A juĂza Ana Carolina Santana surpreendeu todos que participavam de um tribunal do jĂșri em novembro do ano passado. No momento em que lia a sentença que fixava pena ao rĂ©u, a magristrada quebrou o protocolo e leu uma carta emocionante Ă vĂtima, Samara. O caso foi divulgado sĂł agora nas redes sociais e gnhou repercussĂŁo.

JuĂza Ana Carolina Santana (Foto: Reprodução)
âVocĂȘ foi absolvida. VocĂȘ nĂŁo teve culpa de nada que te aconteceuâ, disse Ana Carolina. âNĂłs somos mulheres, Samara. E, mesmo inconscientemente, parece que a sociedade sempre precisa refazer nossa histĂłria para tentar nos culparâ.
A juĂza jogou luz sobre comportamentos machistas que pautam a sociedade e refutou todas as tentativas da defesa da vĂtima de tentar desqualificar a vĂtima, com apontamentos sobre a saĂșde mental de Samara e decisĂ”es pessoais dela. Ao final, o Conselho de Sentença acolheu na Ăntegra a tese do MinistĂ©rio PĂșblico e o rĂ©u foi condenado a 32 anos de reclusĂŁo.
Veja a Ăntegra da carta:
âQuerida Samara,
Assim como vocĂȘ eu sou mulher, mĂŁe, mas diferente de vocĂȘ, estou viva.
Estou vivendo essa realidade que nos fere, nos machuca e nos mata todos os dias: a realidade do machismo.
A realidade que nos transforma em objetos, que nos retira a dignidade de ser humano que somos.
Assim como no primeiro julgamento desse processo, nĂŁo foi fĂĄcil para mim mais uma vez ouvir seu pedido de socorro. Penso nos seus filhos, nos seus quatro filhos, dos quais vocĂȘ tanto se orgulhava de sustentar sem ajuda de nenhum homem.
NĂŁo foi fĂĄcil ver vocĂȘ sendo julgada aqui hoje. âPor que nĂŁo saiu do distrito de FĂĄtima? Por que nĂŁo terminou o relacionamento se estava sendo agredida? Por que nĂŁo ficou na casa quando ele viajou?â Foram tantas as perguntas. Mas infelizmente vocĂȘ nĂŁo estĂĄ aqui para responder. E ainda que estivesse, nĂŁo precisava responder a nenhuma delas.
Porque o mundo que nĂłs mulheres queremos viver Ă© o mundo que nĂŁo nos julgue por nossas decisĂ”es quando elas nĂŁo sĂŁo condizentes com o machismo que assola todos vocĂȘs que estĂŁo aqui hoje.
Não foi fåcil ver situaçÔes tão delicadas sobre sua vida pessoal sendo expostas aqui como tentativa de desqualificå-la. Se tomava remédio controlado, se era portadora de borderline, foram alguns dos relatos que foram ditos aqui por algumas testemunhas.
NĂŁo importa, afinal de contas, quem aqui estiver com a saĂșde mental 100% em dia que atire a primeira pedra, e pode atirar atĂ© em mim. Principalmente as mulheres que passam por relacionamentos abusivos e tĂłxicos.
Eu sou magistrada hĂĄ oito anos. JĂĄ presidi alguns tribunais do JĂșri, jĂĄ condenei muita gente, jĂĄ apliquei penas atĂ© maiores que a aplicada no primeiro julgamento desse processo. Mas nenhum processo precisou ser refeito.
Mas nĂłs somos mulheres, nĂ©, Samara? Mesmo inconscientemente, Ă© como se a situação na qual somos vĂtimas precisasse sempre ser refeita para nos culpar. Como se fosse sempre um alerta do âmas serĂĄ que ela⊠serĂĄ que ela nĂŁo mereceu? SerĂĄ que nĂŁo fez por onde?â como forma de justificar todo o Ăłdio direcionado a nĂłs.
Mas hoje, exatamente hoje, 21 de novembro, 9 meses depois do primeiro julgamento, vocĂȘ foi absolvida. VocĂȘ nĂŁo teve culpa de nada que te aconteceu. Fique em paz, e descanse em paz.
O egrĂ©gio Conselho de Sentença acolheu integralmente a tese do MP e decidiu pela condenação do acusado, nos exatos termos da pronĂșncia. Pena definitiva fixada em 32 anos de reclusĂŁo.â

