Ao norte do município de Candeias, no coração da Região Metropolitana de Salvador, um refúgio paradisíaco mudou radicalmente de perfil e de proprietário em uma transação que agora atrai os holofotes das autoridades. Antes conhecida como Ilha do Topete, a área de 10 mil metros quadrados foi rebatizada como Ilha da Paixão em 2023, tornando-se um bunker de luxo equipado com heliponto, piscina, sauna, quadra esportiva e áreas exclusivas para shows, tudo cercado por águas cristalinas.
A engenharia financeira da ocupação
A apuração revela que os caminhos para chegar ao verdadeiro dono passam por uma estrutura de fundos de investimento pouco óbvia. Avaliada em R$ 20 milhões, a ilha teve seu direito de ocupação vendido por apenas R$ 1,3 milhão em julho de 2023 para a empresa RC Participações. No entanto, dados da Comissão de Valores Mobiliários enviados à CPI do Crime Organizado detalham que a RC é controlada pelo fundo Falcon, que tem como único cotista o empresário Augusto Lima, ex-CEO do Banco Master. A gestão dessa estrutura ficava a cargo da Reag, empresa citada em investigações de operações fraudulentas em conjunto com o Master.
Transformação radical e impacto local
A transformação do local foi rápida e barulhenta. Moradores e comerciantes de Candeias relataram que, logo após a aquisição junto ao empresário Eduardo Valente, uma força-tarefa de arquitetos e paisagistas ocupou a região por meses. A reforma envolveu a demolição completa da casa principal e das antigas estruturas de hotelaria para erguer o novo complexo de lazer do executivo baiano. Documentos da Anac confirmam que até o direito de exploração do heliponto foi transferido para a empresa vinculada a Lima no mesmo período em que as obras avançavam.
O histórico do proprietário
Augusto Lima é um nome central no mercado financeiro, sendo casado com a ex-ministra Flávia Péres e ex-sócio de Daniel Vorcaro. O empresário chegou a ficar preso por 11 dias em novembro de 2025, no âmbito da Operação Compliance Zero, e atualmente cumpre medidas cautelares sob monitoramento de tornozeleira eletrônica. Além das polêmicas com o Banco Master, ele controlava o Banco Pleno, que sofreu liquidação extrajudicial pelo Banco Central no início deste ano. Procurada para comentar a posse da ilha e os detalhes da transação, a defesa de Lima optou pelo silêncio.

