No mês dedicado às mulheres, a secretária de Estado da Mulher do Acre, Mardhia El Shawwa, concedeu entrevista exclusiva ao ContilNet nesta semana e falou sobre os desafios no combate à violência de gênero, o avanço dos casos de feminicídio e as estratégias adotadas pelo governo para enfrentar o problema. A gestora reconheceu que, apesar dos avanços nas políticas públicas, os números ainda preocupam e exigem ações mais amplas e contínuas.
Logo no início da entrevista, Mardhia destacou que o enfrentamento à violência contra a mulher tem sido fortalecido por meio de programas já existentes e de articulações com o governo federal, diante de um cenário que não se restringe ao Acre.
“A gente tem os programas que a gente já vem desenvolvendo ano passado, e a gente está aperfeiçoando, ampliando. O Ministério das Mulheres também está desenvolvendo um plano, junto com todas as outras secretarias, onde, como você mesmo falou, não foi só o Acre que teve esse aumento de feminicídio, foi o Brasil inteiro. Então, agora a gente vai ter reuniões bimestrais com o Ministério, onde vamos ver as boas práticas que estão sendo desenvolvidas nos estados que estão levando a reduzir a violência contra as mulheres”, afirmou.
Dentro desse contexto, a secretária afirmou que uma das principais estratégias da pasta para este ano será atuar diretamente na prevenção, com foco na conscientização masculina, apontando que a raiz da violência precisa ser enfrentada de forma mais direta.
“Aqui no estado, o que a gente vai fazer é dar uma pegada maior com os homens, educar os homens para não matar as mulheres, porque quem nos mata não são mulheres, são homens. Então, a gente tem o Papo de Homem, que é uma cartilha que o Instituto Papo de Homem fez para a gente sobre como conversar com homens sobre violência contra as mulheres. A gente está com rodas de conversa, palestras em escolas, instituições, e já estartou no finalzinho do ano passado e está intensificando essas ações. O nosso maior papel esse ano vai ser esse: educar os homens a não nos baterem, a não nos matarem”, arescentou.
Programas e acolhimento às mulheres
Além das ações preventivas, Mardhia ressaltou iniciativas voltadas à autonomia financeira e ao acolhimento psicológico das mulheres, consideradas fundamentais para romper ciclos de violência e fortalecer a independência feminina.
“A gente tem alguns outros programas, que são os maiores sucessos, como o Impacta Mulher, que é levar independência financeira, autonomia econômica e financeira para as mulheres; o Mulheres Recomeçando, que são rodas de conversa com as psicólogas, onde as mulheres vêm, contam seus problemas, conversam entre si. Além disso, temos ciclos terapêuticos para mulheres LGBTs, para mulheres negras, para trabalhadoras domésticas, para mulheres de axé. A gente vai às comunidades. Eu acho que esses são os programas que a gente vê que têm mais resultado, porque o que as mulheres mais precisam hoje é ser ouvidas”, salientou.
Estupro e influência das redes sociais
Ao abordar o aumento dos casos de estupro, a secretária apontou fatores ligados à formação social e ao uso indiscriminado das redes sociais, destacando que o ambiente digital tem influenciado comportamentos e reforçado a objetificação feminina.
“Eu acho que a criação é a educação. A gente tem a internet hoje, e ela é algo muito perigoso. Ela está aí, serve para educar, mas também serve para que isso aconteça. O que a gente vê é que quem está criando hoje, educando os filhos da gente, não somos nós, são as redes sociais. E eles pregam um ódio contra as mulheres, eles pregam uma objetificação. Os corpos das mulheres são tratados como objeto. Então os jovens crescem com essa visão de que podem fazer o que querem com o corpo da mulher”, disse.
Ela também fez questão de reforçar o entendimento legal e social sobre o crime de estupro, destacando a importância do consentimento:
“A partir do momento que a mulher diz que não, é estupro. Isso precisa ficar muito claro. Estupro é estupro, é crime. Não existe relação sexual não consentida. Se não há consentimento, é crime. E hoje muitos homens não respeitam o corpo das mulheres, porque foram criados dentro dessa cultura”.
Cultura e raízes históricas
Questionada sobre os altos índices de feminicídio nas regiões Norte e Nordeste, Mardhia atribuiu o cenário a fatores históricos, culturais e sociais que ainda influenciam o comportamento da sociedade.
“Eu acredito que é tudo. Vem desde a criação do Brasil, desde a colonização. Fomos criados por pais e avós machistas, que diziam que as mulheres tinham que se submeter aos homens. Nós fomos criadas para não ter nossos direitos e vontades respeitados, para sermos mulheres submissas. Além disso, são regiões mais pobres, com menos acesso à cultura e à informação. Tudo isso contribui para esse cenário”, pontuou.
Inclusão de mulheres trans
A secretária também destacou o trabalho da pasta na inclusão de mulheres trans nas políticas públicas, reforçando a importância da representatividade e do respeito à diversidade dentro da própria estrutura institucional:
“Quando a gente assumiu a secretaria, eu tive o cuidado de criar um departamento onde todas as mulheres se enxergassem. Então a gente tem um departamento para a mulher negra, para a mulher indígena, para a mulher trans, e eu coloquei mulheres desses próprios grupos para conduzir esses espaços. Eu olho para a mulher trans e vejo uma mulher como qualquer outra, com os mesmos anseios e dificuldades — muitas vezes até mais, por conta do preconceito”.
Dados e desafios no Acre
Durante a entrevista, Mardhia também apresentou dados recentes sobre feminicídio no Acre, contextualizando a realidade do estado e os desafios enfrentados na prevenção desse tipo de crime, que muitas vezes ocorre dentro do ambiente doméstico.
“Em 2024, a gente teve oito feminicídios. No ano passado, foram quatorze, e voltamos para os cinco primeiros lugares, porque a gente tem uma população pequena e os dados são proporcionais. Claro que a gente não quer nenhuma morte. O feminicídio é um crime difícil de evitar, porque acontece dentro de casa. Não tem como a polícia estar lá naquele momento. Por isso, a solução passa por políticas públicas e, principalmente, pela educação”, destacou.
Mesmo diante das dificuldades, a secretária demonstrou confiança em mudanças a longo prazo, ressaltando que o enfrentamento à violência contra a mulher exige transformação cultural e investimento contínuo em educação:
“A gente não vai resolver isso em três anos. São mais de quinhentos anos de uma cultura machista. Mas eu tenho convicção de que estamos formando uma nova geração, que não vai repetir esse comportamento. E vamos conseguir mudar essa realidade com a união de todos, inclusive dos homens que estão ao nosso lado nessa luta”.
Um sonho para o futuro
Ao final da entrevista, Mardhia resumiu o principal objetivo de sua gestão à frente da Secretaria de Estado da Mulher, apontando para um futuro sem violência de gênero no estado:
“O meu maior sonho é ter um Acre livre de feminicídio”.




