Opinião: o governo precisa frear os caciques da máquina pública

O maior perigo para um governante não costuma vir da oposição. Quase sempre vem de dentro.

Por Wania Pinheiro, ContilNet 10/05/2026 às 17:00

A política acreana parece presa em um ciclo vicioso que se repete eleição após eleição. Mudam os nomes, mudam os discursos, mudam as alianças, mas certas práticas continuam exatamente as mesmas. Basta uma campanha começar a se aproximar para surgirem denúncias de uso da máquina pública, promessas de empregos, regularização de imóveis, distribuição de favores e uma movimentação escancarada dentro de órgãos públicos para beneficiar pré-candidatos.

O mais grave é que tudo acontece debaixo do nariz da Justiça Eleitoral. Muitas vezes, pequenos candidatos são punidos com rigor extremo por erros formais ou gastos modestos devidamente declarados, enquanto estruturas muito maiores seguem funcionando livremente nos bastidores da política. O cidadão comum vê, comenta, denuncia, mas raramente acredita que algo realmente vá acontecer.

Existe hoje um sentimento crescente de indignação com a forma como alguns grupos transformaram a máquina pública em instrumento eleitoral permanente. Em muitos casos, aliados políticos ocupam cargos estratégicos não para servir ao povo, mas para fortalecer projetos eleitorais antecipados. É o famoso “toma lá, dá cá”, que destrói governos silenciosamente.

A governadora Mailza Assis precisa agir rápido para evitar que esse desgaste aumente. Ainda existe em torno dela a imagem de uma mulher equilibrada, discreta, correta e sem envolvimento em escândalos de corrupção. Isso tem peso político. Mas nenhuma reputação resiste quando o governo começa a ser cercado por denúncias repetidas de favorecimento político e abuso da estrutura estatal.

O maior perigo para um governante não costuma vir da oposição. Quase sempre vem de dentro. Vem de aliados que usam o poder para construir projetos pessoais, enriquecer grupos políticos e criar esquemas que, mais tarde, acabam explodindo no colo de quem governa.

O ex-governador Gladson Camelí conhece bem esse roteiro. Durante anos, pessoas próximas alertaram sobre figuras que orbitavam o governo apenas para aproveitar as facilidades do poder. Muitos foram ignorados. Hoje, Gladson enfrenta um dos momentos mais difíceis de sua trajetória política justamente porque a conta das escolhas feitas dentro do governo acabou chegando.

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E a política ensina uma lição dura: o poder atrai competência, mas também atrai oportunistas profissionais. São pessoas que aparecem oferecendo lealdade, estrutura e apoio político, mas que, na verdade, enxergam o governo como um balcão de negócios eleitorais.

Mailza ainda tem tempo para corrigir rumos, exigir postura técnica de seus auxiliares e impedir que órgãos públicos sejam transformados em comitês políticos antecipados. Se não fizer isso agora, poderá enfrentar um desgaste perigoso justamente no momento em que precisará consolidar liderança e confiança popular.

Porque, no fim, a conta sempre chega. Pode demorar. Pode passar alguns anos escondida atrás de discursos e propagandas. Mas chega. E, quando chega, normalmente sobra apenas para quem ocupava a cadeira principal do poder.

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