editora da BBC News Rorey Bosotti conversou com um hĂłspede de um hotel a cerca de 50 metros do Le Constellation.
O entrevistado relatou que ele e a famĂlia tinham acabado de comemorar a chegada de 2026 no quarto quando ouviram uma sĂ©rie de explosĂ”es.
“Pensamos que alguĂ©m tivesse soltado fogos de artifĂcio na entrada do hotel”, disse Oleh Paska, que estĂĄ em Crans-Montana com a esposa e o filho.
Nos primeiros minutos, a famĂlia seguiu achando que o barulho se tratava de uma “comemoração normal”.
Chegaram a ouvir alguĂ©m “chorando” do lado de fora, mas a princĂpio pensaram que uma briga tinha começado entre jovens que estavam celebrando o Ano Novo.
Os serviços de emergĂȘncia começaram a chegar, contudo, e a esposa de Oleh percebeu “diferentes tipos de sirenes” tocando, sinalizando a chegada de ambulĂąncias, policiais e bombeiros.
Como Ă© o bar Le Constellation
Crédito,Google Maps
O Le Constellation Ă© um bar grande no resort de esqui suĂço de Crans-Montana, que existe hĂĄ pelo menos 40 anos.
A luxuosa estação de esqui fica no coração dos Alpes SuĂços, a aproximadamente duas horas da capital suĂça, Berna.
Apesar da estação ser conhecida pelo luxo, o bar em si “Ă© grande e nĂŁo Ă© suntuoso”, segundo a jornalista da BBC Silvia Costeloe.
O Le Constellacion Ă© uma “verdadeira instituição” local, descreve a repĂłrter.
No andar de cima, hĂĄ uma ĂĄrea com telas de TV onde as pessoas costumam assistir a partidas de futebol.
No andar de baixo, fica um grande bar onde os frequentadores provavelmente estavam bebendo e dançando.
Os feriados de Natal e Ano Novo sĂŁo um dos perĂodos mais movimentados do ano para os resorts de esqui dos Alpes SuĂços.
Crédito,ALESSANDRO DELLA VALLE/EPA/Shutterstock
Hospitais recebem feridos
Mathias Reynard, chefe do governo regional de Valais, disse que a operação de resgate jå envolveu 42 ambulùncias e 13 helicópteros.
Os feridos foram encaminhados para o hospital de Valais e de cidades em outras regiĂ”es da SuĂça, como Zurique e Lausanne.
França e Itålia ofereceram ajuda para receber feridos em unidades especializadas no tratamento de queimaduras.
Sabe-se que ao menos trĂȘs pessoas foram transferidas para a ItĂĄlia, duas para a Alemanha e outras para a França.
A diretora do Hospital UniversitĂĄrio de Lausanne, Claire Charmet, afirma que a unidade jĂĄ recebeu 22 pessoas.
Ao jornal suĂço 24 Heures, ela afirmou que esses pacientes, com idades entre 16 e 26 anos em mĂ©dia, seriam “os casos mais graves”.
A recuperação dessas vĂtimas, segundo ela, serĂĄ “um processo longo e intenso, que durarĂĄ vĂĄrias semanas, talvez atĂ© meses”.
Ela acrescentou que Ă© “muito cedo para determinar” se alguma delas corre risco de morte, dizendo que a prioridade tem sido “receber os pacientes, identificĂĄ-los, conectĂĄ-los com suas famĂlias e garantir que o processo de atendimento esteja funcionando”.
Outras 60 pessoas estĂŁo recebendo atendimento no hospital de Sion.
A procuradora-geral de Valais afirmou ainda que as autoridades tambĂ©m estĂŁo trabalhando para identificar as vĂtimas fatais e encaminhar os corpos Ă s famĂlias o mais rĂĄpido possĂvel.
Crédito,Reuters
Histórico de tragédias em boates e bares
Crédito,Kiss: Que Não Se Repita/Divulgação.
A tragĂ©dia do bar Le Constellation, jĂĄ considerada uma das piores da histĂłria da SuĂça, se soma a outras que deixaram centenas de mortos em boates e bares nas Ășltimas dĂ©cadas ao redor do mundo.
Em 2025, um dos casos mais graves foi o da boate Pulse, na cidade de Kocani, na MacedĂŽnia do Norte. Ao menos 63 pessoas morreram no incĂȘndio, em março, causado por faĂscas de dispositivos pirotĂ©cnicos.
TambĂ©m no ano passado, no inĂcio, de dezembro, 25 pessoas morreram em um incĂȘndio em uma boate popular na regiĂŁo costeira de Goa, na Ăndia. O motivo teria sido um cilindro de gĂĄs explodiu na cozinha.
Em abril, o teto de uma casa de shows desabou em Santo Domingo, na RepĂșblica Dominicana, deixando 232 mortos.
No Brasil, o caso mais emblemĂĄtico Ă© o da Boate Kiss, em Santa Maria, no interior do Rio Grande do Sul. Na madrugada de 27 de janeiro de 2013, 242 pessoas morreram devido a um incĂȘndio dentro da boate causado por um artefato pirotĂ©cnico.
Em 30 de dezembro de 2004, um incĂȘndio matou 194 pessoas na boate RepĂșblica Cromañón, em Buenos Aires, capital argentina. O incĂȘndio começou com o uso de fogos de artifĂcio pela banda de rock que se apresentava no local.
Na cidade de Perm, na RĂșssia, um show com fogos de artifĂcio dentro da boate Lame Horse provocou uma explosĂŁo que deixou 154 mortos em 4 de dezembro de 2009.
Mais recentemente, em outubro de 2015, 64 pessoas morreram num incĂȘndio na boate Colectiv, em Bucareste, capital da RomĂȘnia, tambĂ©m devido a fogos de artifĂcio.


