Pesquisa da Ufac revela rastro de “estradas fantasmas” no Acre

Estudo identifica que vias clandestinas podem representar 30% de toda a malha aberta no estado

Por Fhagner Soares, ContilNet 20/04/2026 Ă s 13:16 Atualizado: hĂĄ 12 minutos

Um estudo inĂ©dito intitulado “ExpansĂŁo de Estradas e Ramais no Estado do Acre: 1989 a 2025”, coordenado pela professora e pesquisadora da Universidade Federal do Acre (UFAC), Sonaira Souza Silva, acende um alerta vermelho sobre a preservação da AmazĂŽnia. A pesquisa identifica o surgimento de um grande volume de “estradas fantasmas” ou “estradas vĂ­rus”  vias abertas ilegalmente que fogem aos radares oficiais e servem como porta de entrada para a destruição ambiental.

O roteiro da ilegalidade Ă© quase sempre o mesmo: começa com o desmatamento para retirada de madeira ou pecuĂĄria, seguido pela abertura de “varadouros” (trilhas). Com o tempo, essas trilhas sĂŁo ampliadas para o trĂĄfego de caminhĂ”es e acabam recebendo manutenção do poder pĂșblico. Turbinadas por emendas parlamentares, prefeituras colocam mĂĄquinas pesadas para conservar vias que sequer possuem licenciamento ambiental ou obras de drenagem, bloqueando igarapĂ©s e transformando o ecossistema local.

Pesquisa da Ufac revela explosĂŁo de "estradas fantasmas" que devoram a floresta

MĂĄquinas pĂșblicas em obras sem licenciamento ambiental bloqueiam o fluxo natural de igarapĂ©s na regiĂŁo/ Foto: Reprodução

NĂșmeros alarmantes e o avanço nas reservas

Desde 1990, a média anual de abertura de vias no Acre foi de 540 km. No entanto, os picos de destruição são recentes e preocupantes. Os anos de 2019 e 2020 registraram o maior crescimento, com mais de 1.400 km de novas estradas cada. O ano de 2025 aparece em quarto lugar na série histórica, com 1.165 km de estradas abertas, mostrando que a frente de expansão segue ativa.

O dado que mais causa temor entre ambientalistas Ă© o avanço dentro de Unidades de Conservação. Quase 3.000 km de estradas foram construĂ­dos dentro dessas reservas desde 1990, sendo que mais da metade (52%) foi criada apenas nos Ășltimos seis anos. Somente no Ășltimo ano, foram identificados 186 km de novos ramais na Reserva Extrativista (Resex) Chico Mendes e 67 km na Resex CazumbĂĄ-Iracema.

O exemplo do Ramal Barbary

A pesquisadora da UFAC destaca o “Ramal Barbary” como um exemplo emblemĂĄtico desse caos. A via, aberta para ligar Cruzeiro do Sul a Porto Walter, promoveu desmatamento ilegal e invasĂŁo de terra indĂ­gena. O caso, que envolve o uso de mĂĄquinas compradas com recursos pĂșblicos, estĂĄ sob investigação da PolĂ­cia Federal por determinação do ministro do STF, FlĂĄvio Dino.

“É um exemplo de conexĂ”es terrestres feitas sem planejamento, sem estudos de impacto ambiental e social”, alerta Sonaira Silva. AlĂ©m do desmatamento, a Rede AmazĂŽnia SustentĂĄvel aponta que essas vias estĂŁo asfixiando os cursos d’ĂĄgua. Ao serem construĂ­das sem pontes adequadas, as estradas bloqueiam igarapĂ©s, criando represas artificiais que alteram completamente o habitat aquĂĄtico.

O que dizem as autoridades

Em nota, o Governo do Acre afirmou que a abertura de vias estå ligada às necessidades históricas de integração e escoamento da produção rural, garantindo que atua sob critérios técnicos e que aberturas irregulares são apuradas pelo Imac. Jå o ICMBio justificou o crescimento da malha viåria nas reservas pela mudança da atividade econÎmica para a pecuåria e pela necessidade de acesso das populaçÔes ribeirinhas, ressaltando que realizou operaçÔes históricas de retirada de gado ilegal na Resex Chico Mendes em 2025.

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