Cientistas investigam colapso simultâneo de civilizações no Acre e dos Maias

Geoglifos reforçam evidências de civilização complexa que habitou o Acre

Os geoglifos são constituídos de diversas formas geométricas/ Foto: Diego Gurgel/Secom

Um conteúdo publicado  nesta semana na Revista Amazônia, a respeito dos misteriosos geoglifos da Amazônia têm levantado uma questão intrigante para os cientistas: por que sociedades complexas que viveram no atual território do Acre desapareceram praticamente no mesmo período em que a civilização Maia entrou em declínio na Mesoamérica.

Os estudos apontam que ambos os povos atingiram o auge entre 250 a.C. e 950 d.C. e, por volta do século X, seus grandes centros foram abandonados. Embora não existam evidências de contato direto entre os construtores dos geoglifos amazônicos e os habitantes da região de Yucatán, no México, pesquisadores investigam se fatores de escala continental podem explicar essa coincidência histórica. Entre as hipóteses estão eventos climáticos extremos que afetaram amplas regiões das Américas ou até surtos de doenças pré-colombianas capazes de provocar um colapso simultâneo dessas sociedades.

A investigação ganhou novos elementos após a descoberta de dezenas de estruturas antigas escondidas sob a floresta amazônica. Em maio de 2025, o projeto “Desvelando o passado profundo” revelou 124 novos geoglifos no sul da Amazônia, principalmente no Acre e no município de Boca do Acre, no Amazonas.

O avanço foi possível graças ao uso da tecnologia LIDAR (Light Detection and Ranging), um sistema que utiliza feixes de laser para mapear o terreno mesmo sob a copa das árvores. Com o método, os pesquisadores conseguiram identificar formas geométricas invisíveis a olho nu em meio à vegetação densa.

Entre os achados está uma estrutura monumental que se estende por cerca de um quilômetro, considerada uma das maiores já registradas na região. O tamanho e a precisão dessas construções indicam que a Amazônia pré-colombiana foi habitada por sociedades altamente organizadas, capazes de planejar obras complexas e de grande escala.

As estruturas datam de aproximadamente 1000 a.C. a 1000 d.C. e apresentam formatos geométricos rigorosos, como círculos, quadrados e retângulos escavados com grande precisão. Para os pesquisadores, esse padrão revela um nível avançado de conhecimento matemático e organização social entre os antigos habitantes da região, associados ao povo Aquiry.

Os estudos também indicam que os geoglifos não funcionavam como aldeias permanentes ou estruturas militares.

Os estudos também indicam que os geoglifos não funcionavam como aldeias permanentes ou estruturas militares | Foto: Diego Gurgel, Secom

A pesquisa é conduzida pelo paleontólogo Alceu Ranzi e pelo arqueólogo Martti Pärssinen. Agora, os cientistas trabalham na datação por Carbono-14 para compreender melhor como essas comunidades viviam e quais fatores podem ter levado ao desaparecimento repentino dessas populações.

Os estudos também indicam que os geoglifos não funcionavam como aldeias permanentes ou estruturas militares. Evidências arqueológicas apontam que esses espaços serviam principalmente para encontros cerimoniais. As grandes áreas geométricas teriam funcionado como centros de reunião onde diferentes grupos realizavam rituais, alianças políticas e festividades.

Vestígios encontrados, como cerâmicas elaboradas e restos de grandes banquetes, sugerem que essas ocasiões incluíam consumo de bebidas fermentadas e eventos coletivos destinados a reforçar laços sociais e o prestígio de chefes e líderes espirituais.

Entre as atividades registradas estavam também jogos de bola com objetos feitos de borracha maciça, que podiam chegar a cerca de 11 quilos. Os participantes utilizavam pés e cabeça para movimentar a bola em arenas que impressionavam pela dimensão e organização.

Para povos indígenas atuais da região, como os Apurinã, esses locais são conhecidos como kymyrury, considerados moradas sagradas de ancestrais e espíritos da natureza. As estruturas, conectadas por largas estradas antigas, eram vistas como espaços que ligavam o mundo humano ao espiritual.

 

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