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“Existir como mulher é minha maior celebração”, diz professora ao relembrar trajetória

Por Anne Nascimento, ContilNet

Maria Saliza é cantora e professora. Foto: arquivo pessoal

Para a professora e artista Maria Saliza, o Dia Internacional da Mulher é mais do que uma data simbólica no calendário; na verdade, representa um momento de olhar para a própria trajetória, marcada por desafios, acolhimento e conquistas que ajudaram a afirmar sua identidade e seu lugar na sociedade. Ao lembrar o caminho percorrido até aqui, ela destaca ao ContilNet, neste domingo (8), a importância da coragem de existir e da luta coletiva que abriu portas para que mais mulheres ocupem diferentes espaços.

Segundo Maria Saliza, o 8 de março sempre desperta reflexões profundas sobre sua história. Mulher trans, ela afirma que a data funciona como um momento de reconhecimento das batalhas travadas e das conquistas alcançadas ao longo dos anos.“O Dia Internacional da Mulher, para mim, é um dia em que eu celebro a minha existência. Querendo ou não, passa uma história inteira pela minha cabeça. Eu lembro de toda a minha trajetória até aqui, de tudo o que eu lutei e de tudo o que eu conquistei”, afirma.

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Ela recorda, especialmente, do primeiro Dia da Mulher depois de começar a se reconhecer socialmente dessa forma. Na época, poucas pessoas sabiam sobre sua transição, mas o acolhimento que recebeu de outras mulheres marcou profundamente aquele momento. “Eu fiquei muito impactada com o acolhimento que recebi das outras mulheres. Aquilo me encheu de alegria. Mesmo com poucas pessoas sabendo da minha transição, fui recebida com muito carinho”, relembra.

Segundo Maria, esse apoio foi fundamental para que ela se sentisse mais segura para seguir em frente. Com o passar do tempo, quando sua identidade se tornou pública, o carinho e o reconhecimento aumentaram ainda mais.

Ambiente escolar também se tornou um espaço importante de acolhimento e reconhecimento. Foto: Reprodução/Redes sociais.

Reconhecimento no trabalho

Atualmente atuando como professora, ela conta que o ambiente escolar também se tornou um espaço importante de acolhimento e reconhecimento. Na escola onde trabalha, o Dia Internacional da Mulher costuma ser lembrado com homenagens e mensagens de carinho. “Receber esse tipo de reconhecimento em um espaço público como a escola, com mensagens de alunos, colegas e pessoas que admiram meu trabalho e também a minha arte, sempre me toca muito. Isso me dá a sensação de que estou no lugar certo”, diz.

Apesar das conquistas, Maria Saliza afirma que alguns desafios ainda fazem parte de sua história. Curiosamente, segundo ela, o maior deles não surgiu no ambiente social ou profissional, mas dentro da própria família.

“Hoje eu já recebo aceitação de grande parte da minha família, muitas pessoas já entendem quem eu sou e me respeitam como mulher. Mas ainda existem pessoas que não conseguem compreender”, relata.

Ela afirma que muitos episódios de preconceito e desrespeito ocorreram justamente dentro desse ambiente, que deveria ser de acolhimento. “Muitas vezes as pessoas aceitam melhor quando isso acontece na casa do vizinho. Quando é algo distante, parece mais fácil. Mas quando acontece dentro da própria família, surgem muitas resistências”, explica.

Além de lecionar, ela também é mestranda em uma universidade federal e desenvolve trabalhos artísticos ligados à música. Foto: Reprodução/Redes sociais

Mesmo diante dessas dificuldades, Maria reconhece que houve avanços importantes nos últimos anos em relação ao reconhecimento da diversidade e à presença de pessoas trans em diferentes espaços.

Batalha diária

Além de lecionar, ela também é mestranda em uma universidade federal e desenvolve trabalhos artísticos ligados à música. Para ela, ocupar esses lugares representa uma conquista coletiva construída ao longo do tempo por muitas pessoas que vieram antes. “Eu reconheço que também sou fruto da luta de muitas mulheres trans e travestis que vieram antes de mim. Hoje eu consigo acessar espaços que antes eram negados para pessoas como nós”, afirma.

Ainda assim, ela ressalta que a realidade de muitas pessoas trans no Brasil continua sendo marcada por dificuldades de acesso à educação, ao trabalho e a políticas públicas básicas.

Por isso, Maria acredita que sua história pode servir como incentivo para que outras mulheres não desistam de si mesmas.

“Se a minha história puder inspirar alguém, eu espero que seja para lembrar que nenhuma mulher deve desistir de si mesma. As mulheridades são muito diversas. Não existe uma única forma de ser mulher”, diz.

Para ela, permitir que o próprio corpo se expresse e ocupar espaços com autenticidade é uma forma de resistência diante do preconceito.“Não deixe que o preconceito do mundo apague a verdade que existe dentro de você. Muitas vezes é a nossa própria existência que começa a desmontar ideias preconcebidas. Existir com coragem é, muitas vezes, a nossa maior forma de resistência”, conclui.

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