Estudo feito no Acre mostra que consumo de ultraprocessados tĂȘm prejudicado bebĂȘs

Os pesquisadores realizaram as coletas entre 2016 e 2017, quando as crianças participantes da coorte completaram um ano de idade

Por Luiz Eduardo, ContilNet 06/03/2025 Ă s 11:11 Atualizado: hĂĄ 1 ano

Um estudo realizado com 728 crianças de até 1 ano de idade aponta que o consumo de alimentos ultraprocessados pode impactar negativamente a diversidade e a abundùncia da microbiota intestinal, com um efeito mais pronunciado em crianças que não são amamentadas.

Os resultados foram publicados na revista Clinical Nutrition, como parte do estudo MINA – Materno-Infantil no Acre: coorte de nascimentos da AmazĂŽnia Ocidental brasileira, que acompanha um grupo de crianças nascidas em 2015 e 2016 em Cruzeiro do Sul (AC), com financiamento da Fapesp.

Estudo feito no Acre mostra que consumo de ultraprocessados tĂȘm prejudicado bebĂȘs

Ultraprocessados ocupam quase 25% da alimentação de crianças brasileiras/Foto: Reprodução

Crianças que ainda recebiam leite materno apresentaram uma maior abundĂąncia de Bifidobacterium, um gĂȘnero de bactĂ©rias associado Ă  boa saĂșde intestinal.

Por outro lado, aquelas que nĂŁo eram amamentadas e consumiam produtos ultraprocessados, como salgadinhos de pacote, biscoitos recheados, bebidas achocolatadas, refrigerantes, sucos artificiais, sorvete, macarrĂŁo instantĂąneo, entre outros, apresentaram uma maior abundĂąncia de gĂȘneros como Selimonas e Finegoldia, pouco frequentes no grupo de crianças amamentadas e tipicamente encontrados em indivĂ­duos com obesidade ou doenças gastrointestinais na adolescĂȘncia e fase adulta.

“Identificamos ainda que o aleitamento materno atenuou os efeitos prejudiciais do consumo de ultraprocessados na composição da microbiota intestinal. O grupo de crianças que recebia leite materno e nĂŁo consumia produtos ultraprocessados apresentou uma microbiota mais estĂĄvel e com melhores marcadores de saĂșde, principalmente pela maior abundĂąncia de Bifidobacterium”, explica Lucas Faggiani, primeiro autor do estudo, doutorando na Faculdade de SaĂșde PĂșblica da USP (FSP-USP), que recebeu bolsas da Fapesp durante a graduação.

“AtĂ© hoje, nĂŁo havia um estudo com tantos participantes que analisasse, ao longo do primeiro ano de vida, a composição da microbiota intestinal em relação ao consumo de produtos ultraprocessados, justamente quando o sistema imunolĂłgico estĂĄ se formando. Ainda que a regiĂŁo seja de difĂ­cil acesso, esses produtos podem ser obtidos facilmente e acabam substituindo alimentos tradicionais e atĂ© o aleitamento materno”, acrescenta Marly Cardoso, professora da FSP-USP e coordenadora do projeto.

Além do tamanho da amostra, Faggiani destaca que o estudo se diferencia por ser uma coorte de base populacional, realizada em uma região amazÎnica com significativa vulnerabilidade social, contribuindo para a investigação de variåveis pouco exploradas na literatura sobre o tema.

Impactos a longo prazo

Os pesquisadores realizaram as coletas entre 2016 e 2017, quando as crianças participantes da coorte completaram um ano de idade.

As amostras foram coletadas e armazenadas seguindo um protocolo desenvolvido no Instituto de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina da USP, sob a coordenação de Ester Sabino, professora da instituição. Os swabs anais com amostras de fezes foram armazenados a baixas temperaturas e enviados para São Paulo.

Durante a coleta dessas amostras e de dados como peso e altura das crianças, as mães responderam a um questionårio sobre amamentação e håbitos alimentares da família e da criança.

As amostras da microbiota foram enviadas para uma empresa especializada na Coreia do Sul para o sequenciamento automatizado dos genomas, um processo significativamente mais råpido que os métodos tradicionais. No Brasil, os pesquisadores analisaram os dados com ferramentas de bioinformåtica.

AlĂ©m das diferenças nos nĂ­veis de Bifidobacterium (abundante em crianças amamentadas e reduzido nas desmamadas) e dos gĂȘneros Selimonas e Finegoldia (mais presentes nas crianças que nĂŁo mamavam e consumiam ultraprocessados), os pesquisadores detectaram um aumento na ocorrĂȘncia do gĂȘnero Firmicutes no grupo de crianças que nĂŁo se alimentava mais de leite materno, mesmo entre aquelas que nĂŁo consumiam ultraprocessados. Esse gĂȘnero Ă© um potencial marcador de microbiota adulta, sugerindo uma maturidade precoce do sistema intestinal.

Outro gĂȘnero encontrado em abundĂąncia no grupo desmamado e consumidor de ultraprocessados foi Blautia. Embora alguns estudos jĂĄ tenham identificado essa associação, ainda nĂŁo hĂĄ consenso sobre seu impacto na saĂșde.

“Faltam estudos robustos para estabelecer uma relação de causa e efeito entre esse gĂȘnero e desfechos de saĂșde”, comenta Faggiani.

“HavĂ­amos notado que o consumo de produtos ultraprocessados ocorria em mais de 80% das crianças participantes do estudo jĂĄ no primeiro ano de vida, apesar da recomendação da Organização Mundial da SaĂșde (OMS) de nĂŁo oferecer esses produtos antes dos dois anos. Diante desses resultados, seguimos acompanhando essas crianças para monitorar possĂ­veis desfechos adversos Ă  saĂșde em longo prazo”, conclui Cardoso.

O trabalho também recebeu apoio da Fapesp por meio de uma bolsa de pós-doutorado concedida a Paula de França, coautora do artigo.

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