A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) nem precisou de dois dias de prazo, que se encerariam nesta quarta-feira (23), para o recebimento da denĂșncia da Procuradoria da RepĂșblica (PGR) para tornar rĂ©us o chamado NĂșcleo 2 dos bolsonaristas acusados de tentativa de golpe de Estado, em 8 de janeiro de 2023.

STF condena mais 6 rĂ©us que formariam o NĂșcleo 2 dos ataques para instalação de um golpe de Estado no paĂs. Foto: Reprodução
Na terça-feira (22), a denĂșncia apresentada pela PGR contra os seis acusados de integrar o chamado NĂșcleo 2 da organização que buscava impedir o regular funcionamento dos Poderes da RepĂșblica e depor o governo legitimamente eleito, em um golpe de Estado, foi aceita por unanimidade de cinco ministros do STF.
Nessa fase processual, foi examinado apenas se a denĂșncia atendeu aos requisitos legais mĂnimos exigidos pelo CĂłdigo de Processo Penal (CPP) para a abertura de uma ação penal.
A conclusĂŁo foi de que a PGR demonstrou adequadamente que os fatos investigados configuram crimes (materialidade) e que hĂĄ indĂcios de que os denunciados participaram deles (autoria).
Com o recebimento da denĂșncia, os seis acusados se tornarĂŁo rĂ©us e passarĂŁo a responder a uma ação penal. SĂŁo eles: Fernando de Sousa Oliveira (delegado da PolĂcia Federal), Filipe Garcia Martins Pereira (ex-assessor para Assuntos Internacionais da PresidĂȘncia da RepĂșblica), Marcelo Costa CĂąmara (coronel da reserva do ExĂ©rcito e ex-assessor da PresidĂȘncia da RepĂșblica), MarĂlia Ferreira de Alencar (delegada e ex-diretora de InteligĂȘncia da PolĂcia Federal), MĂĄrio Fernandes (general da reserva do ExĂ©rcito) e Silvinei Vasques (ex-diretor-geral da PolĂcia RodoviĂĄria Federal).
Eles responderĂŁo pelos crimes de tentativa de abolição violenta do Estado DemocrĂĄtico de Direito, tentativa de golpe de Estado, envolvimento em organização criminosa armada, dano qualificado pela violĂȘncia e grave ameaça contra o patrimĂŽnio da UniĂŁo e deterioração de patrimĂŽnio tombado.
O relator da Petição, ministro Alexandre de Moraes, votou para receber integralmente a denĂșncia. Conforme seu voto, a PGR relatou os fatos criminosos de forma satisfatĂłria, encadeada e lĂłgica, classificando e descrevendo cada delito e apontando os indĂcios contra cada um dos acusados.
Ele foi acompanhado integralmente pela ministra CĂĄrmen LĂșcia e pelos ministros FlĂĄvio Dino, Luiz Fux e Cristiano Zanin.
Segundo ressaltou o relator, nesse momento da anĂĄlise basta haver indĂcios da autoria dos crimes pelos acusados.
âCom a abertura da ação penal, o contraditĂłrio serĂĄ estabelecido e todos os fatos imputados devem ser comprovados pela PGR. A presença de qualquer dĂșvida razoĂĄvel leva Ă absolviçãoâ.
O ministro Alexandre disse que a denĂșncia se baseia em provas que atestam a materialidade dos atos e trazem indĂcios de autoria pelos acusados. Ele ressaltou a gravidade dos fatos ao expor um vĂdeo que mostra a violĂȘncia dos atos de 8 de janeiro, com o objetivo de levar a um golpe de Estado, alĂ©m das manifestaçÔes em frente a quartĂ©is pedindo golpe e atos violentos nas ruas de BrasĂlia.
Em seu voto, o ministro detalhou individualmente os indĂcios apresentados pela denĂșncia para cada um dos acusados, como documentos, registros de mensagens de celular, entradas em prĂ©dios pĂșblicos e depoimentos que confirmam as declaraçÔes do colaborador premiado Mauro Cid.
Segundo ele, todas as defesas tiveram acesso aos fatos apontados, aos motivos que levaram a PGR a denunciar o NĂșcleo 2, Ă s razĂ”es do crime, âou seja, todos os elementos necessĂĄrios para que a defesa possa se defenderâ.
Com relação ao delegado da PF Fernando de Sousa Oliveira, o ministro Alexandre de Moraes disse que os indĂcios listados pela acusação apontam para sua participação em uma operação de uso indevido de policiais rodoviĂĄrios federais para interferir no resultado das eleiçÔes, impedindo ou dificultando o voto de eleitores. Foram levantadas mensagens com trocas de informaçÔes estratĂ©gicas para um policiamento direcionado no segundo turno.
No caso do ex-assessor para Assuntos Internacionais da PresidĂȘncia da RepĂșblica, Filipe Garcia Martins Pereira, o relator disse que hĂĄ informaçÔes que mostram sua participação em reuniĂŁo com o entĂŁo presidente Jair Bolsonaro para tratar da elaboração de uma minuta de decreto de golpe de Estado.
Foram levantados dados de sua entrada no Palåcio da Alvorada em determinadas datas, e depoimentos como o do ex-comandante do Exército, general Freire Gomes, afirmam que Martins apresentou a minuta a Bolsonaro.
Marcelo Costa CĂąmara, coronel da reserva do ExĂ©rcito e ex-assessor da PresidĂȘncia da RepĂșblica, teve suas condutas narradas pela PGR a partir de trocas de mensagens de WhatsApp em que ele repassa a interlocutores um monitoramento de autoridades. AlĂ©m disso, ele teria participado de reuniĂŁo com o entĂŁo presidente em que se tratou de temas golpistas.
Sobre a delegada MarĂlia Ferreira de Alencar, a PGR encontrou indĂcios de sua participação no policiamento direcionado feito no segundo turno do pleito de 2022. AlĂ©m das trocas de mensagens com Fernando de Sousa, foram apreendidas planilhas com dados de votação dos candidatos presidenciais.
Os indĂcios tambĂ©m foram corroborados a partir de depoimento de um analista de inteligĂȘncia. De acordo com a denĂșncia da PGR, o general MĂĄrio Fernandes foi responsĂĄvel por elaborar o plano âPunhal Verde Amareloâ, que previa o assassinato de autoridades, como o presidente eleito Luiz InĂĄcio Lula da Silva e o ministro Alexandre de Moraes.
Foi apreendida uma planilha com detalhes dessa operação, que chegou a ser impressa no Palåcio do Planalto e levada ao Palåcio da Alvorada. Também foram relevadas mensagens do general com Mauro Cid e com manifestantes que participavam do acampamento em frente ao Quartel-General do Exército.
Com relação a Silvinei Vasques, o relator ressaltou que o ex-diretor da PolĂcia RodoviĂĄria Federal (PRF) participou da reuniĂŁo para definir o policiamento durante o segundo turno das eleiçÔes. O depoimento de um agente tambĂ©m confirmou que ele teria falado na necessidade de a corporação âescolher um ladoâ.
Em 26 de março, a Primeira Turma jĂĄ havia recebido a denĂșncia contra os acusados de integrar o NĂșcleo 1, tambĂ©m chamado de âNĂșcleo crucialâ da organização. Se tornaram rĂ©us o ex-presidente Jair Bolsonaro, o ex-diretor-geral da AgĂȘncia Brasileira de InteligĂȘncia (Abin) e atual deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ), o ex-ministro da Justiça e ex-secretĂĄrio de Segurança PĂșblica do Distrito Federal Anderson Torres, o general da reserva e ex-chefe do Gabinete de Segurança Institucional Augusto Heleno, o tenente-coronel e ex-ajudante de ordens da PresidĂȘncia da RepĂșblica Mauro Cid, o general e ex-ministro da Defesa Paulo SĂ©rgio Nogueira, o general da reserva e ex-ministro da Casa Civil Walter Braga Netto, e o almirante e ex-comandante da Marinha Almir Garnier Santos.
Falta agora pelo menos mais trĂȘs grupos que comporiam os nĂșcleos trĂȘs, quatro e cinco.
