Filho gay de Maguila homenageou o boxeador dias antes da morte: ‘Orgulho. Me aceitou e respeitou!’

JĂșnior Ahzura, de 32 anos, Ă© responsĂĄvel por todo o acervo do pugilista e faz suas redes sociais

Por Extra 25/10/2024

Cinco dias antes da morte de Adilson Maguila, seu filho, JĂșnior Ahzura, usou seu perfil no Instagram para prestar uma homenagem ao pugilista. Ele postou um vĂ­deo no qual o boxeador aparecia discorrendo sobre o que pensava da homossexualidade durante uma entrevista. Na Ă©poca, o caçula de Maguila ainda era uma criança e sequer imaginava que no futuro seria um “viado”, como o pai se referia aos gays sem qualquer demĂ©rito, apesar do termo empregado.

“Para mim, esse negĂłcio de homossexualismo Ă© para quem sabe ler e quem inventou esse nome cientĂ­fico. Eu nĂŁo tenho estudo. O homem, o ‘viado’ nĂŁo Ă© uma doença. Ele nasceu com o dom de ser ‘viado’ e de transar com homens. EntĂŁo, nĂŁo acho que seja uma doença. A pessoa jĂĄ nasceu com esse dom”, disse em 1992: “A gente nĂŁo pode ser contra”.

A “aula!” dada por Maguila dentro de sua simplĂłria divagação pautou sua relação com JĂșnior, tambĂ©m nascido Adilson como o pai, e como ele, um lutador. Ainda que sem as luvas, o garoto cresceu dando a cara pra bater nos ringues da vida ao ser gay, preto e gordo.

A forma que encontrou de disseminar o conhecimento que tem sobre os assuntos, apĂłs duas faculdades e o trabalho de pesquisador, foi usar a internet como seu saco de pancadas. Autor e apresentador do podcast Gordosfera, no primeiro episĂłdio ele narra como foram as suas prĂłprias descobertas e de como sua famĂ­lia foi importante no processo de acolhimento.

“Eu jĂĄ nasci grande. Sou filho de uma mulher branca relativamente alta. Meu pai, um homem negro de 1m88, com porte fĂ­sico largo. Todo mundo esperava um bebezĂŁo. E eu fui muito bem acolhido nessa famĂ­lia. JĂĄ havia pessoas gordas. Meu avĂŽ, por parte de pai, meus tios e tias”, conta ele, que sofreu o primeiro bullying jĂĄ na infĂąncia: “Me chamavam de baleia”

A provocação e os xingamentos ainda piorariam na adolescĂȘncia, quando assumiu a homossexualidade.

Sempre fui um gordinho viado, era nerd tambĂ©m, ainda sou. Mas fui uma criança viada. Eu era muito gay e desde pequeno. E me zoavam muito porque eu era gordo, e depois porque eu era uma bichinha e minha voz nĂŁo tinha engrossado como a dos outros meninos” .  Junior, filho de Maguila

JĂșnior Ahzura, filho de Maguila — Foto: rep/ instagram

JĂșnior Ahzura, filho de Maguila — Foto: rep/ instagram

O pai foi seu protetor e companheiro o tempo todo. Inclusive nos muitos episĂłdios em que o racismo chegava na frente.

“”Tive uma infĂąncia meio pĂșblica e privada. Meu pai Ă© o Maguila, um dos maiores pugilistas do paĂ­s, eu tive privilĂ©gios sociais e econĂŽmicos, sou fruto de uma relação inter-racial e sempre estudei em escolas particulares”, inicia: “Estudei numa universidade tradicional, dentro de uma aristocracia imensa em SĂŁo Paulo e no meu grupo de amigos tinha muitos bolsistas do Prouni. Uma vez, um colega veio me questionar se eu era bolsista. Eu disse que nĂŁo e quis saber o porquĂȘ da pergunta. Ele disse que, como meus amigos eram da periferia e bolsistas, eu tambĂ©m poderia ser. Mas insisti na pergunta. AĂ­ ele falou: ‘É sĂł olhar pra vocĂȘ, seu cabelo Ă© duro'”.

JĂșnior Ahzura, filho de Maguila — Foto: rep/ instagram

JĂșnior Ahzura, filho de Maguila — Foto: rep/ instagram

Dali por diante, o ativismo atravĂ©s da arte passou a ser mais forte. AlĂ©m do podcast Gordosfera, ele atua no coletivo Adiposa Facção e dĂĄ aulas no Instituto Moreira Salles, em SĂŁo Paulo. Co Maguila, Adilson JĂșnior sempre teve uma relação de profundo carinho e cuidado, em via de mĂŁo dupla, e jamais pediu que o boxeador intervisse numa de suas “lutas”:

Orgulho ter um pai que sempre me aceitou e respeitou! Mais que um herĂłi nacional, meu pai!”

— Adilson JĂșnior, filho caçula de Maguila

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