A vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez, tomou posse como presidente interina nesta segunda-feira (5), em cerimônia realizada na Assembleia Nacional. A sucessão acontece dois dias após a captura de Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos, em uma operação militar que alterou o eixo político do país. O juramento de Delcy foi conduzido por Jorge Rodríguez, presidente do Legislativo e seu irmão. O filho do ex-presidente, Nicolás Maduro Guerra, também esteve presente.
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Durante a cerimônia, Delcy afirmou assumir o comando “com dor, mas com honra”. Aos 56 anos, ela figura como uma das lideranças mais influentes do chavismo, com atuação destacada na área econômica. A ausência mais notada foi a da primeira-dama e deputada Cilia Flores, atualmente sob custódia das autoridades americanas.
Por que os EUA aceitaram Delcy como líder interina
A escolha de Delcy como liderança aceitável por Washington não foi improvisada. Relatos indicam que intermediários convenceram o governo de Donald Trump de que ela garantiria proteção a futuros investimentos americanos no setor de energia — ponto crucial para a política externa dos EUA na região. A atuação dela na indústria petrolífera venezuelana chamou atenção de autoridades americanas, que passaram a vê-la como uma alternativa mais pragmática do que Maduro, ainda que não a considerem solução definitiva para o país.
Um alto funcionário do governo dos EUA afirmou acompanhar há anos a trajetória de Delcy e avaliou que, mesmo não sendo vista como líder ideal, ela representa uma figura mais “profissional e previsível” para negociações.
Relação tensa com Washington e disputa interna
Embora tenha sido aceita pelos EUA, Delcy manteve o discurso de que Maduro continua sendo o líder legítimo da Venezuela, acusando Washington de promover uma “invasão ilegal”. A postura busca acalmar setores do chavismo e das Forças Armadas, profundamente abalados com a ofensiva americana. Ainda assim, os EUA já sinalizaram que manterão pressão, incluindo sanções e controle sobre operações petrolíferas.
O secretário de Estado Marco Rubio afirmou que o relacionamento com o governo interino dependerá das “decisões certas” tomadas por Delcy — e que os EUA manterão ferramentas de pressão caso seus interesses não sejam atendidos.
Trajetória e influência dentro do chavismo
Delcy Rodríguez construiu, ao longo dos anos, uma imagem de tecnocrata capaz de dialogar com empresários, diplomatas e investidores estrangeiros. Foi essencial para estabilizar parte da economia venezuelana e promover a recuperação gradual da produção de petróleo, mesmo com sanções severas. Essa atuação lhe rendeu respeito até entre autoridades americanas.
Filha de um guerrilheiro marxista que ganhou notoriedade por sequestrar um empresário americano, Delcy estudou parte da vida na França, especializou-se em direito trabalhista e ocupou cargos de médio e alto escalão nos governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro. Seu irmão, Jorge Rodríguez, foi fundamental para sua ascensão dentro da estrutura chavista.
Desafios e expectativas para o governo interino
Apesar da reputação técnica, Delcy nunca rompeu com a estrutura repressiva e os escândalos de corrupção que marcaram o governo Maduro. Críticos a veem como parte essencial do regime, enquanto lideranças empresariais afirmam, nos bastidores, que ela possui capacidade para promover crescimento econômico se conseguir flexibilizar sanções impostas pelos EUA.
Analistas avaliam que sua chegada ao poder abre um período de incerteza, mas também de possíveis negociações políticas. Juan Francisco García, ex-parlamentar governista, disse que a nova presidente interina merece o “benefício da dúvida”, destacando que transições democráticas já foram conduzidas por figuras oriundas de regimes autoritários.
Com a Venezuela sob impacto da operação militar americana e da captura de Maduro, Delcy inicia seu governo provisório tentando equilibrar interesses externos, tensões internas e a urgência de estabilizar o país.
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