A régua ideológica, fundamental para entendermos como estão posicionados os políticos que elegemos, não se aplica bem no Acre quando a corrida eleitoral começa e os políticos precisam garantir seus mandatos.
Para ganhar eleições, fazer conchavos é fundamental; por isso, abre-se mão dos discursos sobre como deve funcionar a economia, qual o peso dos costumes e o que pode ou não ser considerado família, por exemplo. Forma-se um verdadeiro “balaio de gatos” a ponto de não existirem mais fronteiras ideológicas nos palanques montados.
Nessa novela acreana, marcada por incoerências, há políticos da extrema-direita aliados a partidos de centro-esquerda que sempre rechaçaram a ditadura militar no Brasil. Além disso, figuras que se apresentaram como sendo de esquerda a vida inteira estão no mesmo palanque que liberais conservadores, quase vestindo verde e amarelo e abraçando uma obra de Olavo de Carvalho.
Como diz a pensadora Rita Von Hunty: “Não há diferença substancial entre esquerda e direita na gestão da política institucional.” E há um grande erro, talvez, em ver isso como uma superação da binariedade ideológica. Isso provavelmente está mais relacionado ao que os juristas chamam de garantismo de ocasião. “A gente não se junta porque se identifica politicamente e quer construir um projeto coletivo, mas porque, estrategicamente, cada um quer fazer seu pé-de-meia da melhor forma possível, ainda que abra mão do que verdadeiramente acredita.” Ninguém segura a mão de ninguém.
Não considero que isso se resume apenas ao Acre. Sei que este é um sintoma mórbido (conceito de Gramsci bem trabalhado pela socióloga brasileira Sabrina Fernandes) do Brasil como um todo. Porém, por essas terras de muro baixo, o cenário atual de “sai e entra de partido”, devido ao prazo da janela eleitoral (período dado pelo TSE para políticos que desejam trocar de sigla e disputar mandatos), além das alianças em prol de determinadas candidaturas, é um clássico exemplo do que estou abordando aqui.
É muito importante ficar atento a quem coloca a conquista de mandato — a qualquer custo —, as aspirações individuais e alianças à frente dos anseios do verdadeiro titular do poder: o povo.
Quem tem ouvidos, ouça! Gal Costa parece já ter cantado isso: “Tudo é perigoso. Tudo é divino e maravilhoso. Atenção para o refrão…”.
