O futebol brasileiro ocupa um espaço singular na vida social do país. Ao mesmo tempo em que mobiliza paixões, projeta referências públicas e influencia a forma como valores coletivos são construídos e percebidos. Por isso, acontecimentos envolvendo clubes e atletas frequentemente ultrapassam o campo esportivo e provocam reflexões sociais inevitáveis.
Quando episódios graves relacionados à violência, especialmente contra mulheres, emergem nesse contexto, o debate deixa de ser apenas esportivo e passa a envolver responsabilidade social, ética institucional e os exemplos projetados para a sociedade.
Duas notícias recentes envolvendo o tradicional clube Associação Desportiva Vasco da Gama, do Acre, chamaram atenção não apenas pelos fatos em si, mas pela coincidência temporal em que ocorreram:
- A primeira trata da contratação do goleiro Bruno, condenado pela Justiça pela morte de Eliza Samúdio. Embora esteja em livramento condicional após condenação definitiva, a memória social acerca da gravidade do crime reacende debates sobre ressocialização e os limites da reinserção no esporte profissional.
- A segunda refere-se à investigação sobre um possível estupro coletivo ocorrido nos alojamentos da sede do clube, conforme divulgado pela imprensa, com prisões decretadas. O clube informou ter adotado medidas administrativas internas para apuração dos fatos e aguarda o desenvolvimento das investigações criminais.
Se, por um lado, a contratação de um atleta condenado por crime grave suscita questionamentos sobre critérios institucionais e responsabilidade social, por outro, é indispensável que, diante de investigações em curso, prevaleçam o respeito ao devido processo legal e às garantias fundamentais.
Nesse cenário, devem ser observados princípios constitucionais como a presunção de inocência (art. 5º, LVII, da Constituição Federal) e o direito à ampla defesa e ao contraditório (art. 5º, LV), evitando julgamentos antecipados. A apuração dos fatos exige seriedade, responsabilidade e respeito às bases do Estado Democrático de Direito.
Contudo, caso as acusações venham a ser confirmadas, espera-se a adoção de medidas firmes e proporcionais à gravidade dos fatos, incluindo a rescisão contratual e eventuais sanções no âmbito esportivo. Também se espera das entidades esportivas (estaduais, nacionais e internacionais) posicionamentos compatíveis com a responsabilidade social que o esporte exige.
O futebol exerce forte influência social. Atletas tornam-se referências públicas e, muitas vezes, modelos para crianças e adolescentes que acompanham o esporte com admiração. Nesse sentido, as notícias que realmente gostaríamos de ver são aquelas que refletem investimentos consistentes na base do esporte: construção e reforma de quadras e campos nos estados, acesso ampliado a espaços seguros de prática esportiva e apoio a projetos de formação de novos talentos.
No Acre, essas iniciativas têm recebido atenção e investimentos, contribuindo para a inclusão social, o desenvolvimento esportivo e a prevenção da violência. Quando o esporte se apresenta como alternativa real de pertencimento e oportunidade, ele deixa de ser apenas espetáculo e passa a atuar como instrumento de transformação social, com efeitos positivos que se consolidam ao longo do tempo.
Em uma sociedade que enfrenta desafios persistentes relacionados à violência, especialmente contra mulheres, discussões dessa natureza deixam de ser apenas circunstanciais e passam a ser necessárias.
Surge, então, uma questão central: qual deve ser o papel do futebol e do Estado diante da ressocialização de indivíduos envolvidos em crimes graves?
A reintegração social constitui princípio legítimo do sistema jurídico brasileiro, alinhado à dignidade da pessoa humana (art. 1º, III, da Constituição Federal). Entretanto, o esporte profissional possui responsabilidades próprias, decorrentes da visibilidade e da influência que exerce sobre milhões de pessoas.
Até onde vai a idolatria por um jogador? Até onde podem chegar os interesses financeiros e midiáticos envolvidos nas decisões esportivas? São perguntas que não admitem respostas simples, mas exigem reflexão pública madura.
No fim, as escolhas feitas dentro do futebol revelam menos sobre o jogo em si e mais sobre os valores que decidimos afirmar como sociedade.
Felipe Hid é jornalista e advogado, com experiência em comunicação institucional e na análise de temas jurídicos e sociais.
