No regime democrĂĄtico, as emendas parlamentares sĂŁo, em essĂȘncia, um instrumento legĂtimo. Elas representam a possibilidade de deputados e senadores devolverem Ă s suas bases eleitorais parte do apoio polĂtico recebido nas urnas, transformando votos em recursos que podem impulsionar demandas locais e regionais.
Dentro desse espĂrito, ninguĂ©m em sĂŁ consciĂȘncia Ă© contra as emendas parlamentares.
O problema nĂŁo estĂĄ na existĂȘncia delas, mas na sua deformação sistĂȘmica em um modelo que tem transformado o orçamento pĂșblico em um balcĂŁo de negociação polĂtica e em terreno fĂ©rtil para irregularidades.
A nova safra de 2026 de operaçÔes da PolĂcia Federal deixa isso ainda mais claro.
Em 13 de janeiro de 2026, a PolĂcia Federal, com apoio da Controladoria-Geral da UniĂŁo e da Receita Federal, deflagrou a nona fase da Operação Overclean, que investiga uma organização criminosa dedicada ao suposto desvio de recursos de emendas parlamentares, corrupção e lavagem de dinheiro. O deputado federal FĂ©lix Mendonça JĂșnior (PDT-BA), que jĂĄ havia sido alvo em fases anteriores da investigação, voltou Ă mira das autoridades. A ação cumpriu mandados de busca e apreensĂŁo na Bahia e no Distrito Federal, e o Supremo Tribunal Federal determinou o bloqueio de R$ 24 milhĂ”es em contas de pessoas fĂsicas e jurĂdicas ligadas ao caso. HĂĄ indĂcios de que cerca de R$ 4 milhĂ”es em emendas parlamentares teriam sido desviados para contratos e licitaçÔes sob suspeita de fraude e irregularidades.
Poucos dias depois, em 29 de janeiro de 2026, a PolĂcia Federal, em parceria com a Controladoria-Geral da UniĂŁo, deflagrou a Operação Graco no Acre. O alvo principal foi o deputado federal Eduardo Velloso (UniĂŁo Brasil-AC). Investigadores cumpriram 14 mandados de busca e apreensĂŁo no Acre e em BrasĂlia para apurar supostas irregularidades na aplicação de quase R$ 912 mil provenientes de emendas parlamentares, as chamadas âemendas Pixâ, em contratos para a realização de shows em Sena Madureira.
Esses episĂłdios nĂŁo sĂŁo casos isolados, mas parte de uma tendĂȘncia de resultados controversos: com cerca de R$ 60 bilhĂ”es por ano destinados a emendas parlamentares no orçamento federal, o Poder Executivo fica com uma margem reduzida para investimentos estratĂ©gicos em setores essenciais como saĂșde, educação, infraestrutura e segurança. A lĂłgica fragmentada de distribuição desses recursos impede planejamento integrado, reduz a capacidade de atuação estatal e favorece prĂĄticas de clientelismo e captura de recursos por interesses particulares.
O que se cobra â e Ă© uma demanda legĂtima â Ă© transparĂȘncia e controle: projetos executivos devidamente apresentados, com cronogramas, planilhas de custos, metas e indicadores; critĂ©rios tĂ©cnicos que conectem cada emenda a objetivos pĂșblicos claros; e prestação de contas pĂșblica e auditĂĄvel. Sem isso, recursos esquecidos em municĂpios sem projeto, obras paralisadas ou contratos julgados suspeitos tornam-se frequentes.
Quando tais requisitos mĂnimos sĂŁo ignorados, abre-se espaço para irregularidades que a PolĂcia Federal e os ĂłrgĂŁos de controle tĂȘm evidenciado nessa nova etapa de investigaçÔes: empresas de fachada, licitaçÔes direcionadas, operadores financeiros usados para lavar dinheiro pĂșblico, e recursos que retornam a setores polĂticos em forma de apoio ou vantagem.
Longe de ser uma âatuação policialescaâ, a intervenção das autoridades reflete o vĂĄcuo de controle interno que se consolidou no regime orçamentĂĄrio. O Supremo Tribunal Federal tem autorizado diligĂȘncias porque o sistema de emendas carece de controles que deem conta da complexidade e do volume de dinheiro envolvido.
O que estĂĄ em jogo nĂŁo Ă© apenas o direito de parlamentares indicarem recursos, mas a obrigação constitucional de submeter gastos pĂșblicos a regras claras de execução, fiscalização e responsabilização.
Sem projeto, nĂŁo hĂĄ emenda.
Sem execução transparente, não hå democracia.
Sem prestação de contas, nĂŁo hĂĄ confiança pĂșblica.
O Brasil nĂŁo precisa acabar com as emendas parlamentares â precisa resgatĂĄ-las da captura polĂtica, devolvendo-as ao seu verdadeiro propĂłsito: servir ao interesse pĂșblico, nĂŁo aos interesses de balcĂŁo.
*ZĂ© AmĂ©rico Ă© Jornalista e consultor em Marketing PolĂtico

