Papatinho traça carreira internacional e emplaca faixa na trilha de ‘Bad boys 4’

Ele trabalha com artistas nacionais como Lulu Santos e pesos pesados dos EUA como Snoop Dogg, Timberland e Will.I.Am

Por O Globo 18/06/2024

O filme “Bad boys 4 — AtĂ© o fim” obteve surpreendentes U$ 56 milhĂ”es em seu fim de semana de estreia, liderando as bilheterias americanas. AlĂ©m dos protagonistas, Will Smith (Mike) e Martin Lawrence (Marcus), outro artista que ficou animado com a notĂ­cia foi Tiago Alves, ou Papatinho — algumas vezes Papato, para simplificar ainda mais. O produtor musical carioca de 37 anos fez parte da trilha sonora do filme com a faixa “Flores para ti”, em colaboração com LuĂ­sa Sonza e Becky G, nos vocais. JĂĄ com um nome estabelecido no cenĂĄrio nacional, Papatinho agora busca espaço no exterior e conta ao GLOBO como foi o processo para chegar Ă s telinhas em Hollywood.

Papatinho

Papatinho Ă© referĂȘncia entre produtores e beatmakers — Foto: Divulgação

— SĂŁo vĂĄrios anos indo e voltando vĂĄrias vezes no aviĂŁo, bem frustrado, sabe? Parece que as coisas nĂŁo acontecem nunca. E, por mais que vocĂȘ tenha um monte de mĂșsica (gravada), as mĂșsicas nĂŁo saem (sĂŁo lançadas) — diz Papatinho. — Mas, nessas idas, acabei conhecendo pessoas da indĂșstria em Los Angeles, Atlanta, Miami, e, no inĂ­cio desse ano, em janeiro, me mandaram mensagem perguntando se eu tinha mĂșsica para enviar para o filme.

Papatinho, animado com a histĂłria, conta que o convite ocorreu de forma inusitada.

— Ele (Zeke, produtor a serviço do filme) falou: “Estou subindo no elevador agora para a reunião com a Columbia Pictures, para falar do filme ‘Bad boys’. Estou pensando em trilha sonora, tem alguma coisa aí para mandar?” — rememora.

Primeiro rap da cantora Anitta foi produzido por Papatinho — Foto: Divulgação

Primeiro rap da cantora Anitta foi produzido por Papatinho — Foto: Divulgação

‘VocĂȘ Ă© o Papatino?’

Para realizar seu sonho de fazer mĂșsica com artistas internacionais, o primeiro passo foi dado com uma ajudinha de Anitta. Em 2019, Papato produziu a mĂșsica “Onda diferente”, que tinha a funkeira ao lado de Ludmilla e Snoop Dogg — que ele aproveitou para usar como sua voicetag, entĂŁo, se vocĂȘ escutar o rapper falando “Papatinho”, saberĂĄ quem produziu a mĂșsica. AlĂ©m de Snoop Dogg, ainda conheceu o lĂ­der do grupo Black Eyed Peas, Will.I.Am, que Ă© sua inspiração como produtor

— Tava na casa da Anitta, depois do Rock in Rio. Rolou uma festa lĂĄ. AĂ­ eu vi o Will.I.Am pela primeira vez. Fiquei calado no meu canto, nĂ©? “Vou ali nĂŁo”, pensei. Mas ele que veio e falou: “Papatino, vocĂȘ Ă© o Papatino?”, pegou o meu telefone da minha mĂŁo e coloco o nĂșmero dele. A Anitta chegou meio preocupada ainda, porque ela nĂŁo gosta quando a galera fica tietando os artistas, mas eu que fui tietado, moleque — brinca.

Na colaboração, alĂ©m da oportunidade de mostrar seu trabalho, Papatinho conta que aprendeu com a forma como o artista trabalhava. Ele lembra que, durante a produção da faixa “Duro Hard”, Will.I.Am poderia ter usado inĂșmeros equipamentos do estĂșdio, mas preferiu gravar da forma mais bĂĄsica possĂ­vel.

A gente foi para o piano, ele pegou o telefone, ligou o vĂ­deo e começou a tocar o instrumento — descreve Papatinho. — Sem nem pedir para ninguĂ©m (que estava no estĂșdio) fazer barulho. Ele saiu tocando o piano assim e me mandou o vĂ­deo por air drop, para eu pegar o ĂĄudio e samplear o piano dele. Poderia ter gravado o piano no microfone mais foda que tinha lĂĄ, na qualidade mĂĄxima, mas ele queria aquela sujeira (sonora) ali, ele queria o barulho.

Para o brasileiro, isso foi um ensinamento para a vida.

— EntĂŁo esse Ă© o tipo de coisa que vocĂȘ acaba aprendendo Ă s vezes: que a mĂșsica estĂĄ sempre antes de qualquer coisa — resume Papato. — Para ter uma mĂșsica, uma ideia de melodia boa, ela sempre serĂĄ boa independente se gravada num superpiano, superestĂșdio ou num gravador barato.

A partir dessas colaboraçÔes, Papatinho se animou e começou a fazer suas incursÔes em solo americano, trabalhando com nomes comos Timberland, os rappers DaBaby, Meek Mill e o DJ Steve Aoki.

E, assim, conheceu o produtor que entrou em contato com ele para a trilha sonora.

— Eu mandei pro cara mĂșsicas de artistas que estavam na gravadora dele, inclusive. EntĂŁo ele falou: “Caraca, maluco, como assim?” Isso tudo foi construĂ­do com a base de relacionamento — diz o artista.

Mesmo com muitas produçÔes fora do Brasil, o artista continua criando em solo nacional. Ele fez sucesso com a mĂșsica “Final de semana”, nas vozes de Seu Jorge e Black Alien, e, recentemente, produziu uma das faixas do ĂĄlbum “Atemporal”, de Lulu Santos, projeto lançado no mĂȘs passado em que o artista trouxe releituras de seus antigos sucessos.

— NĂŁo Ă© sobre bater de frente com a mĂșsica original, Ă© fazer uma versĂŁo Papatinho da parada. E eu nĂŁo fui pelo caminho Ăłbvio, isso chamou muito a atenção dele. Porque ele mesmo comentou que o caminho mais fĂĄcil, atĂ© Ăłbvio, seria apenas adicionar um tambor ali na mĂșsica original — disse o produtor. — Mas nĂŁo, eu fui pelo caminho inverso e deixei com uma onda meio minimalista. EntĂŁo ela acaba soando mais emocionante. Ele notou tudo isso e gostou tanto desse som que acabou sendo o primeiro single do projeto.

O carioca tambĂ©m produz mĂșsicas para seu selo Papatunes (gravadora, assessoria, distribuição e agenciamento artĂ­stico), em que jĂĄ assinou a produção do inĂ­cio da carreira de nomes como Orochi e L7nnon, assim como iniciativas independentes com as Papatracks (com novos nomes da cena do hip-hop).

Volta Ă s origens

Cone Crew Diretoria. Depois de um hiato de quatro anos, o grupo se apresenta no palco Supernova do festival — Foto: Divulgação

Cone Crew Diretoria. Depois de um hiato de quatro anos, o grupo se apresenta no palco Supernova do festival — Foto: Divulgação

Para o fim do ano, Papato pretende trazer de volta o grupo que o lançou em solo nacional, Cone Crew Diretoria. O grupo em que ele começou, em 2006, e se destacou com samples de Nina Simone no sucesso “Chama os Muleke”, voltarĂĄ a se apresentar em resposta aos fĂŁs “que sĂŁo muito fiĂ©is”, conta.

Mesmo com produçÔes acontecendo o tempo todo, em todo lugar, ele nem cogita cansaço. E admite que Ă© um workaholic da mĂșsica.

— Trabalho todos os dias. Tenho muito tempo. Estou preparado porque tenho beat de todos os gĂȘneros — diz Papatinho. — E, mesmo assim, quando o artista vai no estĂșdio, eu acabo fazendo uma do zero. NĂŁo uso as que eu jĂĄ tenho. É impressionante — brinca. — É como se eu estivesse indo jogar videogame. NĂŁo estou indo trabalhar, estou indo me divertir. Eu poderia nĂŁo estar produzindo tanto e ficar mais relaxado, mas nĂŁo consigo. EntĂŁo acaba sendo bom pra mim.

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