“O que são aquelas listras brancas com um monte de quadrados verdes na frente?” Pela primeira vez fora de Alagoas, o sem-terra Sebastião Rodrigues, 54 anos, que participou da marcha dos sem-terra, surpreende-se com a paisagem de uma cidade pontilhada de monumentos e construções modernas.
As listras, no caso, são o Congresso Nacional. Os quadrados, os prédios da Esplanada dos Ministérios, onde horas mais tarde Sebastião iria se juntar a 12 mil sem-terra para protestar contra a política econômica e pedir reforma agrária.
“Ah, então ali é onde está o poder”, confere o agricultor, que só sabe assinar o nome e vive num acampamento do MST no município de Traipu, vizinho a Arapiraca.
A casa de Sebastião é um barraco. Ali, ele vive sozinho sem energia nem água tratada. Separado da mulher e dos 13 filhos há seis anos, saiu do sítio onde morava com eles e foi morar com os sem-terra.
Sabe o que acontece no mundo por meio de um radinho de pilha que funciona de vez em quando. Às vezes, o radinho fica sem pilha até 20 dias.
Televisão, só vê quando vai a Arapiraca. “Não sei nem ligar”, confessa. Antes de Brasília, o lugar mais distante que visitou foi Maceió para manifestações e encontros do MST. “Mesmo assim, não conheço quase nada da cidade”, admite. “Só fico lá de passagem.”
Ao avistar o Lago Paranoá, Sebastião não se contém: “Isso aqui é um rio?”. Quando lhe digo que é um lago, não entende: “Lago, o quê?” “Um monte de água parada”, explico. “Na minha terra, a gente chama isso de poço, de barragem. Isso aqui é um poço bem grande”, retruca.
Os edifícios arrojados de Oscar Niemeyer chamam a atenção dele. “Nunca tinha visto prédio com tanta curva. Sei que está firme, mas parece que tudo vai cair”, deixa escapar em frente ao Panteão, na Praça dos Três Poderes. O Panteão é um museu dedicado aos heróis brasileiros – Tiradentes e Zumbi dos Palmares, entre outros.
O deslumbramento de Sebastião não se limita à paisagem de Brasília. No shopping, se entusiasma ao usar pela primeira vez uma escada rolante que só conhecia da televisão. “Dizem que a gente tem de ser mais rápido que ela”, observa, para depois comemorar quando consegue ser mais rápido do que a escada.
De elevador, Sebastião não tem medo. “Já andei uma vez”, revela. Mas o elevador que fala, ele não conhecia. Só depois de algum tempo é que se dá conta de que a voz que anunciava os andares era uma gravação. “Achava que tinha alguém escondido”, diz, enquanto ri do seu próprio desconhecimento.
Na hora do almoço no shopping, Sebastião não estranha o cardápio: bife de maminha, arroz, feijão e farofa. Estranha o molho vinagrete: “Isso não é forte?” Primeiro, ele põe umas gotas. Só então derrama o restante. “Às vezes, eu cozinho, mas no acampamento as mulheres costumam preparar e distribuir as quentinhas”, conta.
De volta ao acampamento montado pelo MST no estacionamento do estádio Mané Garrincha, Sebastião faz questão de dizer que nunca viu “tanta belezura” na vida. E que só isso compensou os 17 dias de caminhada entre Goiânia e Brasília.
(Publicado aqui em 26 de maio de 2005)
