As recorrentes e cada vez mais intensas cheias do Rio Acre deixaram de ser um evento excepcional para se tornar um problema estrutural. A cada novo inverno amazĂŽnico, cresce a apreensĂŁo da população, especialmente em Rio Branco, diante da possibilidade de transbordamentos que atingem bairros inteiros, desabrigam famĂlias, interrompem serviços pĂșblicos e impĂ”em elevados custos sociais e financeiros. As previsĂ”es de chuvas intensas para 2026 reforçam um alerta inadiĂĄvel: se nada for feito de forma estruturante, as enchentes tendem a se tornar mais frequentes, mais rĂĄpidas e mais destrutivas.
Ă preciso reconhecer que o atendimento emergencial Ă s populaçÔes atingidas Ă© fundamental e indispensĂĄvel. AçÔes como abrigamento, assistĂȘncia social, atendimento em saĂșde e garantia de alimentação salvam vidas e reduzem o sofrimento imediato. No entanto, por mais necessĂĄrias que sejam, essas medidas nĂŁo podem continuar sendo a Ășnica resposta do Estado. Tratar enchentes apenas como emergĂȘncias recorrentes Ă© aceitar a repetição da tragĂ©dia e institucionalizar o improviso.
O cenĂĄrio atual nĂŁo Ă© fruto apenas das chuvas intensas. Ele Ă© consequĂȘncia direta de dĂ©cadas de descaso com o Rio Acre. Ao longo do processo de ocupação do territĂłrio, o rio foi transformado em receptor de esgoto sanitĂĄrio, resĂduos industriais e mĂșltiplas agressĂ”es ambientais. Soma-se a isso a destruição das matas ciliares, vegetação essencial que protege as margens de rios, igarapĂ©s e mananciais, garantindo estabilidade ao solo e equilĂbrio ao curso dâĂĄgua.
A degradação das matas ciliares acelerou um dos principais fatores de agravamento das enchentes: o assoreamento do leito do rio. Sem a proteção vegetal, o solo das margens é facilmente erodido e depositado no fundo do rio, tornando-o cada vez mais raso e reduzindo sua capacidade de vazão. Assim, volumes de ågua que antes seriam absorvidos pelo próprio curso passam a transbordar com rapidez, causando alagamentos severos e sucessivos.
Diante dessa realidade, a revitalização do Rio Acre precisa ser assumida como uma polĂtica de Estado, permanente e contĂnua, que vĂĄ alĂ©m de gestĂ”es e calendĂĄrios eleitorais. Revitalizar o rio significa recuperar as matas ciliares, despoluir suas ĂĄguas, ampliar e modernizar o tratamento de esgoto, controlar rigorosamente o lançamento de resĂduos e ordenar de forma responsĂĄvel o uso do solo em toda a bacia hidrogrĂĄfica.
Uma polĂtica consistente de revitalização nĂŁo elimina as cheias, mas reduz drasticamente seus impactos. Permite uma convivĂȘncia mais segura com as elevaçÔes do nĂvel do rio, diminui prejuĂzos materiais, protege vidas e fortalece a resiliĂȘncia urbana frente Ă s mudanças climĂĄticas. TambĂ©m promove ganhos ambientais, sociais e econĂŽmicos, beneficiando populaçÔes ribeirinhas, a cidade e o estado como um todo.
O Rio Acre nĂŁo pode continuar sendo tratado apenas como um problema, seja na seca ou nas enchentes. Ele precisa ser visto como um patrimĂŽnio ambiental e social estratĂ©gico. Socorrer Ă© necessĂĄrio. Prevenir Ă© urgente. E revitalizar o rio Ă© o Ășnico caminho capaz de romper o ciclo de perdas, sofrimento e reconstrução que se repete ano apĂłs ano. Transformar essa agenda em compromisso permanente Ă© uma escolha polĂtica que definirĂĄ o futuro do Acre.
*ZĂ© AmĂ©rico Silva Ă© jornalista e consultor de Marketing PolĂtico
Â


