Revitalizar o Rio Acre precisa ser uma política de Estado, diz José Américo em artigo

O Rio Acre nĂŁo pode continuar sendo tratado apenas como um problema, seja na seca ou nas enchentes

Por José Américo, ContilNet 02/01/2026 Atualizado: hå 4 meses

As recorrentes e cada vez mais intensas cheias do Rio Acre deixaram de ser um evento excepcional para se tornar um problema estrutural. A cada novo inverno amazĂŽnico, cresce a apreensĂŁo da população, especialmente em Rio Branco, diante da possibilidade de transbordamentos que atingem bairros inteiros, desabrigam famĂ­lias, interrompem serviços pĂșblicos e impĂ”em elevados custos sociais e financeiros. As previsĂ”es de chuvas intensas para 2026 reforçam um alerta inadiĂĄvel: se nada for feito de forma estruturante, as enchentes tendem a se tornar mais frequentes, mais rĂĄpidas e mais destrutivas.

Revitalizar o Rio Acre precisa ser uma política de Estado, diz José Américo em artigo

Rio Acre/Foto: Reprodução

É preciso reconhecer que o atendimento emergencial Ă s populaçÔes atingidas Ă© fundamental e indispensĂĄvel. AçÔes como abrigamento, assistĂȘncia social, atendimento em saĂșde e garantia de alimentação salvam vidas e reduzem o sofrimento imediato. No entanto, por mais necessĂĄrias que sejam, essas medidas nĂŁo podem continuar sendo a Ășnica resposta do Estado. Tratar enchentes apenas como emergĂȘncias recorrentes Ă© aceitar a repetição da tragĂ©dia e institucionalizar o improviso.

O cenĂĄrio atual nĂŁo Ă© fruto apenas das chuvas intensas. Ele Ă© consequĂȘncia direta de dĂ©cadas de descaso com o Rio Acre. Ao longo do processo de ocupação do territĂłrio, o rio foi transformado em receptor de esgoto sanitĂĄrio, resĂ­duos industriais e mĂșltiplas agressĂ”es ambientais. Soma-se a isso a destruição das matas ciliares, vegetação essencial que protege as margens de rios, igarapĂ©s e mananciais, garantindo estabilidade ao solo e equilĂ­brio ao curso d’água.

A degradação das matas ciliares acelerou um dos principais fatores de agravamento das enchentes: o assoreamento do leito do rio. Sem a proteção vegetal, o solo das margens é facilmente erodido e depositado no fundo do rio, tornando-o cada vez mais raso e reduzindo sua capacidade de vazão. Assim, volumes de ågua que antes seriam absorvidos pelo próprio curso passam a transbordar com rapidez, causando alagamentos severos e sucessivos.

Diante dessa realidade, a revitalização do Rio Acre precisa ser assumida como uma política de Estado, permanente e contínua, que vå além de gestÔes e calendårios eleitorais. Revitalizar o rio significa recuperar as matas ciliares, despoluir suas åguas, ampliar e modernizar o tratamento de esgoto, controlar rigorosamente o lançamento de resíduos e ordenar de forma responsåvel o uso do solo em toda a bacia hidrogråfica.

Uma polĂ­tica consistente de revitalização nĂŁo elimina as cheias, mas reduz drasticamente seus impactos. Permite uma convivĂȘncia mais segura com as elevaçÔes do nĂ­vel do rio, diminui prejuĂ­zos materiais, protege vidas e fortalece a resiliĂȘncia urbana frente Ă s mudanças climĂĄticas. TambĂ©m promove ganhos ambientais, sociais e econĂŽmicos, beneficiando populaçÔes ribeirinhas, a cidade e o estado como um todo.

O Rio Acre nĂŁo pode continuar sendo tratado apenas como um problema, seja na seca ou nas enchentes. Ele precisa ser visto como um patrimĂŽnio ambiental e social estratĂ©gico. Socorrer Ă© necessĂĄrio. Prevenir Ă© urgente. E revitalizar o rio Ă© o Ășnico caminho capaz de romper o ciclo de perdas, sofrimento e reconstrução que se repete ano apĂłs ano. Transformar essa agenda em compromisso permanente Ă© uma escolha polĂ­tica que definirĂĄ o futuro do Acre.

*Zé Américo Silva é jornalista e consultor de Marketing Político

 

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