A verdade, meus caros amigos, é que o governo e parte da Câmara dos Deputados se tornaram reféns do deputado Roberto Jefferson, presidente nacional do PTB – e das fitas e documentos com os quais ele pretende provar o que disse em explosiva entrevista sobre o Mensalão do PT.
Imagine se ele tivesse gravado alguma conversa embaraçosa com qualquer um dos mais poderosos ministros do governo? Ou a confissão de colegas que recebiam o mensalão?
Tem um deputado recém-separado da mulher em pânico com a hipótese de ela se oferecer para depor. E que diga que seu ex-marido foi muito além de receber o mensalão – ajudou na logística do pagamento. Sim, porque a logística não era tão simples assim.
Uma vez por mês, em dinheiro vivo, o mensalão era entregue a grupos de deputados. E em locais diferentes – embora sempre neles.
Fitas de câmeras de segurança instaladas na portaria de alguns prédios talvez tenham registrado o entra e sai de deputados com destino aos mesmos endereços, e quase sempre no mesmo dia do mês, quase sempre à mesma hora. Até aqui, Jefferson está mandando no jogo e ditando suas regras.
Pareceu começar a afundar quando a Veja publicou a fita onde um diretor dos Correios dizia que ele chefiava a roubalheira em algumas empresas estatais.
Jefferson deu a volta por cima: fez na Câmara um discurso elogiado pelos líderes do governo e até por ministros, exibiu uma carta do seu acusador se retratando, e mandou o PTB assinar o pedido de criação da CPI dos Correios.
Ao perceber mais tarde que poderia ser jogado no esgoto pelo governo interessado em salvar a própria pele, revelou a existência do segredo mais conhecido da República – a propina paga a deputados para que votassem de comum acordo com o PT.
E o governo mergulhou na crise mais grave de sua curta história.
A mídia bateu duro em Jefferson por dias a fio depois da publicação da fita dos Correios. Ela agora bate no governo. Jefferson e o governo trocaram de posição.
O governo corre atrás do prejuízo e precisa provar que Jefferson roubava ou pedia a seus correligionários que roubassem. Imagina que se o desqualificar, o que ele disser depois soará menos convincente.
A questão é: Jefferson sabe as cartas que o governo tem na mão. Porque sabe o que fez ou deixou de fazer. O governo desconhece as cartas que ele tem ou diz que tem.
(Publicado aqui em 22 de julho de 2005)
