“Educação mudou minha vida”: ex-aluna da rede pública do Acre desenvolve doutorado na Itália

O dia 15 de março é marcado pela celebração do Dia da Escola

Vitória desenvolve parte da sua tese na cidade de Ancona, na Itália
Vitória desenvolve parte da sua tese na cidade de Ancona, na Itália/Foto: cedida

Neste domingo, 15 de março, celebra-se o Dia da Escola. No Acre, uma história em especial personifica o significado desta data: a trajetória de Vitória Henrylla, uma jovem de 26 anos que, partindo das escolas públicas da Baixada da Sobral, em Rio Branco, hoje desenvolve parte de sua pesquisa de doutorado na cidade de Ancona, na Itália.

Vitória percorreu todo o caminho do ensino básico em instituições públicas: iniciou no pré-escolar no Monteiro Lobato, passou pelo ensino fundamental nas escolas Maria Raimunda Balbino e Marilda Gouveia Viana, e concluiu o ensino médio no tradicional José Rodrigues Leite, em Rio Branco.

Foi na 8ª série que sua vida acadêmica ganhou um novo contorno. Em 2013, Vitória conquistou sua primeira medalha de bronze na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP). O prêmio abriu as portas para o Programa de Iniciação Científica Júnior (PIC), onde ela recebia uma bolsa de R$ 100 para estudar raciocínio lógico aos sábados na Universidade Federal do Acre (Ufac).

“Na Marilda Gouveia Viana, foi onde eu comecei a ter um desempenho acadêmico mais notável, no caso, na minha última série, que era a chamada de oitava série na época. Eu fui medalhista da OBMEP. Eu fui, na época, a primeira medalhista da Olimpíada da escola. Eu tive a medalha de bronze em 2013. No mesmo ano, eu participei de uma competição que era uma para selecionar delegados para participar de uma conferência juvenil pelo meio ambiente”, lembrou Vitória.

Vitória e sua família em Rio Branco no último Natal

Vitória e sua família em Rio Branco no último Natal/Foto: cedida

“Passei em todas as etapas e fui selecionada e viajei junto com os outros delegados. Foi meu primeiro contato fora da cidade, porque eu nunca tinha viajado. No ano seguinte eu passei a participar de um projeto que é chamado PIC. Quando você ganha uma medalha da OBMEP, no ano seguinte eles te selecionam, e você começa a fazer um curso voltado a habilidades de matemática para você se aperfeiçoar e você ganha uma pequena mensalidade. Foi a primeira vez que recebi algo relacionado ao estudo”, continuou.

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Vitória lembra quando ingressou no mercado de trabalho, ainda no ensino médio. “Consegui manter as notas excelentes, então fiz o Enem e entrei na Ufac em matemática e comecei a ter acesso a muitas bolsas para conseguir me manter no curso”, disse.

A trajetória da jovem é um exemplo de como as políticas de auxílio estudantil são fundamentais. Durante a graduação em Matemática na Ufac, ela contou com bolsas do programa Programa de Educação Tutorial (PET) e outros auxílios voltados à estudantes com baixa renda para se manter.

Acreana apresentando a pesquisa em evento científico

Acreana apresentando a pesquisa em evento científico/Foto: cedida

Após a graduação, os desafios aumentaram com a pandemia, o que a levou a tentar o mestrado na Universidade de Brasília (UnB). Lá, ela se especializou em Matemática Pura, área focada em cálculos avançados. Hoje, cursando o doutorado acadêmico em matemática na UnB, ela é bolsista do PICME, um programa coordenado pelo IMPA (Instituto de Matemática Pura e Aplicada) em parceria com a CAPES.

“Teve a pandemia e, infelizmente, eu tive que mudar meus planos e eu decidi tentar na UnB. Os primeiros dois semestres eu fiz no Acre, no modelo EAD, e os outros três semestres eu fui para Brasília e aí eu concluí o mestrado lá. Atualmente, eu e meu orientador conseguimos nos inscrever em um projeto da CNPQ para conseguir recursos para diversos projetos. Um desses projetos envolvia bolsas sanduíche, que é o nome da bolsa atual que eu estou, que me permitiu sair do país”, explicou.

Defesa da tese de mestrado de Vitória

Defesa da tese de mestrado de Vitória/Foto: cedida

Atualmente, Vitória vive uma experiência que nunca imaginou: o doutorado sanduíche – é um programa de estudos no qual o estudante de pós realiza parte de seu trabalho em uma universidade no exterior. Através de uma bolsa da CNPq, ela passará 10 meses na Itália pesquisando Equações Diferenciais Parciais, uma subárea da Análise Matemática.

“Saí de Rio Branco direto para o inverno europeu. No início foi difícil a adaptação com o frio e o fuso horário, mas estar aqui é maravilhoso. Conheci Roma e Pisa; para um matemático, ver a inclinação da Torre de Pisa é fantástico. Está sendo muito bom, porque aqui é uma realidade muito diferente. A cidade é uma coisa de outro mundo, são aquelas coisas que a gente estava acostumada a ver na TV e a gente acha que nunca vai presenciar e estar daquele lado da televisão conhecendo essas coisas”, conta a pesquisadora, que pretende retornar ao Brasil com artigos publicados e sua tese avançada.

Vitória visitando a Torre de Pisa

Vitória visitando a Torre de Pisa/Foto: cedida

Vitória não esquece suas raízes e o impacto que a educação teve em sua vida. De família humilde, ela viu na ciência a oportunidade de conquistar independência e qualidade de vida. Seu objetivo após concluir o doutorado em Matemática, na área de análise com ênfase em Equações Diferenciais Parciais Elípticas, em julho de 2027, é ingressar na carreira docente em universidades ou institutos federais, onde possa unir o ensino à pesquisa.

Vitória vai passar 10 meses em Ancona, na Itália

Vitória vai passar 10 meses em Ancona, na Itália/Foto: cedida

“A educação mudou minha vida e eu espero mudar a vida de outras pessoas no futuro. Quero ser uma profissional que mostre que esses espaços também pertencem a quem vem da escola pública. Eu acho que tudo que acontece na minha vida, tudo parte da educação. Tudo isso que está sendo construído é com a educação. Eu já acho que a qualidade de vida que eu tenho hoje é muito melhor do que eu imaginava ter lá quando eu era uma adolescente”, finaliza.

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