Meu pai chorava com facilidade e por qualquer motivo. Era da natureza dele, quĆmico, pianista e boĆŖmio. Chorava quando recebia um carinho. Chorava quando ouvia Isaurinha GarciaĀ cantando.
Para seu Gilvan, pelo Sport, tudo ā atĆ© faltar ao nascimento de um filho para nĆ£o perder um jogo. Ainda bem que ele nĆ£o viveu para ver o Sport liderar o BrasileirĆ£o de trĆ”s para frente.
Em matĆ©ria de choro, puxei a ele.Ā Chorei nas trĆŖs vezes que assisti com meus filhos ao filme E.T ā O Extra Terrestre. Como nĆ£o chorar quando o ET se despede de Elliott e lhe aponta o dedo luminoso?
Por isso, confesso: li e reli a carta aberta dirigida pelo senador FlÔvio Bolsonaro ao seu pai e postada por ele nas redes sociais, e não derramei uma lÔgrima. Transcrevo-a para sua avaliação:
āFica firme, pai, nĆ£o vĆ£o nos calar!
A proposital humilhação deixarÔ cicatrizes nas nossas almas, mas servirão de motivação para continuarmos lutando pelo nosso Brasil livre de déspotas.
Proibir o pai de falar com o próprio filho Ć© o maior sĆmbolo do ódio que tomou conta de Alexandre de Moraes para tomar medidas totalmente desnecessĆ”rias e covardes.
TĆpico de uma inquisição, que jĆ” tem a sentenƧa final pronta antes mesmo de comeƧar. Em que a capa do processo Ć© a principal āprovaā.
O ardil Ć© tanto, que faz exatamente no inĆcio do recesso parlamentar, quando BrasĆlia estĆ” vazia. Mas seu cĆ”lculo certamente esqueceu de levar em conta que hoje, 18/Jul, Ć© o Mandela Day. Dia em que o mundo celebra o sĆmbolo de resistĆŖncia e luta pela liberdade!
NĆ£o Ć© uma coincidĆŖncia apenas!
Até os nossos adversÔrios sabem da sua inocência, da sua honestidade.
E todos nós sabemos que você não merecia estar passando por isso.
Deus vai te honrar, pai!
O mundo dÔ volta rÔpido e o povo fica ao lado de quem é injustamente perseguido, como você estÔ sendo, implacavelmente, hÔ anos.
Vai sair ainda maior e mais forte de tudo isso, para liderar o resgate do nosso Brasil!ā
Não é uma carta, é um manifesto, uma peça de propaganda. Não foi escrita com o propósito de confortar o pai algemado a uma tornozeleira, mas de despertar a ira dos seus seguidores fanÔticos.
Bolsonaro Ć© processado pelos crimes que cometeu. Bolsonaro estĆ” quase preso porque seu filho Eduardo, a mando dele, conspira nos Estados Unidos contra os interesses do seu próprio paĆs.
Eduardo comemora a decisĆ£o do governo norte-americano de sancionar o Brasil. Porque nĆ£o mais se trata de tarifaƧo, mas de intervenção violenta nos assuntos internos de outro paĆs.
Tarifaço se negocia por mais absurdo que ele seja. Intervenção, mesmo que por meio de palavras, é um fato consumado. Ou se imagina que amanhã Trump poderÔ pedir desculpas?
Trump dobrou a aposta ao impor restrições a ministros do Supremo Tribunal Federal, agora proibidos de entrar nos Estados Unidos. Nos próximos dias, triplicarÔ a aposta.
O agente laranja quer impedir que Lula governe e se reeleja. Bolsonaro nĆ£o lhe importa. Importa a Trump que o sucessor de Lula, seja quem for, vista o bonĆ© do āMake America Great Againā.
O dramaturgo Nelson Rodrigues dizia queĀ āo Brasil nĆ£o Ć© uma pĆ”tria, nĆ£o Ć© uma nação, nĆ£o Ć© um povo, mas uma paisagemā.Ā JĆ” passa da hora de desmenti-lo. Ou a hora pode ser esta.
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