Na ponta oeste do país, onde o Brasil faz fronteira com Peru e Bolívia, o Acre tem sido apontado como uma das principais portas de entrada do tráfico de drogas na Amazônia. É o que indica um levantamento da Polícia Federal, que colocou cidades fronteiriças do estado no centro das rotas utilizadas por organizações criminosas. A informação, revelada em reportagem da Folha de S.Paulo, acende um alerta sobre o papel estratégico da região no avanço do narcotráfico no país.
De acordo com o estudo, municípios acreanos situados na linha de fronteira internacional passaram a figurar como pontos sensíveis no fluxo de drogas. Entre eles, Assis Brasil e Epitaciolândia aparecem como áreas-chave para a entrada e circulação de entorpecentes, especialmente cocaína. A combinação entre localização geográfica, intenso fluxo transfronteiriço e limitações estruturais de fiscalização contribui para transformar essas cidades em corredores logísticos do crime organizado.
Assis Brasil ocupa uma posição estratégica ao estar localizada na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Bolívia. O município é ligado diretamente à cidade peruana de Iñapari pela chamada Estrada do Pacífico, que integra um importante eixo internacional de circulação. Já Epitaciolândia faz divisa com Cobija, formando um corredor urbano com livre trânsito de pessoas e mercadorias. Essa dinâmica intensa, embora essencial para a economia local, também facilita a atuação de redes ilegais.
Além das rodovias, como a BR-317, as organizações criminosas têm diversificado suas estratégias para evitar a fiscalização. Áreas rurais, ramais e regiões de difícil acesso, como partes da Reserva Extrativista Chico Mendes, vêm sendo utilizadas como rotas alternativas. Esses caminhos secundários permitem o transporte de drogas longe dos pontos oficiais de controle, dificultando o trabalho das forças de segurança e exigindo operações cada vez mais complexas.
Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho
O levantamento da Polícia Federal aponta três principais eixos de escoamento das drogas na Amazônia. O primeiro é o terrestre, com uso de rodovias que conectam o Acre a estados como Rondônia e Mato Grosso, permitindo a distribuição para outras regiões do país. O segundo eixo é o fluvial, aproveitando rios como Acre, Iaco, Negro e Solimões, que funcionam como vias naturais de transporte em meio à floresta. Já o terceiro eixo é o aéreo, com a utilização crescente de aeronaves clandestinas provenientes da Colômbia e do Peru, ampliando o alcance e a velocidade das operações do narcotráfico.
A presença de facções criminosas reitera a complexidade do cenário. Organizações como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho já possuem atuação consolidada na Amazônia Legal, operando desde a logística até a distribuição final das drogas. No Acre, grupos locais como o B13 desempenham papel relevante ao atuar como intermediários, conectando fornecedores internacionais a mercados consumidores em outros estados brasileiros.
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O avanço do crime organizado na região também tem caráter internacional. Um levantamento da Secretaria Nacional de Políticas Penais identificou a presença de grupos estrangeiros na região Norte, como o Tren de Aragua, o Sindicato de Las Claritas e o Tren de Guayana. A atuação dessas organizações indica um processo de internacionalização do narcotráfico, com conexões que ultrapassam fronteiras e ampliam o alcance das atividades ilícitas.
Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, o tráfico de cocaína é o principal motor das organizações criminosas na Amazônia. A droga entra majoritariamente pelas fronteiras com países produtores e segue por corredores logísticos até grandes centros urbanos do país. Nesse trajeto, estados como Rondônia e Mato Grosso funcionam como pontos intermediários antes da distribuição para regiões como Sudeste e Sul.
Além do tráfico de drogas, as organizações criminosas também diversificam suas atividades, atuando em crimes ambientais, como garimpo ilegal, desmatamento e grilagem de terras públicas. Essa expansão de atuação amplia o impacto dessas redes e fortalece sua presença em territórios estratégicos da Amazônia.
Para enfrentar esse cenário, o governo federal tem apostado em ações integradas entre diferentes órgãos de segurança. A cooperação entre forças estaduais e federais, aliada à articulação com autoridades do Peru e da Bolívia, busca intensificar o combate ao tráfico nas regiões de fronteira. Operações conjuntas, troca de informações e monitoramento constante fazem parte dessa estratégia.
Entre as iniciativas adotadas, estão o Plano Amazônia: Segurança e Soberania (AMAS) e a criação de estruturas específicas dentro da Polícia Federal voltadas à atuação na região amazônica. O objetivo é ampliar a presença do Estado, fortalecer a inteligência policial e reduzir a atuação das organizações criminosas.

