O aumento dos casos de autolesão entre adolescentes tem acendido um alerta sobre a saúde mental dos jovens no Acre. Dados do Boletim Epidemiológico nº 01/2026 da Secretaria de Estado de Saúde (Sesacre), realizado entre 2019 e 2025, mostram que as lesões autoprovocadas representam 23,4% das notificações de violência envolvendo pessoas entre 10 e 19 anos.

*A mesma pessoa pode ter sido vítima de mais de um tipo de violência.
Fonte: Sistema de Vigilância de Violências e Acidentes / Sistema de Informação de Agravos de
Notificação (Sinan), Secretaria de Vigilância em Saúde, Ministério da Saúde. Dados extraídos em
fevereiro de 2026.
Para a psicóloga Iana Sara, o comportamento autolesivo está diretamente relacionado ao sofrimento emocional e à dificuldade que muitos adolescentes têm de expressar sentimentos e pedir ajuda.
“Qualquer ambiente que dificulte esse adolescente a compreender o que está sentindo ou falar sobre isso pode potencializar o comportamento autolesivo”, explicou.
Olhar atento e acolhedor
Segundo a especialista, embora o ambiente familiar tenha papel importante no desenvolvimento emocional dos jovens, o problema não pode ser tratado apenas como responsabilidade individual dos pais.
“Muitos responsáveis passam grande parte do dia trabalhando para garantir o básico. Muitas vezes, esse adolescente acaba vivendo mais sozinho do que acompanhado, e isso diminui o espaço para ele comunicar o que está sentindo”, afirmou.

Para a Psicóloga Iana Sara,o acompanhamento profissional não deve estar centrado apenas em interromper o comportamento, mas em ajudar o adolescente a compreender melhor as próprias emoções. Foto: cedida
A psicóloga também ressalta que a autolesão não deve ser compreendida apenas como uma tentativa de chamar atenção, mas como uma forma encontrada pelo adolescente para lidar com emoções difíceis.
“Esse comportamento é uma forma que o sujeito encontrou, naquele momento, para lidar com uma experiência interna difícil. Mesmo sendo uma estratégia que gera sofrimento, existe uma função: a tentativa de autorregulação”, destacou.
LEIA TAMBÉM: Comportamentos ignorados em crianças podem evoluir para tragédias, alerta psicóloga
Segundo ela, o acompanhamento profissional não deve estar centrado apenas em interromper o comportamento, mas em ajudar o adolescente a compreender melhor as próprias emoções e encontrar formas mais seguras de expressão.
“O trabalho busca ampliar a consciência emocional, ajudando o adolescente a reconhecer, nomear e escoar suas emoções, desenvolvendo formas mais seguras de expressão. A arte e o esporte, por exemplo, podem colaborar nesse processo”, explicou.
Sinais de alerta e formas de agir
Entre os principais sinais de alerta, a psicóloga aponta mudanças bruscas de comportamento, isolamento social, introspecção repentina e tentativas de esconder o corpo.
Iana também cita o uso frequente de roupas compridas como um possível indício de tentativa de esconder lesões, mas ressalta que nenhum comportamento deve ser analisado de forma isolada.
Ao identificar sinais de autolesão, a orientação é evitar reações impulsivas, julgamentos ou cobranças excessivas. Segundo a psicóloga, o primeiro passo deve ser acolher o adolescente e tentar construir um espaço seguro de diálogo.
“Geralmente os pais ficam desesperados, sentem culpa e querem respostas imediatas. Mas o mais importante é tentar conversar sem julgamento”, afirmou.
Caso o adolescente não consiga se abrir, a recomendação é procurar ajuda profissional o quanto antes. A psicóloga orienta que as famílias busquem inicialmente atendimento em uma unidade básica de saúde para receber os encaminhamentos necessários,
“Mesmo quando a família não tem acesso a acompanhamento particular, é importante procurar a rede pública de saúde, podendo até ser um clínico geral”, destacou.
Iana finaliza reforçando que serviços como os Centros de Referência de Assistência Social (Cras) e os Centros de Atenção Psicossocial (Caps) podem auxiliar no acolhimento e acompanhamento psicológico dos adolescentes e familiares.



